AINDA TENHO O QUE TE CONTAR

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Abri nossa conversa no WhatsApp e fui voltando às mensagens, à procura de um tempo em que falar com ele não exigia tanto cuidado. O aplicativo guardava as datas, inclusive a hora em que cada coisa tinha sido lida, mas eu não sabia dizer quando tínhamos começado a nos afastar. Ainda existiam respostas recentes; para encontrar uma conversa de verdade, eu precisava voltar muito mais.

Por um bom tempo, atribuí tudo à correria. Ele demorava, respondia sem perguntar nada de volta, deixava os convites num “vamos ver”, e eu encontrava uma explicação para cada coisa. Quando resolvia escrever outra vez, escolhia o assunto com receio de parecer insistente. Antes, podia começar uma história pelo meio, porque ele conhecia o começo; agora, precisava de uma razão para falar com alguém de quem eu simplesmente sentia falta.

A gente conta que um namoro acabou e ninguém estranha que isso doa. Mas dizer que estamos sofrendo porque um amigo deixou de nos procurar parece exigir uma justificativa. Nós mesmos tentamos diminuir o que sentimos, lembrando das contas e dos problemas que deveriam nos ocupar. Enquanto isso, olhamos o celular à espera de uma pergunta que não chega e sentimos vergonha de dar tanta importância àquela ausência.

Entre homens, encontrar uma razão para se ver pode ser mais fácil do que admitir a saudade. Há quem atravesse a cidade para ajudar um amigo com o carro quebrado e não consiga dizer que sentiu sua falta. Se a conversa chega perto disso, uma piada permite aos dois mudar de assunto sem o constrangimento de falar do afeto que existe ali.

Quando leio, no primeiro livro de Samuel, a despedida de David e Jonathan, que choram juntos, penso no cuidado com que escolhemos o que um amigo pode saber de nós. Com alguns, a gente consegue falar antes mesmo de entender direito o que está sentindo. É dessa liberdade que sinto falta quando preciso calcular cada palavra para escrever à mesma pessoa.

Eu demorava a reconhecer o afastamento porque sabia que amizade também exige paciência. Existem períodos em que um dos dois não consegue oferecer muita coisa, e seria injusto cobrar de um amigo em luto a disposição de sempre. Eu não queria contar mensagens nem exigir resposta para cada tentativa; o que me incomodava era já não saber se haveria conversa caso eu parasse de procurar.

Mesmo assim, uma resposta breve bastava para que eu tentasse de novo. Se ele ainda respondia, eu encontrava motivo para adiar o que estava percebendo e procurava outro assunto, esperando que dessa vez a conversa continuasse. Dava ao cansaço dele toda a compreensão de que era capaz, enquanto tratava a minha tristeza como um exagero. Aos poucos, passei a me preocupar mais em não incomodar do que em contar aquilo que tinha vontade.

Eu lembrava do interesse com que ele me ouvia e das conversas longas que um assunto qualquer tinha rendido. Por isso, quando a resposta chegava sem nenhuma pergunta, custava aceitar que a conversa parasse ali.

Ele conhecia o rapaz que eu tinha sido e os planos que eu fazia antes de entender quanto custariam. Bastava mencionar uma época para que nós conversássemos sobre ela sem que eu precisasse recontar a minha vida. Com alguém que chegou depois, teria de explicar muita coisa antes de chegar ao assunto. Sentia falta de falar com quem me reconhecia também naquilo que tinha mudado.

Cheguei a desconfiar do que tínhamos vivido, procurando no passado algum sinal de que eu tinha entendido tudo errado. Mas o auxílio recebido tinha acontecido, assim como as conversas que tornaram certos dias menos difíceis. Eu conseguia lembrá-las e, ainda assim, olhar para o celular com tristeza. Sentia falta de uma amizade que tinha existido, e custava admitir que já não podia contar com meu amigo, ou com aquele que um dia foi meu amigo, da mesma maneira.

Na tela, os convites que tinham ficado no “vamos ver” se misturavam aos memes sobre futebol ou política. Fechei o aplicativo sem mandar outra mensagem, embora ainda soubesse exatamente o que gostaria de contar a ele.

Claudio Novakz – Crônicas sobre o que os homens não contam.