ATESTADO FALSO, PARA OS DEVIDOS FINS

Marco Aurélio precisava parecer doente. Só não podia exagerar.

Estava no Vale do Anhangabaú, debaixo de um sol escaldante, ouvindo o namorado explicar como uma pessoa com autonomia comprometida deveria olhar pro chão.

“Fala pouco”, disse Breno. “E não fica rindo.”

Marco Aurélio olhou pra ele.

“Breno, eu não tenho nada.”

“Eu sei, mas agora você vai ter, sim!”

Era esse o problema. A fila para o lançamento de Memórias Póstumas, o novo álbum do Jão, já atravessava o Vale do Anhangabaú, dobrava nas grades, subia pelas calçadas, sumia debaixo do Viaduto do Chá e reaparecia mais adiante.

Gente com garrafa de água quente na mão, gente sentada no chão, gente abanando o rosto com panfleto.

E o Viaduto do Chá observava tudo, como faz isso há mais de 130 anos.

Metade da cidade parecia ter chegado com a mesma conclusão naquela tarde: algumas horas naquele sol do cão eram um preço aceitável pra ouvir o álbum novo do Jão e, mais tarde, poder contar com com certo orgulho: “Eu estava lá.”

A fila de PCD tinha um cordão de isolamento, uma cadeira dobrável, um funcionário olhando o celular e menos pessoas que a outra fila. A poucos metros, a fila comum suava em conjunto, avançava dois passos, parava, discutia o repertório, passava protetor solar, chupava picolé ou bebia Coca-Cola.

Foi quando o Breno viu a fila curta. Tem pessoas que encontram uma regra e obedecem, outras desobedecem. Breno faz uma coisa pior: estuda a regra até descobrir onde há alguma brecha.

Não chega a ser rebeldia. Rebeldes gostam de confronto, discurso, punho erguido e palavras de ordem, mas Breno não; ele prefere os atalhos e faz isso de forma sutil. Sabe aqueles aplicativos de trânsito que recalcula a rota quando encontra uma barreira? Pois é, o cérebro do Breno funciona dessa maneira.

Olhou pra fila, olhou pro Marco Aurélio e arrumou o boné na cabeça, com o característico sorriso de quem está pra aprontar.

“Você vai entrar naquela fila.”

Marco Aurélio levantou uma sobrancelha.

“Naquela fila de quê?”

“PCD.”

“Por quê? Eu não sou PCD.”

“É sim, e eu vou de acompanhante.”

Marco Aurélio já tinha ido naquele evento a contra gosto, mas esperava que tudo fosse ocorrer dentro da normalidade: comprar água de coco, encontrar uma sombra, esperar a fila andar, ver o show e voltar para casa com a consciência tranquila por ter feito o gosto do namorado e não ter de aguentar o Breno buzinando na orelha por mais de uma semana.

Mas sair com o Breno sempre tem suas surpresas.

Quando me contou essa história, dias depois, a gente estava tomando cerveja.

“Você não vai acreditar.”

Eu ri antes de saber, só de observar os trejeitos de um adolescente rebelde.

E ele riu ainda mais ao contar como o Marco Aurélio tentou impedir dizendo que não fazia sentido, que pediriam comprovação, que alguém perceberia e que aquilo podia dar problema.

Nada adiantou, enquanto Marco Aurélio caminhava na direção da fila de PCD, Breno já estava com o celular na mão, com o ChatGPT aberto e digitando o comando pra gerar o atestado falso. Pronto.

Marco Aurélio ganhou o atestado de quem carece de cuidados especiais. Segundo o texto, encontrava-se sob acompanhamento por uma condição leve de saúde mental que e autonomia comprometida devido ao derrame.

Havia parágrafos, termos técnicos, tom institucional e gravidade e terminava, claro, com “para os devidos fins”.

O ChatGPT não sabia quem era Marco Aurélio, mas seguiu as orientações do comando com a segurança de quem o acompanhava desde a infância.

Marco Aurélio leu a declaração por cima do ombro de Breno, não sabia se ria, se brigava ou se abandonaria o namorado ali.

Breno revisou o segundo parágrafo.

“Vai”, disse. “Entra logo. Aja com naturalidade e evite contato visual!”

Era a direção de ator mais vagabunda já dada no centro de São Paulo.

“Olha para o chão”, disse Breno.

“Assim?”

“Menos.”

