Perto de casa tem um empório. Não é grande, não é barato e não finge ser popular. Ele apenas existe com dignidade, sustentado por lâmpadas quentes, prateleiras de madeira clara e uma trilha sonora baixa, agradável. Gosto de fazer minhas compras lá porque os produtos do hortifruti são sempre frescos, como se cada fruta tivesse passado a noite anterior sendo lustrada.
Entrei numa tarde comum, sem pressa. Peguei um cesto de metal e comecei a escolher as frutas com o critério simples que sempre usei. Maçãs gala, firmes e brilhantes. Bananas nanica, maduras no ponto certo. Bananas da terra, mais pesadas, que parecem exigir respeito. Tomates de vários tamanhos, alguns menores, outros grandes demais para qualquer salada razoável. Laranjas variadas, algumas mais claras, outras mais escuras, todas com aparência saudável.
Não li os nomes. Nunca leio. Escolho pelo aspecto, pelo peso, por uma avaliação rápida que sempre considerei suficiente para frutas.
Com o cesto cheio, fui para o caixa.
O rapaz que me atendeu usava óculos de armação grossa, tinha o cabelo volumoso e um sorriso simpático. Parecia à vontade ali, apoiado no balcão, passando os produtos sem pressa excessiva. Usava camiseta simples e tinha um jeito calmo de falar, daqueles que facilitam conversa.
Ele começou a registrar as frutas, lendo em voz alta.
“Maçãs gala, bananas nanicas, nêsperas e laranjas…”, fez uma pausa e olhou para a tela. “Você viu o nome dessa laranja?”
A pergunta pareceu casual. Ele levou o indicador à boca, pensativo. Foi então que notei a unha pintada de vermelho, comprida e bem cuidada, chamando atenção pelo contraste.
“Putz! Não vi”, respondi. “Só sei o nome daquela laranja normal. Essa aqui eu peguei pela aparência, mas não li o nome.”
Disse isso com naturalidade, sem imaginar que havia algo além de frutas naquela conversa. Ele levantou o olhar e ficou alguns segundos em silêncio.
“O que seria uma laranja normal?”, perguntou.
Pensei rapidamente.
“Aquela padrão”, respondi. “De cor laranja, redonda, que vende em qualquer lugar.”
Ele inclinou levemente a cabeça.
“Isso quer dizer que as laranjas menos comuns não são normais?”
Fez aspas no ar ao dizer “normais”, com um cuidado quase didático.
“Não sei”, respondi, já sentindo um leve desconforto. “Acho que sim.”
“Então você também acha que pessoas que não seguem um padrão imposto pela sociedade patriarcal e machista não são normais?”, continuou.
A pergunta veio direta demais para um balcão de empório. Olhei em volta, como se alguém pudesse confirmar que aquilo estava acontecendo.
“Claro que são!”, respondi sem hesitar. “Claro que são normais.”
“E por que a fruta não pode ser?”, insistiu. “Isso não seria uma forma de preconceito? Existe muito preconceito escondido nas palavras, sabia?”
Senti uma tensão leve, algo que não combinava com compras de hortifruti. Ajustei a sacola no ombro.
“Pode até existir”, respondi. “Mas isso não se aplica a mim. Eu sou o cara menos preconceituoso que conheço.” Fiz uma pausa curta e acrescentei, convicto: “Meu melhor amigo é negro.”
O sorriso dele aumentou de imediato. Ele balançou a cabeça, rindo de leve.
“A frase clássica”, disse. “Todo racista tem um amigo preto.”
Racista. A palavra ficou ali, entre nós, sem aviso prévio. Eu não soube o que dizer. Pensei no meu amigo, pensei nos anos de amizade, nas conversas longas, nos trabalhos feitos juntos na época da faculdade, no tempo em que estudávamos no Largo de São Francisco. Pensei em como aquela relação nunca tinha sido uma prova, mas também nunca tinha sido uma farsa.
Fiquei em silêncio.
“Viu só?”, disse ele, com um sorriso satisfeito. “Te deixei sem resposta.”
Voltou ao caixa, digitou algo rapidamente e anunciou:
“Pronto. Achei o código. Laranja baía cara cara. Uma laranja normal, só com um nome diferente.”
A frase foi dita com leve ironia, como se encerrasse um debate formal. Ele voltou ao tom cordial de atendimento, perguntou se eu queria sacola e informou o valor da compra. Paguei sem discutir, coloquei as frutas na sacola e agradeci. Ele respondeu com naturalidade e já se voltou para o cliente seguinte, como se nada de relevante tivesse acontecido.
Saí do empório andando devagar. O peso da sacola parecia maior do que deveria. Fiquei pensando no que tinha acontecido, tentando entender se tinha sido confrontado de forma justa ou apenas envolvido numa armadilha retórica bem executada. Não consegui chegar a uma conclusão clara.
Cheguei em casa e comecei a guardar as compras. Tirei as frutas da sacola uma a uma. Peguei a tal laranja-baía cara cara, observei a casca, comum, sem nada que a diferenciasse de tantas outras. Lavei, descasquei e comi.
A laranja estava ótima. Doce, suculenta, exatamente o que se espera de uma laranja.
Continuei pensando na conversa enquanto mastigava. Não cheguei a uma conclusão definitiva. Não sei se sou preconceituoso, não sei se fui injusto, não sei se fui ingênuo. Sei apenas que entre maçãs, bananas e laranjas, acabei levando para casa uma dúvida que não estava na lista.
Talvez eu devesse ter escolhido melhor as palavras. No fim, ficou a sensação de que eu fui comprar frutas e participei, sem querer, de um debate improvisado sobre moral, linguagem e identidade.
Não sei se sou preconceituoso. Sei apenas que, da próxima vez, talvez eu leia o nome da laranja. Ou talvez continue escolhendo pela aparência