MASCULINIDADE OU MEDO?

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Eu choro, tenho medo, peço ajuda, mudo de ideia e, em alguns dias, simplesmente não dou conta. Não vejo por que deveria esconder isso, embora saiba que, para muitos homens, admitir qualquer uma dessas coisas ainda pareça motivo de vergonha. Basta ouvir a conversa quando alguém conta que chorou ou que está passando por um momento difícil. Sempre aparece quem recomende firmeza, como se o sofrimento pudesse ser interrompido por uma ordem.

Essa reação começa cedo. O menino cai, sente dor e escuta que homem não chora. Cresce aprendendo que o medo deve ser escondido, que pedir carinho é sinal de fraqueza e que falar dos próprios problemas incomoda os outros. Depois de adulto, pode passar anos agindo de acordo com essas regras sem sequer perceber que continua obedecendo às mesmas vozes da infância.

O resultado aparece nas amizades. Dois homens conseguem conversar durante horas sobre trabalho, política, futebol ou dinheiro, mas ficam constrangidos quando um deles começa a falar da solidão. Conhecem os problemas profissionais um do outro, sabem de brigas e separações, trocam favores e, mesmo assim, podem desconhecer o que acontece quando cada um chega em casa e fecha a porta. A intimidade existe em vários assuntos, mas encontra um limite justamente quando alguém mais precisa de companhia.

É fácil imaginar a resposta à pergunta “Como você está?”. “Tô de boa”, diz o homem que passou o domingo sozinho, que brigou com o filho ou que anda acordando angustiado. A expressão encerra o assunto e dispensa explicações. Nem toda reserva significa sofrimento escondido, claro, e ninguém tem obrigação de contar o que sente. Mas, em certas ocasiões, a resposta sai antes que a pessoa consiga decidir se gostaria de conversar. O receio de ouvir uma piada ou de ser tratado com pena já resolveu a questão por ela.

Essa ideia de masculinidade encontra pouco apoio na tradição judaica que conheço. No Tanach, homens choram e lamentam perdas. Em Pirkei Avot, Ben Zoma pergunta: “Quem é forte?” Sua resposta aponta para aquele que domina as próprias inclinações. A força, nesse ensinamento, exige autodomínio, algo diferente de se obrigar a aparentar invulnerabilidade diante dos outros. Na mesma passagem, o sábio é definido como aquele que aprende com todas as pessoas. Para aprender, é necessário aceitar que a própria opinião pode estar errada.

Na Cabalá, as klipot são descritas como cascas que encobrem aquilo que está dentro. Penso nessa imagem quando vejo o quanto um homem pode se acostumar a disfarçar seus sentimentos. A reserva pode ter começado como proteção diante de zombarias e humilhações reais. Anos depois, os amigos já não sabem quando ele está triste, a família não percebe que precisa de companhia e ele próprio encontra dificuldade para explicar o que sente. Aquilo que o protegeu do constrangimento também passou a afastá-lo das pessoas.

Não falta sofrimento por trás de algumas demonstrações de dureza. Há quem evite procurar um filho depois de uma discussão porque teria de reconhecer um erro; quem permaneça numa relação infeliz por vergonha de admitir o fracasso; quem se afaste dos amigos quando a angústia aumenta, justamente no momento em que sente falta de alguém. A preocupação com a imagem de homem forte termina interferindo nas escolhas mais particulares.

Maimônides defendia a moderação como caminho para muitas virtudes, sem tomar os extremos como modelo. Essa noção me parece útil quando alguém confunde firmeza com a obrigação de suportar tudo calado. Saber enfrentar um problema é importante, mas reconhecer um limite também faz parte da vida adulta. Não há contradição em ser capaz de tomar decisões difíceis e, em outra ocasião, precisar de um amigo para conversar.

Quando digo que choro, que tenho medo ou que peço ajuda, não espero ser considerado corajoso por isso. São coisas que acontecem comigo, assim como acontecem com outros homens que raramente falam a respeito. A dificuldade maior nem sempre está em pronunciar “eu não tô legal”, mas em imaginar o que virá depois: uma brincadeira, uma mudança de assunto, um olhar de reprovação. Por isso, tantas conversas continuam no terreno conhecido, mesmo entre amigos de longa data.

E pensar que, em certas ocasiões, duas pessoas estão sentadas à mesma mesa, ambas precisando conversar, e cada uma responde “tô de boa” para não constranger a outra.

Claudio Novakz – Crônicas sobre o que os homens não contam.