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Eu caminhava apressado pela Paulista, tentando manter sobre a cabeça um guarda-chuva de hastes tortas que o vento dobrava. A água já tinha encharcado meu ombro, e, enquanto esperava o farol abrir, vi as pessoas se esbarrando na tentativa de caber debaixo dos toldos. Foi quando reparei numa mulher bonita a alguns metros de mim, protegida por um guarda-chuva vermelho, grande o bastante para mais alguém.
Ela veio na minha direção, sorriu e perguntou: “Quer uma carona?” Aceitei a carona de guarda-chuva, encantado com a mulher e bastante interessado em ficar menos molhado. Ela passou o braço pelo meu, e seguimos juntos, desviando das poças e rindo dos tropeços.
Depois de alguns metros, perguntou o que eu fazia. Suspirei antes de responder “Trabalho com contabilidade”, pouco animado com o efeito que aquela informação poderia ter na conversa. Mas ela sorriu e balançou meu braço, mantendo a mesma disposição. Quando devolvi a pergunta, respondeu sem constrangimento: “Trabalho no job… garota de programa, sabe”.
Dei uma risada nervosa e, na pressa de continuar a conversa, perguntei como estava sendo o trabalho naqueles dias de chuva. Ela riu com o corpo todo, e eu me senti menos atrapalhado. Contou que o movimento estava fraco e as contas, difíceis de pagar. Pretendia continuar até terminar a faculdade de administração; depois, queria deixar aquela ocupação.
Era a primeira vez que eu conversava com uma garota de programa, e fiquei curioso para saber de uma vida sobre a qual nunca tinha pensado com tanta proximidade. Falei de planilhas, holerites e declarações de imposto de renda; ela contou dos clientes fixos, da saudade da mãe e da falta que sentia de um amor verdadeiro. Eu não sabia quanto daquilo era verdade, mas não me importei em descobrir; à medida que a conversa seguia, comecei a gostar cada vez mais de estar com ela.
Perguntei se já tinha saído com algum famoso. Ela disse que sim, fez mistério e piscou, sem me dar um nome. Eu ria com uma facilidade que fazia tempo não sentia, interessado em tudo, querendo saber mais. Debaixo daquele guarda-chuva, voltei a me sentir com vinte e poucos anos, saindo de uma balada cheio de histórias inventadas.
Em algum momento, o corpo dela encostou no meu. Senti a pele morna e o perfume misturado à chuva. Já imaginava nós dois num motel, nos beijando enquanto os corpos se aqueciam entre lençóis secos, quando me lembrei do sorriso da minha esposa, grávida de oito meses. Perguntei “Topa um café?”, escolhendo o convite que me parecia menos culpado.
Ela aceitou, e ficamos mais de uma hora tomando cappuccino e rindo de coisas bobas. “Você acredita que eu odeio pudim?” se misturava a “Como assim você não tem Netflix?”, e a conversa seguia sem que a gente precisasse escolher o próximo assunto. Rimos do homem de terno escuro e meias brancas, que lembrava Michael Jackson, e da maneira como tínhamos nos conhecido no meio daquela chuva que não parava.
Eu me sentia cada vez mais atraído por ela. O café tinha prolongado a companhia, e agora eu precisava interromper uma conversa que gostaria de continuar. Pedi a conta antes de ceder à tentação, embora quisesse ficar mais um pouco. Sobre a mesa havia uma garrafa de água ainda cheia e um copo de café quase vazio; eu olhava para aquilo com a sensação de que estávamos indo embora cedo demais.
Ela se aproximou e me deu um beijo na bochecha, perto da boca. Com um meio sorriso, perguntou se a gente ainda se encontraria num dia de chuva forte como aquele. Assenti sem dizer nada, com medo de estragar aquele momento se tentasse responder.
Fiquei olhando o guarda-chuva vermelho até ela virar a esquina, já com saudade da conversa que tinha acabado. Não tinha seu telefone nem sobrenome para procurá-la. Ainda imaginei como teria sido se, em vez do café, nós tivéssemos ido a um motel, enquanto os carros passavam e os faróis se refletiam nas poças.
Claudio Novakz – Crônicas sobre o que os homens não contam.