A ARTE DE NÃO SEGURAR

Eu estava assistindo a um filme catalão na Netflix quando um pássaro pousou na jabuticabeira da sacada e me fez desviar os olhos da televisão. Meu apartamento é pequeno, mas tenho plantas espalhadas por ele e procuro cuidar bem de cada uma. Na sacada, a jabuticabeira divide espaço com outras espécies, entre elas um jasmim-gardênia. Naquele momento, porém, o filme perdeu a importância e fiquei acompanhando os movimentos do visitante que acabava de aparecer.

O coleirinha saltou pelos galhos da jabuticabeira, cantou algumas vezes e passou para o jasmim-gardênia antes de ir embora. A visita foi breve, mas me deixou de bom humor. Eu poderia ter assistido ao restante do filme sem olhar para fora e nem saberia que ele tinha passado por ali. Gostei principalmente de pensar que havia pousado na minha sacada por vontade própria, sem que eu precisasse atraí-lo ou fazer qualquer coisa para que ficasse.

Alguns minutos depois, ele voltou. Repetiu o passeio pela jabuticabeira, cantou, observou os arredores e, para minha surpresa, atravessou a porta aberta da sacada. De repente, estava dentro do apartamento, pousado num galho do bambu da sorte. Depois passou para a hera que fica sobre a estante, cantou mais algumas vezes e continuou explorando o ambiente com a mesma liberdade que tinha lá fora.

Eu apenas acompanhei seus movimentos. Não tentei chegar perto nem estendi a mão para segurá-lo, pois sabia que poderia assustá-lo e encerrar a visita. Queria que permanecesse mais um pouco, mas havia uma diferença entre desejar sua companhia e fazer alguma coisa para impedi-lo de partir. Enquanto ele circulava entre as plantas, bastava ficar quieto e aproveitar a presença inesperada. Mesmo querendo vê-lo novamente, não havia motivo para interferir naquela visita.

Olhar aquele pássaro dentro de casa me fez pensar nas gaiolas. Preso, ele estaria sempre ali e eu deixaria de me perguntar se voltaria, mas teria perdido a possibilidade de vê-lo escolher a sacada outra vez. Entre pessoas, a vontade de garantir que alguém permaneça por perto assume formas menos visíveis. Gostamos de repetir os encontros, contamos com a próxima conversa e esperamos que a companhia continue sendo agradável para os dois. O problema começa quando a vontade de estar junto se transforma em cobrança, e passamos a exigir uma presença que antes era oferecida espontaneamente.

Pensei nisso enquanto via o coleirinha passear por um lugar que eu conhecia tão bem e que ele descobria naquele instante. As plantas podiam tornar minha casa agradável para ele, mas nada ali me dava o direito de decidir quanto tempo ficaria. Era uma limitação simples de aceitar naquela tarde e, ao mesmo tempo, difícil de aceitar em certas relações. Quem sente falta de alguém conhece a tentação de insistir, de querer uma resposta, de procurar alguma garantia de que o outro continuará por perto. A saudade pode ser grande, mas não torna a companhia uma obrigação.

Há uma frase que se repete quando alguém espera alguma coisa: “o que é seu encontra o caminho até você”. Lembrei dela naquela tarde, mas me incomodou chamar de meu um pássaro que podia ir embora. Eu tinha cuidado das plantas, e ele encontrou a sacada. Depois atravessou a porta, percorreu o apartamento e ficou por alguns minutos. Gostei de recebê-lo, mas nada do que eu fiz poderia garantir uma nova visita. Também não saberia se ele continuaria ali por vontade própria caso eu lhe tirasse a possibilidade de sair.

Com as pessoas, essa dúvida pode surgir mesmo quando ninguém está literalmente impedido de partir. Há quem permaneça para não magoar, para evitar discussões ou porque já não encontra uma maneira simples de ir embora. E há quem continue por escolha, embora pudesse ter seguido outro caminho. De fora, as duas situações podem se parecer muito, e o desejo de conservar uma relação nem sempre nos deixa enxergar a diferença.

O coleirinha acabou saindo pelo mesmo lugar por onde entrou. Continuei olhando para a sacada, agora sem pássaro, com a jabuticabeira e as outras plantas no lugar de sempre. Não sabia se ele voltaria no dia seguinte, depois de uma semana ou se aquela seria sua única visita. Eu gostaria de vê-lo novamente, mas não tinha nada a combinar com ele. Se ele quisesse voltar, encontraria a mesma sacada, as mesmas plantas e a porta aberta. Era tudo o que eu podia oferecer.

Claudio Novakz – Crônicas sobre o que os homens não contam.