DEUS VOYEUR

Há algum tempo, os jornais e revistas noticiaram que certo artista havia ficado “noiva”. Confesso, não me comoveu nem um pouco. Não por desinteresse no assunto da diversidade, mas simplesmente porque a vida alheia, sobretudo a sexual, deixou de ser um tema que me desperte curiosidade. Cada um que viva o que o coração manda. Não me importam artigos definidos, pronomes neutros ou a etiqueta do gênero. A felicidade, convenhamos, não precisa de legenda.

O que realmente me surpreende é a reação das pessoas. Li comentários inflamados nas redes sociais, daqueles com letras maiúsculas e versículos fora de contexto, proclamando que tal atitude é uma “safadeza que Deus abomina”. Segundo os autointitulados porta-vozes do Todo-Poderoso, a Bíblia estaria repleta de passagens que condenam o comportamento homossexual. É curioso como tantos se lembram do juízo divino apenas quando se trata de fiscalizar a vida dos outros.

Desmond Tutu, arcebispo anglicano e Nobel da Paz, certa vez afirmou que “Deus não é cristão”. A frase causou espanto, mas a mensagem é de uma clareza quase desconcertante. Se Deus não pertence a uma religião, por que quem não é cristão deveria pautar-se pela Bíblia? E, mais ainda: quem disse que até os que são precisam ler o texto sagrado como um manual de polícia moral?

Às vezes me pergunto se o Deus das Escrituras não teria ocupações mais urgentes do que contar quantos pares de amantes há na Terra. Com guerras, fome e miséria em abundância, com hospitais lotados de gente implorando por um milagre, é plausível imaginar uma divindade ociosa, de binóculo em punho, espiando camas e punindo beijos inconvenientes? Um deus voyeur, mesquinho e ciumento, que julga com base em tabus humanos, não seria, afinal, uma caricatura banal de nós mesmos?

E quanto à palavra “safadeza”, que tantos usam para rotular o amor dos outros, talvez valha uma reformulação. Safadeza, mesmo, é uma mãe abandonar o filho. Safadeza é se tapar os ouvidos para o pedido de ajuda de quem sofre. Safadeza é o egoísmo travestido de virtude, a indiferença cotidiana, o prazer em julgar. Ah, quantas safadezas bem vestidas desfilam por aí sem causar escândalo.

O amor entre duas pessoas, esse, sim, um sentimento raro e frágil, não deveria ser colocado sob suspeita. O amor, com ou sem gênero, é o que há de mais divino em nós. Se há ternura, respeito e entrega, não há impureza. Há apenas a tentativa humana, e bela, de se aproximar do sagrado pela via da entrega ao outro.

Ou você realmente acredita em um deus voyeur, desses que passam a eternidade espiando os lençóis alheios?