Masculinidade ou medo?

Eu choro, eu tenho medo, eu peço ajuda, eu mudo de ideia, eu escuto, eu admito quando não sei e, às vezes, simplesmente não dou conta.

Há homens que leem uma frase como essa e sentem imediatamente a necessidade de corrigi-la. Alguma coisa dentro deles reage como se a masculinidade fosse uma estrutura muito frágil, capaz de desabar diante de uma lágrima, de uma dúvida ou de um pedido de ajuda.

O homem seguro de si não deveria precisar demonstrar o tempo inteiro que é homem; quem precisa reafirmar uma identidade a cada gesto está menos convicto dela do que gostaria de admitir.

A maioria dos homens foi educada dentro de uma pedagogia arcaica de que homem aguenta. A palavra muda conforme a família, a classe social, a cidade ou a geração, mas a ideia permanece. Homem não chora, homem suporta, homem não demonstra medo, homem não expõe fraqueza, homem não precisa de colo, homem não pede ajuda.

A tradição judaica oferece uma imagem de força muito diferente daquela que costuma circular entre homens. Em Pirkei Avot, Shimon ben Zoma pergunta: “Quem é forte?” A resposta é desconcertante para quem associa força a domínio, resistência ou imposição: “forte é aquele que governa a si mesmo”.

Chamamos de força muitos comportamentos que eram apenas incapacidade de permanecer diante da própria vulnerabilidade. O homem que nunca chora pode parecer forte, mas apenas não sabe chorar. O homem que nunca admite medo pode parecer corajoso, mas pode ter construído uma vida inteira fugindo daquilo que sente.

Essa fuga assume formas muito concretas. Há homens que permanecem vinte e tantos anos em relações destruídas por medo de que admitir sofrimento pareça fracasso. Há homens que não procuram os filhos depois de uma briga porque pedir desculpas seria uma derrota. Há homens que se afastam dos amigos quando a ansiedade e a angústia apertam, preferem se isolar no quarto e chorar sozinho, com o coração dilacerado, apenas porque se abrir com um amigo e dizer “cara, eu não tô legal” poderia afetar a sua masculinidade.

O fato é que o homem real quebra, se contradiz, tem medos, precisa de ajuda e, às vezes, descobre que não consegue aguentar aquilo que prometeu sustentar. Ainda assim, muitos preferem manter o personagem. Mas o preço de encenar o tempo todo é alto.

E essa exigência de encenação não encontra respaldo sequer nas próprias fontes que moldaram parte da nossa tradição. Ao ler o Tanach, percebemos que as escrituras não têm grande preocupação em criar homens emocionalmente esterilizados. Os sábios judeus dos tempos bíblicos nunca se envergonharam de demonstrar a própria humanidade; nós é que criamos essa vergonha. No comportamento performático do homem moderno, sobretudo na cultura dos países latinos, confundimos masculinidade com invulnerabilidade; a questão é que invulnerabilidade não existe.

Para muitos homens, encenar funciona como uma armadura que evita constrangimentos, críticas e rejeições. Ainda menino, ele percebe que algumas emoções custam caro, pois quando chora alguém ri, quando demonstra medo alguém o diminui, quando pede carinho recebe deboche. Então aprende a se proteger.

Mas a armadura que salvou o menino começa a sufocar o adulto.

Na mística judaica, existe a imagem das klipot, as cascas que recobrem e ocultam aquilo que está dentro. A metáfora serve bem para esse homem que passou tanto tempo se protegendo que já não sabe distinguir entre sua essência e sua defesa.

O problema não é ter construído cascas, porque todos construímos; o problema é esquecer que casca não é identidade. Existe um tipo de masculinidade que só se sente segura quando permanece fechada, e basta uma fissura para surgir o medo de estar se tornando “menos homem”. Por isso alguns homens têm mais medo de parecer frágeis do que de realmente estar sofrendo. Essa inversão é brutal!

Quando parecer forte se torna mais importante do que reconhecer o sofrimento, o resultado aparece na própria vida. É assim que homens adoecem em silêncio, se isolam, bebem demais, trabalham demais, explodem em casa e continuam dizendo que está tudo bem.

A frase “tô de boa”, em certos contextos, deveria ser interpretada como pedido de socorro.

Maimônides, um dos maiores sábios do judaísmo, ensinava que a virtude está no equilíbrio e que os extremos podem deformar o caráter. A firmeza, quando já não admite flexibilidade, deixa de ser força e se transforma em dureza.

Essa dureza também cobra seu preço nas relações. O homem que nunca se abre pode até se proteger do julgamento, da rejeição e do constrangimento, mas paga por essa proteção com isolamento, porque ninguém consegue conhecer verdadeiramente alguém que está sempre representando força.

É por isso que tantas amizades entre homens permanecem rasas durante décadas. Amigos se encontram, conversam sobre trabalho, política, esporte, dinheiro, projetos, carros, mulheres, outros homens e problemas externos, mas raramente chegam àquela região onde uma frase simples poderia mudar tudo: “Eu não estou bem.”

Às vezes, uma amizade espera anos por essa frase, mas ninguém a pronuncia, e assim seguem representando o papel de homens fortes, preservando a pose de “machos alfa” enquanto o teatro continua. Por fora, controle e segurança; por dentro, solidão e feridas que ninguém conhece.

É justamente nesse ponto que outro ensinamento de Pirkei Avot amplia a discussão. Pirkei Avot também pergunta: “Quem é sábio?” A resposta é direta: aquele que aprende com todas as pessoas. E aprender exige reconhecer que não sabemos tudo, que podemos ouvir, reconsiderar e mudar de ideia sem perder dignidade. Um homem seguro da própria masculinidade não precisa transformar certeza em armadura nem fazer da razão uma disputa permanente. Ter a coragem de se abrir e saber ouvir quem se abre, sem julgamentos, não diminuem um homem; revelam que ele já não precisa defender o próprio ego como se estivesse defendendo a própria identidade.

Sinceramente, eu não tenho interesse numa masculinidade que precise da minha mutilação emocional para continuar de pé. Se, para ser homem, eu precisar negar medo, necessidade, tristeza, dúvida, ternura e limite, então essa masculinidade é frágil demais para me servir. Prefiro outra, que não precise ser defendida toda vez que eu me abrir, que me permita dizer “eu não sei” sem humilhação e que suporte um pedido de ajuda.

O homem se torna realmente livre quando deixa de viver sob o tribunal permanente da masculinidade, porque já não precisa provar nada a cada gesto e pode simplesmente ser.

Eis o ponto mais desconfortável de todos: se a sua masculinidade entra em risco cada vez que você chora, pede ajuda, admite medo ou revela fraqueza, o problema nunca esteve na sua vulnerabilidade, mas na fragilidade daquilo que você aprendeu a chamar de força.

Claudio Novakz – Crônicas urbanas sobre o que ninguém diz