4 min. de leitura
Eu já beirava os cinquenta anos e ainda deitava a cabeça no colo da minha mãe para ver um filme. Isso acontecia às segundas-feiras, depois do almoço, quando a gente acabava de limpar a mesa e ia para a sala. Ficavam na cozinha o cheiro do café passado no coador de pano e o do detergente de limão, enquanto nós nos acomodávamos no sofá.
Ela se sentava numa ponta, eu me deitava, e sua mão vinha pousar no meu cabelo. Eu tinha fios brancos, dores na lombar e as preocupações de quem precisava trabalhar e pagar as contas, mas fechava os olhos enquanto ela começava o cafuné, e o homem que passava o dia resolvendo problemas podia ficar deitado, sem ter de se preocupar com mais nada naquele momento.
O sofá era largo e confortável, e a luz da tarde atravessava a cortina de renda, desenhando formas no tapete; o barulho da rua chegava abafado até nós. Eu conhecia o gosto dela para filmes, mas, depois de me acomodar, a história podia seguir sem a minha atenção. Não me incomodava perder o que acontecia na tela, porque estava bem ali, com a cabeça no colo dela.
Lembro do calor do colo, do cheiro suave do perfume que ela gostava de usar, e da leveza da mão sobre o meu cabelo. A pele já tinha manchas, as veias estavam aparentes, e eram as mesmas mãos que tinham lavado tanta roupa e descascado tanta batata. Os dedos percorriam minha cabeça devagar, num ritmo que eu conhecia. Por vezes, ela tamborilava de leve, e eu sentia cada toque sem precisar abrir os olhos para acompanhar o movimento.
Sua respiração ficava mais lenta, e a minha acompanhava. A televisão continuava ligada, mas nós podíamos passar aquele tempo sem conversar, porque não me incomodava ficar calado com ela, sem ter de procurar alguma coisa para dizer. Ao contrário, era um prazer aproveitar cada segundo daquele momento ao lado dela. Havia o filme para quem quisesse assistir e aquele carinho, que continuava mesmo quando eu já não prestava atenção à tela.
Deitado ali, eu podia deixar de mostrar que estava dando conta de tudo. Os problemas continuavam existindo, mas não era preciso resolvê-los antes de receber o afeto da minha mãe. Eu não tinha de lhe apresentar um bom resultado para merecer a mão no cabelo; ela fazia o cafuné, e eu aceitava, tão à vontade naquela posição que minha idade deixava de ser uma coisa em que pensar.
Penso nessas tardes quando digo que sou um homem de sorte. Eu sabia onde encontraria aquele descanso, conhecia o lugar da cabeça no colo e a maneira como os dedos dela tocavam minha têmpora. Podia chegar aos cinquenta anos sendo filho, com a segurança de que minha mãe não precisava de nenhuma demonstração de força para me querer por perto.
Hoje, sem ela, o sofá parece maior. A luz ainda entra pela mesma janela e desenha formas no tapete, mas falta o corpo sentado naquela ponta, o colo em que eu podia me deitar. Lembro da sala com minha mãe ali e sinto falta até do filme ao qual mal prestava atenção, porque era o colo dela que realmente importava.
Às vezes, num engarrafamento ou numa sala de espera com cheiro de antisséptico, começa a tocar uma canção de que ela gostava. A música me traz o cheiro do café e a textura do tecido da roupa dela contra a bochecha. Por um instante, chego a sentir o peso da mão dela, os dedos percorrendo meu cabelo e tamborilando de leve.
É uma lembrança que reconheço pelo toque, antes mesmo de pensar na segunda-feira ou no filme que passava. Estou sentado em outro lugar, com as preocupações de agora, mas o carinho vem acompanhado daquele descanso que eu sentia no sofá. A falta dela continua ali, junto com a sensação da mão no meu cabelo.
No carro, quando abro os olhos, o trânsito começa a andar e eu sorrio, ainda sentindo os dedos dela tamborilando de leve no meu cabelo.
Claudio Novakz – Crônicas sobre o que os homens não contam.