A sociedade perdoa um homem por vender a alma, desde que ele não tenha a vulgaridade de informar o preço; deve ser por isso que escritores são convidados para feiras literárias enquanto prostitutas precisam negociar na janela entreaberta de um Corolla, embora ambos vivam de oferecer intimidade a desconhecidos e terminem a noite com a desagradável sensação de que cobraram pouco.
Foi essa reflexão que me levou à Avenida Industrial numa terça-feira abafada, quando até o café vagabundo já custava mais de sessenta reais o quilo e eu começava a suspeitar que, financeiramente, seria mais sensato colocar meu corpo à venda do que continuar oferecendo palavras a plataformas digitais que pagavam por leitura o equivalente a uma migalha observada de longe.
Eu ainda poderia tentar vender o corpo por quilo, embora quase todo o estoque estivesse concentrado na barriga. Aos cinquenta e tantos anos, carrego aquela capa adiposa típica de quem não tem grana para comprar Mounjaro, mas tudo encontra mercado quando a propaganda é suficientemente boa, e eu poderia me anunciar como “experiência madura”, “produto premium”, “masculinidade natural” ou qualquer outra expressão capaz de valorizar um corpo que já estava naquela fase em que a embalagem promete mais do que a mercadoria entrega.
Quem me empurrou para fora de casa, no entanto, não foi a inflação, a falência da literatura brasileira nem a esperança de ser apalpado por um executivo desesperado. Foram meus leitores e, mais precisamente, o Marcos.
Ele era o tipo de leitor que mandava mensagens de madrugada perguntando quando sairia texto novo, marcava meu perfil em citações de Dostoiévski como quem envia a fotografia de um atleta a um paralítico e, toda vez que eu publicava alguma coisa menos ácida, perguntava se eu tinha encontrado Jesus ou perdido testosterona.
Na semana anterior, enviou um áudio de dois minutos que precisei ouvir em velocidade acelerada. Começou reclamando que minha última crônica falava “da porra de um gato preto olhando pro nada”, observou que o gato não fez nada, o nada não respondeu e eu ainda tive a indecência de terminar com uma metáfora sobre solidão.
Eu poderia ter respondido que o gato era uma alegoria sobre a expectativa do leitor, mas a verdade é que nem o gato sabia por que estava no meu texto anterior. Eu simplesmente tinha ficado sem assunto.
Meu bloqueio criativo já durava três semanas, durante as quais tentei cafés especiais, caminhadas, vinho barato, abstinência de redes sociais e até filmes curtos do XVideos, sem qualquer resultado.
Numa noite qualquer, saí andando com um bloco de anotações, uma caneta BIC mordida e a esperança egoísta de encontrar uma tragédia alheia que eu pudesse transformar em história.
A Avenida Industrial, em Santo André, é um daqueles lugares que a cidade utiliza para separar a moral por turnos. Durante o dia, pertence aos estacionamentos, aos ônibus, ao shopping, às academias com paredes de vidro e aos escritórios de advocacia; à noite, quando as famílias respeitáveis recolhem as sacolas e os seguranças ajustam o rádio na cintura, a avenida troca de vocabulário sem mudar de negócio, porque continua vendendo conveniência, fantasia e alívio, apenas abandona a nota fiscal.
Os carros passavam devagar, as janelas desciam alguns centímetros e os rostos apareciam, avaliavam, calculavam e desapareciam.
Sentei no canteiro lateral, abri o bloco e fingi anotar alguma coisa importante. O gesto de escrever sempre me dava certa autoridade, porque as pessoas ainda confundem concentração com inteligência, mas naquela noite o bloco produziu um efeito diferente.
Um Corolla preto, com rodas cromadas e um perfume doce escapando pela janela, reduziu a velocidade diante de mim. O motorista era um homem grande, de barba desenhada, camisa apertada e corrente dourada no pescoço, e perguntou quanto eu cobrava.
Olhei em volta, esperando encontrar a pessoa a quem a pergunta realmente se destinava, até compreender que era comigo. Expliquei que não cobrava nada e que estava escrevendo.
Ele fez uma cara de quem não havia entendido muita coisa e perguntou:
“É passivo ou ativo?”