“Menos como?”

“Com naturalidade, caralho! Assim você está parecendo culpado.”

“Mas eu estou culpado.”

Marco Aurélio não tinha o mínimo talento pra interpretação. Nem vontade de adquirir.

Mesmo assim, entrou na fila prioritária tentando parecer levemente confuso. Não sabia onde pôr as mãos, olhava pro chão por tempo demais, levantava a cabeça, lembrava da orientação, tornava a baixar. Parecia qualquer coisa, menos uma pessoa com autonomia comprometida. Agia como um ator iniciante representando mal uma peça do colégio. Breno vinha atrás, sereno.

A primeira fiscalização quase não foi fiscalização. Uma moça da organização se aproximou com um crachá no peito, uma prancheta na mão e a expressão cansada de quem já tinha respondido à mesma pergunta umas duzentas vezes.

“A documentação, por gentileza.”

Breno mostrou o celular.

A moça leu, desceu a tela com o dedo e franziu a testa.

“Não tem assinatura de médico… Isso aqui não vale.”

Marco Aurélio respirou aliviado, estava livre daquela situação constrangedora. Podiam pedir desculpas, voltar pro fim da fila, comprar a água de coco e retomar uma vida em que ninguém precisava improvisar um quadro clínico diante de desconhecidos.

Breno não arredou o pé, nem hesitou. Com a maior naturalidade, começou a fuçar na galeria de fotos. Fotos de pratos de comida, capturas de tela sem sentido, conversas antigas, um cachorro que não era dele, um boleto e uma receita médica guardada sabe-se lá por quê. Mas a receita tinha assinatura e era justamente o que ele precisava.

Breno ampliou o rabisco, isolou a imagem e colocou a assinatura no atestado. E pronto! Lá estava um laudo falsificado debaixo do Viaduto do Chá.

O resultado não era exatamente perfeito. A assinatura parecia iluminada por outro sol, havia uma sombra nas bordas, o rabisco pertencia claramente a uma fotografia diferente. Um olhar atento perceberia que aquele documento reunia medicina, tecnologia e picaretagem numa única tela, mas ele já havia percebido que ali não era um ambiente de olhares atentos.

Era o lançamento de um álbum com milhares de pessoas entrando, microfone chiando, horário correndo e funcionário sendo chamado de um lado pra outro.

O local tinha fãs, milhares de fanáticos pelo Jão, mas não havia perito, nem junta médica, apenas uma equipe tentando fazer a fila andar antes que o sol sumisse atrás dos prédios.

Chegou a vez de Breno de novo e ele mostrou a declaração atualizada.

A funcionária leu, conferiu a assinatura. Nesse instante, o rádio preso à cintura dela chamou alguém, a fila se mexeu atrás. E ela liberou.

Breno olhos na direção do namorado com um olhar de triunfo enquanto atravessavam o cordão de isolamento. Marco Aurélio continuou olhando pro chão por alguns metros.

“Já pode parar”, disse Breno.

O resto foi música.

As luzes acenderam o Vale, o som bateu nos prédios e voltou maior, e a multidão começou a cantar as letras praticamente já decoradas.

Breno e Marco Aurélio conseguiram espaço próximo ao palco, perto o bastante pra ver o rosto do cantor, o suor refletindo a luz, a respiração entre uma música e outra, os pequenos movimentos que, vistos de longe, parecem coreografia e, de perto, são apenas um corpo trabalhando.

Curtiram tudo.

Marco Aurélio parou de olhar para o chão. Em determinado momento, Jão desceu do palco e começou a distribuir flores pra algumas pessoas. É um gesto simples, quase bobo, mas, no meio de milhares de pessoas, qualquer objeto vindo do palco parece pessoal.

A música acaba, a luz apaga e o Vale do Anhangabaú volta a ser passagem. Os funcionários desmontam grades, o público procura o metrô, carro, banheiro ou sinal de celular.

E alguém volta pra casa com algumas flores na mão e a impressão de ter sido escolhido pelo próprio cantor: justamente Marco Aurélio, o homem que só queria água de coco e sombra. Mas as flores ficaram com o Breno. E, conhecendo-o como conheço, imagino que os crisântemos tenham acabado espremidos entre as páginas de algum livro que ele mantém na estante apenas como decoração, mas o qual nunca leu.

Claudio Novakz – Crônicas urbanas sobre o que ninguém diz