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No princípio, o homem criou Deus conforme a sua imagem e necessidades. Quando precisou de perdão, encontrou um Deus misericordioso; quando quis ver o inimigo sofrer, descobriu que a misericórdia tinha limites e que a justiça divina precisava ser severa. A compreensão que reivindicava para si já não parecia tão necessária diante dos erros alheios.
A existência de Deus não se resolve pela facilidade com que o fazemos concordar conosco. O divino pode estar além da nossa compreensão, enquanto a imagem que fazemos dele continua recebendo nossas preferências. É possível acreditar sinceramente e encontrar em cada passagem sagrada a confirmação do que já se pensava antes de lê-la, sobretudo quando as exigências capazes de contrariar essa opinião recebem menos atenção.
Admitir que desconhecemos a vontade de Deus é perder uma garantia que faz falta quando precisamos decidir. Podemos estar errados, mesmo convictos, e temos de responder pelo que escolhemos, porque é mais confortável acreditar que nossa decisão conta com a aprovação do céu. Nesse caso, mudar de ideia pode parecer fraqueza, enquanto insistir no erro ganha o prestígio de uma demonstração de fé.
E o homem disse: “Façamos Deus à nossa imagem e semelhança, conforme a nossa conveniência”. Que ele proteja os costumes em que crescemos e condene quem os desafia. Se desejamos vencer uma guerra, que a vitória também lhe interesse; se queremos conservar o poder, que obedecer a nós seja uma obrigação religiosa. O adversário passa a enfrentar uma condenação que já não admite defesa, porque quem o acusa fala em nome de uma autoridade que ninguém pode interrogar.
Essa intimidade com os desejos de Deus também cabe na vida de uma pessoa. Quem mede o próprio valor pelo dinheiro encontra na prosperidade um sinal de preferência divina, sem perguntar o que essa explicação reserva a quem passa necessidade; quem alimenta um ressentimento espera que o castigo do outro confirme sua razão. Há exigências da fé que pedem renúncia, mas elas se tornam menos urgentes quando a crença já oferece argumentos para conservar o que desejamos.
Até o paraíso pode obedecer a essa preferência: a gente chega à eternidade com os gostos de sempre, esperando uma abundância sem esforço e uma satisfação que ninguém interrompa. Nessa imagem, estar salvo dispensa aprender a desejar de outra maneira, porque tudo o que nos agradava aqui estará disponível para sempre.
A conveniência se torna mais perigosa quando o mundo é entendido como propriedade entregue à humanidade. Sob essa leitura, a floresta passa a valer pela madeira que se consegue vender, e os animais, pela utilidade que oferecem. Quem deseja explorar encontra no domínio sobre a criação uma autorização suficiente; perguntar pelo limite dessa exploração significaria arriscar o lucro que já se espera obter.
Essa autoridade também pode render dinheiro a quem promete recompensas divinas em troca de ofertas. O fiel entrega uma parte do que tem, enquanto o benefício anunciado depende de uma promessa que ele não tem como verificar. A sinceridade de quem oferece não garante a de quem recebe, e uma necessidade de amparo pode ser explorada por alguém que se apresenta como porta-voz do Divino.
A religião abriga uma busca por sentido diante da morte e do que não conseguimos explicar, e essa busca convive com interpretações formuladas em sociedades que tinham seus conflitos e interesses. Quando uma dessas leituras recebe o valor de palavra definitiva de Deus, torna-se difícil reconhecer nela a escolha de alguém. Questionar o intérprete passa a ser uma afronta ao sagrado, e ele ganha uma proteção que nenhuma opinião assumidamente humana teria.
A partir daí, o homem pode tomar a condenação que formulou por uma ordem recebida. Sustenta um preconceito e depois se submete a ele com a disciplina de quem acredita obedecer; a crueldade ganha uma justificativa capaz de dispensar o remorso, enquanto ele continua decidindo quem será perseguido e quanto sofrimento será imposto.
Quando a vítima pede explicações, ele responde que Deus quis assim. Se ela recusa a resposta, sua revolta ainda pode servir de prova de que merecia o castigo.
Ao tentar domesticar o divino, o homem transforma Deus em cúmplice dos próprios interesses e usa essa autoridade para fugir da responsabilidade pelo que faz. A vingança passa a se chamar justiça, enquanto o desejo de poder ganha a aparência de obediência. A blasfêmia se completa quando ele exige que sua crueldade seja respeitada como uma expressão de fé.
Claudio Novakz – Crônicas sobre o que os homens não contam.