Há uma frase que falamos todos os dias sem esperar muita coisa da resposta.
“Olá! Tudo bem?”
Ela aparece no elevador, no corredor da empresa, no caixa da padaria e até naquela mensagem enviada depois de meses sem contato. Perguntamos, ouvimos um “tudo” ou “tudo certo” e a conversa pode terminar ali sem que ninguém estranhe.
João pega o elevador pelo menos duas vezes por dia, e ainda mais quando chega alguma encomenda, quando pede comida ou quando esquece alguma coisa no carro. Depois de alguns anos morando no mesmo prédio, já conhece vários rostos, embora conheça pouco de suas histórias: sabe quem costuma sair cedo, quem passeia com o cachorro à noite, quem recebe os filhos nos fins de semana e quem demora uma eternidade para encontrar a chave enquanto equilibra sacolas de supermercado.
Ricardo, do 12º, é um desses rostos conhecidos. Sempre educado e breve, cumprimenta João ao entrar e logo direciona o olhar para o painel do elevador, para os próprios sapatos, para o celular, mas nunca para os olhos de João. De tanto repetir o gesto, já deve conhecer cada risco daquele piso, e João acabou classificando-o como tímido.
É assim que fazemos com as pessoas: transformamos comportamentos em definições. O sujeito fala pouco e se torna tímido; outro fala demais e passa a ser expansivo; um evita as confraternizações e ganha fama de antissocial, enquanto aquele que participa de todas deve estar satisfeito com a própria vida.
O fato é que classificar nos poupa do trabalho de compreender.
João não sabe que, muitos anos antes daquele elevador, existiu um menino chamado Ricardo que usava óculos e detestava determinadas aulas de educação física. O problema não eram exatamente os óculos, bastava que Ricardo tivesse alguma coisa que o diferenciasse dos outros para virar alvo, e foram os óculos que algumas crianças escolheram.
Os anos passaram, Ricardo cresceu, os colegas também e aquela escola ficou para trás. O que aconteceu nela, porém, acompanhou o garotinho que continua preso dentro do adulto.
No 10º andar mora Gustavo, separado, pai de dois filhos e dono de uma rotina maçante de reuniões via Teams, é a pessoa do prédio com quem João mais conversa, embora sejam conversas rasas, quase sempre limitadas aos encontros no hall. Gustavo tem um jeito acolhedor e, ao mesmo tempo, fechado: recebe com facilidade aquilo que os outros trazem, mas raramente permite que façam o mesmo por ele.
Quando João pergunta como estão as coisas, a resposta quase nunca varia: “de boa”.
Às vezes Gustavo diz que está “de boa” com os olhos vermelhos. João percebe e conclui que ele está cansado, o que não deixa de ser verdade; apenas erra o tipo de cansaço.
Há noites em que Gustavo se deita e começa a administrar tragédias que ainda não aconteceram: uma despesa que pode aparecer, uma doença escondida, um problema com os filhos, alguma consequência profissional ainda inexistente. Às duas da manhã, seu corpo continua no quarto, enquanto sua mente já percorreu quinze futuros e encontrou, em quase todos, alguma forma de desastre.
A ansiedade possui essa capacidade de cobrar antecipadamente por sofrimentos que nunca chegam a ser entregues. Pela manhã, levanta, faz café, resolve coisas, responde mensagens, cuida dos filhos, trabalha e, quando encontra João no elevador, continua “de boa”.
Alguns andares abaixo entra Renan, que parece pertencer a outra espécie de convivência. Ele sorri, conversa e, se o elevador parar entre dois andares, será o primeiro a encontrar alguma piada; está quase sempre bem vestido, possui uma boa carreira e um relacionamento duradouro com o namorado. Os dois estão juntos há mais de dez anos, embora morem em bairros diferentes. Algumas pessoas acham estranho que, depois de tanto tempo, ainda prefiram viver cada um em sua casa; para eles, a escolha funciona.
Renan parece estar sempre de bem com a vida. Há dias em que trabalha normalmente, responde mensagens, ri de vídeos idiotas e pergunta ao porteiro sobre o jogo de domingo, mas, quando fecha a porta de casa, o silêncio cresce e o futuro perde consistência, até que aquilo que pela manhã parecia administrável ganha outro peso quando entra e fecha a porta do apartamento. Em alguns desses momentos, pensa que seria mais simples deixar de existir.
