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Naquela manhã ele abriu a geladeira sem saber o que procurava. Olhou o pão, a manteiga, a garrafa de leite, e nada deu vontade. Fechou a porta e pensou que faria um café com leite mais tarde. Era um adiamento pequeno, parecido com todos os que vinha fazendo e com as tarefas que só se acumulavam.
Houve uma época em que a cabeça não parava. Vários pensamentos ao mesmo tempo, uma preocupação puxava a outra, uma conversa antiga voltava com as respostas que ele não tinha dado na hora, e o sono demorava. Dessa vez era o contrário. Quando tentava descobrir no que estava pensando, achava um vazio, uma ausência de decisões, mesmo que fosse fazer um simples café. Só a vontade de não fazer nada ficava ali, o desejo de permanecer na cama continuava. A vontade de dormir. E não acordar.
Se alguém perguntasse o que ele tinha, não saberia dizer o que realmente sentia. No trabalho era quem resolvia, em casa, quem lembrava do que precisava ser feito. Quando um amigo pedia opinião, ele escutava e achava as palavras. Mas pra ele mesmo, só lhe vinha uma frase: “Não estou com vontade de nada”.
Saiu, cumprimentou o pessoal, tocou o dia. Riu de uma brincadeira, respondeu mensagem, fez o que tinha que fazer. Nada disso exigia que estivesse bem; tinha aprendido a separar o que sentia do que mostrava, e isso, que todo mundo chama de força, também servia para atravessar um dia inteiro sem que ninguém visse o tamanho do esgotamento.
No meio da tarde alguém perguntou se estava tudo certo, e ele disse que sim, quase por educação. Conhecia essa pergunta e já tinha resposta pronta: Tô de boa”.
Tem homem que conta o que sente com uma facilidade que os outros admiram calados. E tem o que aprendeu cedo a esconder o choro, a não incomodar os amigos, a tratar pedido de companhia como fraqueza. Chega à vida adulta sem palavras para dizer que está mal. Descreve uma dor nas costas, um barulho no carro, um aperto de dinheiro, mas trava na hora de admitir que queria dormir e só acordar quando a vontade de viver o dia voltasse.
Muitos já tentaram falar e ouviram uma piada, ou que tinha gente em situação pior, ou o conselho de arrumar o que fazer. Depois de algumas vezes assim, a pessoa prefere evitar expor o que sente e, mesmo com uma dor pungente dentro do peito, escolhe assuntos atrás dos quais possa se esconder. Pergunta do serviço, reclama do trânsito, manda figurinha pra algum conhecido com o qual tenha alguma afinidade. A conversa segue, e os amigos saem achando que está tudo bem.
No fim do expediente, ficou um tempo no carro antes de ligar o motor. Não pensou no passado, não planejou o dia seguinte. Queria chegar, tirar os sapatos e tomar seu café com leite.
Em algum lugar da cidade, outros homens voltavam para casa depois de um dia comum. Um ria alto na mesa de um bar, outro mandava piada para o grupo da família. Tinha quem jantasse conversando com os filhos e quem preferisse ficar calado diante da TV. Pelo que mostravam, não dava para perceber nada, nem imaginar o cansaço, a ausência de desejo.
Ao chegar em casa, deixou as chaves na mesa e foi até a cozinha. A garrafa de leite estava na geladeira, o café no armário, e bastava pouco para preparar a bebida que tinha prometido a si mesmo. Ficou olhando as coisas, esperando a vontade aparecer. Depois apagou a luz e se deitou no sofá da sala, sem tirar o calçado dos pés, sem tirar a carteira do bolso.
Naquele dia, até uma xícara de café com leite podia ficar para depois.
Claudio Novakz – Crônicas sobre o que os homens não contam.