Minha imaginação, depois de passar semanas incapaz de inventar uma única metáfora, se recuperou imediatamente. Imaginei aquele homem ajoelhado diante de mim, depois me vi ajoelhado diante dele, e em ambas as cenas minha coluna reclamava.
“Nenhum dos dois, apenas observo”, respondi, numa tentativa de preservar o pouco prestígio que ainda carregava.
Ele deu uma risada irônica.
“Entendi. Coroa que curte voyeurismo deve ser porque o pau já não levanta.”
Ele riu e acelerou, deixando para trás o perfume barato e a constatação de que, em menos de vinte segundos, o meu trabalho de campo havia sido reposicionado.
A abordagem seguinte veio de um homem num sedã prateado, que ofereceu duzentos reais por “companhia discreta”. Um terceiro quis saber se eu fazia “giro completo”. Depois surgiu uma caminhonete importada conduzida por um rapaz com barba de influenciador financeiro e um boné que devia custar mais do que meu aluguel.
Ele diminuiu a velocidade e perguntou, aos gritos, se o pau do “tiozinho” ainda subia.
Caralho! Mais um idiota julgando a minha capacidade de ereção.
“Depende. Paga quanto?”, respondi, deixando claro que eu ainda me garantia.
O rapaz riu insolente e acelerou. Eu já considerava uma atualização no LinkedIn: “Escritor, cronista, observador urbano, tiozinho premium, disponibilidade imediata”. O algoritmo, sempre tão indiferente à literatura, demonstraria quem sabe algum entusiasmo diante de competências práticas.
Foi então que uma voz fina, vinda de alguns metros adiante, anunciou para ninguém em particular que eu só podia ser polícia ou escritor, com a ressalva de que escritor costumava pagar menos.
A dona da voz se aproximou sem pressa. Vestia uma blusa de paetês vermelhos que devolvia à iluminação pública um pouco da agressividade recebida, saia preta, sandálias altas e uma peruca loira ligeiramente deslocada para a esquerda. O rosto tinha uma maquiagem meticulosa, feita para sobreviver a calor, vento, fumaça e homens que juravam preferir “natural” depois de estacionar diante de uma mulher trans coberta de brilho.
Ela se sentou ao meu lado e quis saber se eu estava escrevendo sobre elas ou apesar delas. A pergunta me atingiu com a precisão desagradável das frases que gostaríamos de ter escrito, e confessei que, na verdade, estava tentando escrever qualquer coisa.
Ela olhou meu rosto por alguns segundos antes de concluir que aquilo era evidente, porque quem sabia o que estava escrevendo não fazia aquela cara. Segundo ela, eu tinha chegado procurando inspiração e agora estava preocupado com a possibilidade de levar um coió.
Tirou um cigarro de cravo de uma carteira amassada, acendeu ele devagarinho e soltou a fumaça lentamente. Quando confessei que estava sem ideias, recusou a desculpa imediatamente.
“Homem nunca fica sem ideia. O problema é que você quer escrever sobre a rua sem deixar a rua escrever sobre você.”
Disse que se chamava Cléo. Antes, tinha sido Nágila, Verônica, Lorena e, durante uma noite de bingo beneficente, Glória Menezes. Tinha mais de sessenta anos, embora declarasse “cinquenta e alguns traumas”, e trabalhava na avenida há tempo suficiente para reconhecer clientes pelo farol e pela buzina.
Quando me perguntou o que eu era, respondi que escritor, e ela quis saber se aquilo era ocupação ou diagnóstico. Anotei a frase, mas não consegui avançar muito, porque Cléo olhou para o bloco e perguntou quanto eu pretendia pagar pelo material.
Expliquei que se tratava apenas de uma conversa.
“Você chama de conversa porque pretende vender depois. Eu pelo menos aviso antes quando é trabalho.”
Fechei o bloco e deixei a caneta deitada sobre a capa. Contei que escrevia crônicas, que os leitores me cobravam textos novos, que as plataformas pagavam mal e que saí de casa naquela noite na esperança de encontrar alguma coisa que me devolvesse a vontade de escrever.
Cléo ouviu tudo e concluiu que eu também tinha vindo fazer programa, com a diferença de ainda não ter decidido quem era o cliente.