Albert Camus começa O Mito de Sísifo afirmando que a questão do suicídio toca o problema fundamental de saber se a vida merece ser vivida. Camus percebeu que qualquer filosofia sobre a existência se torna um pouco ridícula quando evita a pergunta de quem já não encontra razões suficientes para continuar.
Renan nunca leu Camus, e naquela noite isso não faria diferença. Ele não precisa de uma teoria sobre o absurdo, mas de atravessar as horas que tem pela frente. Uma das crueldades do sofrimento psíquico está justamente nessa diferença: enquanto quem observa procura explicações capazes de abarcar uma vida inteira, quem sofre precisa, em certos momentos, sobreviver aos próximos vinte minutos.
Ao chegar ao térreo, Renan se despede e segue seu caminho, enquanto João permanece alguns instantes sozinho no elevador. É então que existe João.
Até esse ponto, ele ocupa a posição confortável do observador, aquela posição cômoda que todos preferimos. Analisamos os traumas dos outros com uma lucidez impressionante, identificamos relacionamentos ruins, hábitos destrutivos, mecanismos de defesa, inseguranças infantis e escolhas equivocadas; quando o assunto somos nós, porém, já não enxergamos as coisas com a mesma clareza.
João também sente uma falta que, perto da depressão de Renan ou das madrugadas de Gustavo, parece pequena. Por isso mesmo, às vezes se constrange de sofrer tanto com ela. Ele queria um amigo.
Não cinquenta contatos ou uma mesa lotada no aniversário, mas uma pessoa para quem pudesse mandar às quatro da tarde apenas “Café?”, sem introdução, justificativa ou cerimônia. Queria alguém a quem pudesse mandar uma bobagem no meio da tarde simplesmente porque havia lembrado dela, alguém com quem pudesse ficar em silêncio sem sentir a obrigação de puxar assunto e, principalmente, um amigo próximo diante de quem pudesse dizer que não estava bem sem precisar explicar tudo o que tinha acontecido para chegar até ali.
João sabe ser esse amigo. Quando alguém precisa conversar, ele conversa; quando precisa de companhia, aparece; quando percebe um afastamento, manda mensagem. Durante muito tempo, considerou isso uma qualidade, até perceber que certas virtudes começam a machucar quando esperamos encontrá-las também nos outros.
É ele quem chama, pergunta, convida e procura, até que um dia resolve fazer um experimento que milhares de pessoas já fizeram em silêncio: parar de mandar mensagens para descobrir quem fará o movimento contrário. O resultado é devastador. Passam dois dias, depois uma semana e, em seguida, duas. Nenhuma mensagem.
Como não sabe por que ninguém o procura, João começa a preencher o silêncio com as próprias explicações, e nenhuma delas lhe é favorável. Depois de algum tempo, já não pensa apenas que os outros estão ocupados ou distraídos; começa a acreditar que, se ninguém sente sua falta, é porque ele não deve ser tão importante assim.
A partir daí, olha para os outros e imagina que eles têm justamente aquilo que lhe falta. Ricardo deve ter amigos, Gustavo também, e Renan, tão sociável, certamente tem com quem conversar quando precisa.
Machado de Assis percebeu algo semelhante em “O Espelho”, conto em que a identidade de um homem se apoia profundamente na imagem social que os outros lhe devolvem. Mudam os tempos, as roupas e os títulos, mas o espelho continua funcionando, porque existe a pessoa que somos quando a porta fecha e existe aquela que conseguimos apresentar quando ela se abre.
Ricardo apresenta o homem reservado; Gustavo, o homem que está “de boa”; Renan, o sujeito bem-sucedido e espirituoso; João, o vizinho atento.
Nenhum deles está necessariamente mentindo, e esse é o detalhe mais desconfortável, porque Renan realmente sorri, Gustavo realmente cuida dos filhos, Ricardo realmente é gentil e João realmente consegue estar presente quando alguém precisa.
E nenhum deles precisa fingir o tempo inteiro para esconder o que sente. Renan pode rir de verdade e, horas depois, não querer sair da cama. Gustavo pode cuidar dos filhos, trabalhar e resolver os problemas do dia enquanto passa a noite imaginando tudo o que pode dar errado. João consegue ficar sozinho, embora preferisse ter um amigo pra tomar café juntos e jogar conversa fora.
