O DEUS VOYEUR

Me lembro bem do dia em que li, quase sem prestar atenção, uma nota curta em um site de notícias dando conta de que um artista conhecido tinha ficado noiva, e a palavra apareceu assim mesmo, no feminino, acompanhada de uma foto recente, cabelo alinhado, roupa clara, expressão controlada diante da câmera, e confesso que fechei a página com a mesma neutralidade com que se ignora uma manchete sobre algo que não altera o horário do ônibus nem o valor do aluguel, porque a vida íntima de alguém que nunca dividiu comigo uma mesa, um aperto de mão ou uma conversa longa não interfere em nada no andamento do meu dia.

Pouco me importa qual gênero essa pessoa afirma ser, qual artigo prefere ouvir antes do nome ou qual pronome deseja que usem, porque isso não muda a sequência objetiva das coisas que me cercam, não altera o barulho dos carros na rua, não reduz nem aumenta o cansaço que se acumula no corpo ao fim da tarde, e não vejo motivo razoável pra transformar escolhas alheias em um problema pessoal quando elas não atravessam a minha rotina nem causam dano físico a terceiros.

O que realmente me fez parar e reler a notícia não foi o fato em si, mas os comentários que surgiram logo abaixo, aqueles textos escritos com pressa, cheios de exclamações e palavras em caixa alta, onde algumas pessoas, se apresentando como religiosas, afirmavam que aquilo era uma safadeza que Deus abomina, citando trechos bíblicos com a precisão de quem consulta um manual, como se o comportamento de um estranho fosse assunto de interesse direto de uma autoridade divina permanentemente vigilante.

Nesse momento, me veio à memória Desmond Tutu, arcebispo anglicano na África do Sul, ativista pelos direitos civis, um homem reconhecido internacionalmente, que certa vez afirmou, de forma clara, que Deus não é cristão, frase que provocou reações imediatas, editoriais indignados e discursos inflamados, mas que, passada a turbulência inicial, permaneceu como uma observação lógica de que nenhuma religião pode reivindicar exclusividade sobre uma divindade que, se existe, não cabe dentro de um único livro, de uma única tradição ou de um único conjunto de costumes.

Quando penso nisso com um mínimo de atenção, sentado numa cadeira comum, com o som distante de uma televisão ligada no apartamento vizinho e o cheiro de café requentado no ar, me parece no mínimo estranho que alguém utilize apenas o próprio código religioso pra julgar o modo de vida de pessoas que não compartilham daquela mesma fé, ignorando que o mundo está cheio de indivíduos que vivem fora desse enquadramento e ainda assim enfrentam as mesmas dificuldades materiais, trabalham, adoecem, envelhecem e morrem sob as mesmas condições físicas.

A partir daí, a reflexão segue quase sozinha, puxada pelo desconforto lógico da situação, porque se esse Deus judaico-cristão, descrito como criador de tudo, realmente existe, fica difícil imaginar que a agenda dele esteja concentrada em observar quem se relaciona sexualmente com quem, enquanto há pessoas dormindo em calçadas frias, crianças sem acesso à água limpa, mulheres sendo agredidas dentro de casa, religiosos abusando da fé alheia, hospitais lotados de corpos cansados ligados a aparelhos que apitam sem parar, e famílias inteiras esperando por algum tipo de alívio que nunca chega.

Diante desse cenário, uma pergunta acaba surgindo, não como provocação gratuita, mas como resultado direto da observação dos fatos e da tentativa mínima de coerência: você realmente acredita em um deus voyeur que passa o tempo observando as pessoas treparem? A formulação pode soar rude pra alguns, mas ela apenas expõe, de forma direta, a imagem que se constrói quando se atribui a uma divindade onipotente o papel de fiscal de comportamentos íntimos, enquanto tragédias concretas se acumulam diante dos olhos humanos todos os dias.

Quando alguém rotula esse tipo de relação como safadeza, talvez valha a pena parar e definir com cuidado o significado da palavra, porque no uso cotidiano ela acaba servindo como um rótulo conveniente, aplicado sem critério, e se eu observo a vida ao redor com um mínimo de honestidade, encontro safadeza em atitudes muito mais visíveis e mensuráveis, como virar o rosto diante de alguém pedindo ajuda, usar uma aparência cordial enquanto se planeja prejudicar outra pessoa, ou ignorar deliberadamente o sofrimento alheio por puro conforto pessoal.

Essas situações são registráveis, filmáveis, produzem efeitos diretos e deixam marcas reais em corpos e trajetórias, enquanto o vínculo afetivo entre duas pessoas adultas, estabelecido de forma consentida, não gera esse tipo de consequência observável, e aí a insistência em condenar esse comportamento passa a dizer mais sobre quem julga do que sobre quem vive a relação.

Se há cuidado mútuo, presença cotidiana, divisão de responsabilidades e enfrentamento conjunto das dificuldades práticas da vida, o fato de serem dois homens ou duas mulheres não altera a estrutura concreta desse vínculo, que continua sendo feita de acordar cedo, pagar contas, lidar com doenças, enfrentar perdas e envelhecer, e nada disso ameaça a existência de quem observa de fora, a menos que esse observador esteja mais interessado em controlar do que em compreender.

A verdade é que, quando alguém sustenta a imagem de um Deus atento a esse tipo específico de detalhe, o que aparece não é uma revelação teológica profunda, mas uma necessidade humana recorrente de vigiar, classificar e punir comportamentos que fogem da própria norma, como se esse controle oferecesse alguma sensação de ordem ou conforto, e talvez a pergunta mais honesta não seja sobre quem se deita com quem, mas sobre o que cada um faz, na prática diária, diante da dor concreta que continua se apresentando bem diante dos olhos.