Um carro diminuiu a velocidade, ela ergueu dois dedos e o motorista seguiu adiante. Cléo explicou que aquele sempre pedia desconto, hábito que considerava uma tentativa masculina de transformar desejo em gestão financeira. O mesmo sujeito, disse, pagava cento e cinquenta reais num hambúrguer com nome em inglês e achava caro entregar cem reais a uma mulher trans para que ela fingisse estar tendo tesão.
A conversa avançou para as mudanças do trabalho. Segundo Cléo, tudo interferia na rua: aplicativo, polícia, igreja, prefeitura, gasolina, esposa desconfiada e filho que aprendeu a mexer no celular do pai. Antigamente, os homens chegavam com medo de serem vistos; agora, chegavam com medo de serem filmados.
Eu já anotava mentalmente quando ela me autorizou a voltar ao bloco, mas informou que, daquele momento em diante, havia tabela. Abriu o aplicativo do banco e estabeleceu cinquenta reais pela conversa, dez por frase citável, adicional caso eu a descrevesse como “figura folclórica”, porcentagem se o texto virasse livro e direito de veto sobre qualquer comparação com Rogéria, porque, segundo ela, todo escritor que encontrava uma mulher trans com mais de cinquenta anos recorria à mesma preguiça literária.
Concordei e fiz o Pix.
Ela conferiu o valor, guardou o celular e sorriu.
“Pronto. Agora pode me chamar de musa sem parecer cafetão.”
Foi assim que comecei a trabalhar naquela noite.
Cléo contou que, anos atrás, a avenida era mais movimentada, mais perigosa, mais rentável e, segundo sua memória, mais educada. Os clientes antigos ao menos sabiam mentir com estilo, enquanto os novos chegavam falando em “experiência”, “sigilo” e “conexão”, como se estivessem contratando uma consultoria. Também observou que havia homens capazes de pedir discrição dirigindo um carro com o próprio nome estampado na placa da concessionária, prova suficiente de que a vaidade sempre encontrava um jeito de estragar o segredo.
Os tipos, segundo ela, variavam menos do que imaginavam. Havia o casado que tirava a aliança e deixava a marca no dedo, o executivo que passava o dia demitindo gente e à noite pagava para ser chamado de bebê, o pastor que dizia querer apenas evangelizar, mas depois de alguma conversa acabava recebendo boquete, o progressista que defendia os direitos delas nas redes e pedia desconto ao vivo e, por fim, o moralista, seu preferido, porque costumava ser pontual e pagava sem discutir o preço.
Enquanto ela falava, os carros continuavam passando devagar. Um homem de terno e gravata colorida reduziu a velocidade, reconheceu Cléo e imediatamente fingiu interesse pelo retrovisor. Uma mulher num carro de aplicativo procurou “meninas novas”. Dois rapazes filmaram com o celular enquanto riam, até que uma das profissionais ergueu o dedo do meio e os mandou se foder.
Eu cheguei à avenida enxergando personagens antes de enxergar pessoas, uma forma literária de miopia moral. A roupa de Cléo pareceu descrição, a voz me pareceu recurso, a idade surgiu como contraste e sua vida inteira se ofereceu à minha cabeça como material; ela, em compensação, olhava para mim e via apenas um homem sentado num canteiro, sem assunto, tentando transformar o próprio fracasso em algum material de escrita.
Quando expliquei que escrevia porque não sabia fazer outra coisa, Cléo observou que todo homem sabia decepcionar sem treinamento e, portanto, eu certamente possuía ao menos uma segunda habilidade. Corrigi a resposta e disse que escrevia porque precisava entender as coisas.
“E entende?”
“Às vezes.”
“Então está cobrando por serviço incompleto.”
Foi nesse momento que um SUV cinza reduziu a velocidade diante de nós.
Reconheci primeiro o adesivo no vidro traseiro, uma frase sobre família, fraternidade e coragem, três palavras frequentemente reunidas por pessoas que têm medo de quase tudo. Depois vieram o perfil do motorista, o relógio grande, a camisa social aberta no primeiro botão e a expressão de quem passava a vida condenando publicamente aquilo que desejava em particular.
Era Marcos.
Meu celular vibrou quase no mesmo instante, e a mensagem dele apareceu na tela perguntando se sairia texto novo naquele dia ou se eu tinha morrido abraçado com o gato. Olhei pro carro, depois pro telefone e de novo pro carro, enquanto Cléo inclinava a cabeça e reconhecia “o doutor Planilha”.
