Meu avô tinha uma teoria que, se você ouvisse de qualquer outra pessoa, acharia esquisita, mas nele fazia sentido. Ele dizia que a morte podia até rondar a casa, espiar pela janela, mas não teria a grosseria de interromper alguém no meio da refeição. “Tem limite”, ele falava, meio sério, meio rindo. Talvez por essa convicção ele tenha durado tanto, resistindo às intempéries do tempo com a tenacidade de uma oliveira antiga, pois comia devagar, transformando cada garfada em um versículo silencioso da Torá, mastigando a existência sem pular linhas e sem a pressa vulgar de quem antecipa a sobremesa. Pra ele, enquanto houvesse um pedaço de pão sobre a toalha ou um resto de vinho no fundo da taça, a vida estava assegurada, visto que sempre faltava um prato, sempre havia uma nuance de tempero a ser decifrada, e a morte, respeitosa, aguardava do lado de fora, sentada na varanda.
Meu tio era o contrário disso tudo, vivia acelerado, como se estivesse sempre cinco minutos atrasado para alguma coisa que só ele enxergava. Comia em pé, café virava um gole rápido entre uma tarefa e outra; não tinha essa cerimônia toda com o tempo. E foi embora cedo, cedo demais, nos deixando com aquela frase comum que repetimos nos velórios pra preencher o silêncio: “Morreu antes da hora”. Eu já ouvi essa frase tantas vezes, mas nunca consegui compreender direito. Antes de qual hora, exatamente? Quem decidiu que havia uma hora certa? A gente fala como se existisse uma agenda, um relógio universal marcando prazos.
Essas coisas ficam martelando na minha cabeça. Eu não sou religioso, mas quando alguém morre, eu vou procurar resposta onde sei que talvez possa haver alguma pista. Abro a Torá, leio Eclesiastes, sempre aquela frase bastante conhecida: há tempo de nascer e tempo de morrer.
Foi justamente dessa frustração, desse silêncio de Deus diante das minhas inquietações, que nasceu a vontade de investigar o que existe por trás desse tal “tempo certo”. A tradição judaica, em suas camadas mais místicas, ensina que cada alma desce ao mundo com uma missão específica. Segundo a Cabalá, antes de respirarmos o ar deste mundo, a alma se apresenta diante do Criador pra combinar os detalhes da jornada, o peso da bagagem, os encontros inevitáveis e, crucialmente, o momento do retorno. Por isso, tem gente que parece ter vindo plantar algo que só vai dar fruto décadas depois; outros vão rápido demais, sem nenhuma missão aparente.
O Baal Shem Tov, fundador do chassidismo, ensinava que tudo acontece para o bem, não como uma negação ingênua da dor, mas como o reconhecimento de que existe uma geometria sutil operando além do que conseguimos enxergar. Há uma ordem no caos, uma arquitetura nas ruínas, mesmo quando nossos olhos, embaçados pelas lágrimas, só conseguem enxergar o desmoronamento.
Devo confessar que ainda não tenho resposta sobre a questão e, muito provavelmente, jamais terei. O que eu faço é escrever, contar essas histórias, lembrar dos detalhes, repetir as cenas. É o meu jeito de manter um diálogo que não pode mais acontecer do outro lado.
Quando alguém vai embora cedo demais, me lembro das palavras de um amigo da sinagoga, um homem que lia o Zohar como quem decifra mapas de tesouro, que me disse certa vez que algumas almas vêm só para acender uma vela, só isso. Uma palavra dita na hora certa, um encontro improvável, uma mudança pequena que altera todo o rumo. isso não significa erro de cálculo; a pessoa simplesmente cumpriu a parte que lhe cabia, completou sua missão e saiu de cena.
Às vezes, volto à imagem do meu avô à mesa, mastigando devagar, quase teimoso, como se estivesse negociando com o tempo. Aquele era o jeito dele, mas cada um come no seu ritmo, o quanto precisa. E chega um momento que ninguém sabe explicar direito, a pessoa simplesmente entende que já basta. Deixa o guardanapo sobre a mesa, empurra a cadeira devagar, se levanta… e vai.