Byung-Chul Han escreveu sobre uma sociedade em que o sujeito se transforma em administrador de si mesmo, pressionado a funcionar, produzir, melhorar e apresentar desempenho.
Desde cedo, aprendemos que problema se resolve, dor se suporta, medo se controla e choro engolimos. Quem cai levanta, quem perde continua, quem sofre finge que está bem, e durante algum tempo esse conjunto de regras parece uma definição convincente de força.
Até chegar o dia em que o homem sabe trocar um pneu, negociar salário, sustentar uma família, montar um móvel sem manual e resolver uma crise no escritório. Mas não consegue se abrir e contar a outro homem sobre suas inseguranças e suas dores emocionais.
O silêncio masculino sobrevive porque os próprios homens participam de sua manutenção. Um amigo tenta falar e recebe uma piada; um filho chora e escuta que precisa engolir o choro; um colega admite ansiedade e ganha uma solução prática para uma dor que poderia ser amenizada com um abraço. Depois, todos chegam à vida adulta sem entender por que ninguém conversa.
Os números tornam a cena ainda mais preocupante. Dados nacionais referentes a 2023 indicam que cerca de 78% das vítimas de suicídio registradas no Brasil eram homens, o que corresponde a quase oito em cada dez casos.
Esse número exige cuidado porque estatísticas explicam populações, não indivíduos, e ninguém morre por pertencer a uma porcentagem. Existem transtornos mentais, perdas, crises financeiras, conflitos familiares, violência, uso problemático de substâncias, doenças, rupturas afetivas, isolamento e inúmeras combinações possíveis entre esses fatores.
Reduzir o suicídio masculino à afirmação de que homens não falam sobre sentimentos seria confortável demais para um problema tão complexo. Mas ignorar a dificuldade de pedir ajuda, por outro lado, também deixaria de fora uma parte importante da história de muitos deles.
Na manhã seguinte, João volta ao elevador. No 12º andar, Ricardo entra e o cumprimenta; no 10º, Gustavo aparece ajeitando a mochila do filho e continua “de boa”; no 7º, Renan entra ajeitando o cabelo. A porta se fecha com os quatro.
Se alguém observasse a cena, não encontraria nada de anormal, e esse é justamente o ponto: a vida está cheia de tragédias que não percebemos enquanto apenas olhamos.
Ricardo encara o painel, Gustavo verifica o celular, Renan comenta alguma notícia e João escuta. Doze, onze, dez, nove: cada número se acende e desaparece enquanto, durante alguns segundos, eles permanecem próximos o suficiente para ouvir a respiração uns dos outros.
Ainda assim, entre aqueles quatro homens cabem infâncias inteiras, divórcios, noites de ansiedade, pensamentos que assustariam quem os ouvisse, carências escondidas, humilhações antigas e perguntas que nenhum deles conseguiu fazer.
Quando chegam ao térreo, a porta se abre. Ricardo segue para a garagem, Gustavo leva o filho para a escola, Renan caminha em direção à rua e João caminha até o carro para mais um dia de trabalho.
Na manhã seguinte, é bem possível que tudo aconteça de novo: os mesmos homens, os mesmos andares, os mesmos cumprimentos. E, para que a conversa saísse do lugar de sempre, nem seria preciso que alguém contasse a própria vida. Bastaria uma resposta um pouco menos automática.
Bastaria Ricardo sustentar o olhar por alguns segundos, Gustavo admitir que não está tão bem, Renan conseguir dizer que aquele dia está difícil ou João mandar a mensagem que se cansou de esperar receber.
Nenhum desses gestos resolveria a vida de alguém. Uma conversa não cura todos os sofrimentos, um café não desfaz uma depressão e uma amizade não substitui tratamento quando tratamento é necessário. Ainda assim, passar por uma fase difícil tendo com quem falar é muito diferente de atravessá-la acreditando que será melhor não contar a ninguém.
O elevador continuará subindo e descendo, e as pessoas continuarão perguntando se está tudo bem por educação.
Se existem tantos homens dividindo elevadores, escritórios, mesas, famílias e noites insones enquanto cada um acredita ser o único que está fracassando em suportar a própria vida, fica uma pergunta: quantas relações permanecerão superficiais simplesmente porque todos continuam esperando que o outro tenha coragem de admitir primeiro que não está bem sem receio de ser julgado ou sem medo de estar demonstrando fraqueza?
Claudio Novakz – Crônicas urbanas sobre o que ninguém diz