Marcos empalideceu com tamanha rapidez que por um instante achei que teria um troço. Quando perguntou o que eu fazia ali, sua voz carregava a esperança de que a minha resposta fosse capaz de apagar a presença dele.
“Estou buscando material sobre hipocrisia urbana. E você?” repassei a pergunta pra ele.
Ele balançou a cabeça e disse que estava saindo de uma reunião. Cléo deu uma gargalhada gostosa, e Marcos apertou o volante.
Nas redes sociais, ele publicava vídeos sobre decadência moral, perda de valores, insegurança e necessidade de recuperar os espaços públicos para as famílias. Me lembrei especialmente de uma de suas postagens em que exigia a “revitalização definitiva” da Avenida Industrial, acompanhada por uma fotografia diurna diante de uma cafeteria minimalista. A legenda falava em limpeza, ordem e valorização e citava o @ de alguns políticos da cidade. Mas naquela noite, se eu não estivesse ali, Marcos teria consumido justamente o serviço que, em público, defendia que fosse removido da paisagem.
Marcos percebeu que eu já tinha material suficiente para uma crônica e tratou de estabelecer um limite: disse que eu não escreveria sobre o que tinha acabado de ver. Lembrei que ele passou meses me cobrando textos mais corajosos e mais próximos da realidade, mas a provocação perdeu a graça quando respondeu que sua vida particular não era assunto meu.
Cléo soltou a fumaça do cigarro e comentou que todo homem gostava de literatura realista até descobrir que ele próprio podia acabar dentro da história.
Marcos pediu que ela não começasse, mas Cléo nem se abalou.
“Eu nunca começo, doutor. Vocês chegam começados.”
Ele voltou a olhar para mim e, pela primeira vez, pareceu compreender o tamanho do problema. Eu sabia onde estava, sabia o que fazia ali e, pior, escrevia justamente sobre esse tipo de contradição. Vi em seus olhos o medo de quem passou anos cuidando da própria reputação e de repente percebe que ela pode depender do silêncio de outra pessoa.
Durante alguns segundos, confesso que gostei da sensação. Imaginei a crônica pronta, os comentários, as capturas de tela e o pequeno incêndio digital em que Marcos seria assado até a multidão encontrar outro escândalo para consumir. Pensei no alcance, no número de leitores e até num possível convite para o ABC Talk.
Marcos deve ter percebido alguma coisa no meu rosto, porque mudou de estratégia. Em vez de continuar se defendendo, perguntou quanto eu queria para esquecer que o tinha visto.
Cléo começou a rir, uma risada larga, cansada e descaradamente debochada.
“Não te falei? Todo mundo aqui vende alguma coisa, só muda a embalagem.”
Marcos ofereceu dinheiro e eu recusei, em parte por orgulho e em parte porque aceitar transformaria a piada em recibo. Cléo deu outro trago no cigarro e mandou que ele fosse embora, porque estava óbvio que naquela noite não estava com cabeça para pensar direito.
Ele fechou a janela e acelerou. Fiquei acompanhando o adesivo sobre família, fraternidade e coragem até o carro desaparecer.
Comentei que aquilo daria uma crônica, e Cléo respondeu:
“Dar, dá. Também dá para roubar celular de bêbado ou doce de criança. A pergunta não é essa.”
Eu disse que Marcos era um hipócrita, mas ela devolveu a acusação perguntando o que eu próprio tinha ido fazer ali. Lembrei que não queria expulsar ninguém da avenida.
“Não. Você só quer levar todo mundo embora dentro do seu caderno.”
Antes que eu encontrasse uma resposta, Cléo explicou que eu poderia escrever sobre o tipo de homem que frequentava a avenida à noite e pedia limpeza urbana de manhã; poderia falar de político, pastor, executivo, pai de família ou defensor dos bons costumes, mas não precisava entregar placa, rosto, profissão, esposa e filho. Segredo de cliente não passava a ser meu apenas porque tinha caído no meu colo.
Perguntei se ela estava protegendo Marcos.
“Estou protegendo a mim. Amanhã ele continua com a vida dele; quem fica na esquina sou eu.”
Naquela noite, entendi que é fácil falar de ética quando não somos nós que teremos de arcar com as consequências das nossas escolhas.
Na manhã seguinte, acordei com outra mensagem de Marcos. Antes de responder, abri as redes sociais e encontrei um vídeo publicado por ele havia menos de uma hora. De camisa clara, diante de uma estante cuidadosamente desorganizada, defendia um projeto de “requalificação do eixo comercial da Avenida Industrial”, expressão que, na prática, significava tornar invisíveis as pessoas que diminuíam o preço dos imóveis.
Falava em segurança, iluminação inteligente, ocupação familiar, retomada do espaço público e valorização regional. Não mencionava que, na noite anterior, utilizou aquele mesmo espaço com uma intimidade pouco compatível com seu urbanismo.
No fim do vídeo, sorriu para a câmera com a serenidade dos homens que acreditam que apagar o histórico do navegador constitui uma forma de absolvição. Pouco depois, enviou outra mensagem perguntando se sairia crônica nova.
Respondi apenas que sairia.
Escrevi durante seis horas. Não revelei seu nome, seu carro, seu envolvimento com a política da cidade nem qualquer detalhe que permitisse reconhecê-lo. Em vez disso, escrevi sobre homens que desejam à noite aquilo que tentam proibir pela manhã, sobre cidades que vendem prazer no escuro e higienização sob o sol, sobre escritores que se julgam superiores às pessoas de quem recolhem frases e sobre o comércio da intimidade, com suas diferentes maneiras de fingir que não estamos todos à venda.
Antes de publicar, enviei o texto para Cléo.
Duas horas depois, ela respondeu por áudio. Mandou cortar a passagem em que eu dizia ter encontrado humanidade em seus olhos, porque já possuía humanidade antes da minha chegada; proibiu que eu a chamasse de sobrevivente, porque sobreviver não era personalidade; por fim, informou que eu tinha utilizado quatro frases boas pagando apenas por três.
Fiz outro Pix e perguntei o que achava do final.
“Está sentimental. Me usa menos para parecer melhor e usa você para parecer pior. É mais honesto e dá mais comentário.”
Obedeci.
Publiquei a crônica naquela noite como livro digital no Kindle e a divulguei nas redes sociais. Vieram dezenas de downloads e um rendimento suficiente para comprar dois cafés e meio, desde que nenhum deles fosse especial. Alguns leitores disseram que o texto era corajoso, outros afirmaram que eu romantizava a prostituição e três homens casados me enviaram mensagens privadas explicando, sem que eu perguntasse, que jamais frequentariam um lugar daqueles.
Marcos também escreveu.
“Finalmente voltou a escrever com coragem.”
Acrescentou um emoji de fogo e outro de palmas, porque a internet permite que um homem aplauda o próprio julgamento sem perceber que está no banco dos réus.
Cléo leu a publicação e me telefonou. Quis saber se ele tinha percebido, e respondi que não tinha certeza. Ela considerou perfeitamente possível que Marcos tivesse entendido tudo e decidido continuar fingindo que não, o que, em sua definição, fazia dele um leitor de verdade: alguém capaz de compreender um texto inteiro sem permitir que uma única frase alterasse sua vida.
Perguntei quanto ela ganhou naquela noite. O valor era maior do que eu receberia por um mês inteiro de textos.
“Está vendo? Você entrou aqui pensando em vender o corpo por quilo, mas ninguém paga bem por mercadoria insegura.”
Perguntei se palavra valia alguma coisa.
“Vale. Só não para quem escreve.”
Antes de desligar, pediu que eu não desaparecesse como os outros autores que passavam pela avenida, recolhiam meia dúzia de histórias, prometiam enviar o texto e nunca mais voltavam. Disse também que eu lhe devia um café, de preferência um desses caros, porque miséria compartilhada continuava sendo miséria.
Voltei à Industrial na semana seguinte, mas dessa vez deixei o bloco de notas em casa.
Cléo percebeu imediatamente e perguntou se eu não escreveria naquela noite. Respondi que tinha ido apenas conversar com ela.
Ela estendeu a mão.
“Ótimo. Então são cinquenta reais mais o café no Fran’s.”
Claudio Novakz – Crônicas urbanas sobre o que ninguém diz