BARBA, CABELO E SUSTO

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Entrei no carro às dez da noite, depois de um dia inteiro no escritório. A camisa ainda guardava o frio do ar-condicionado e a bolsa do computador pesava no ombro direito. Mal fechei a porta, o motorista se virou e perguntou, animado: “Boa noite, tá saindo do trabalho agora?”. Respondi que sim, sem muita disposição para conversar. Um aromatizador pendurado no retrovisor espalhava um perfume de lavanda doce demais para o meu gosto.

Era um homem forte, de ombros largos, barba branca bem aparada e cabelos grisalhos penteados para trás. Sorria com facilidade e mostrava dentes muito brancos. Eu tinha deixado meu carro em casa e saído mais tarde do que previa. Poderia voltar de metrô, mas, depois de tantas horas diante do computador, preferi o conforto de uma corrida de aplicativo. Queria encostar a cabeça no banco, olhar pela janela e chegar em casa sem conversar muito.

O aplicativo indicava quarenta e cinco minutos de viagem. O motorista comentou que o metrô levaria quase o dobro e contou que tinha morado em Londres. Falou dos vagões cheios, dos casacos pesados e do hábito de conversar alto ao telefone. De vez em quando, misturava inglês ao português. Eu respondia com um “sei como é” e acompanhava pelo vidro o trânsito lento, na esperança de que ele percebesse meu cansaço.

Num sinal fechado, ele olhou para mim e comentou: “Você tem uma bela barba”. Agradeci e disse que achava prático não precisar me barbear todos os dias. Ele quis saber se eu usava óleo ou algum produto especial. Respondi que lavava a barba com sabonete comum, o que pareceu impressioná-lo. Repetiu o elogio em inglês e, quando fingi não entender, voltou ao português para falar da minha genética.

Contei que meu pai morreu aos setenta e cinco anos ainda com os cabelos pretos e que minha mãe, aos oitenta e cinco, também conservava os fios escuros. Ele exclamou “Oh my goodness!” e começou a comparar nossa aparência. Disse que a nossa idade era a mesma, embora ele parecesse mais velho. Eu agradecia os comentários, cada vez menos à vontade. A conversa tomou outro rumo quando ele perguntou se eu tinha o peito peludo.

“What?”, respondi, virando a cabeça em sua direção.

Ele explicou que, por causa da minha barba cheia, imaginava que eu também tivesse muitos pelos no corpo. Contou que nele acontecia o contrário: a barba era rala e o peito quase liso. Respondi que tinha poucos pelos, sem entrar em detalhes, e ele disse “bacana”, encerrando o assunto com uma tranquilidade que eu já não conseguia compartilhar.

Ficamos algum tempo em silêncio, até que ele perguntou se eu era casado, pois tinha reparado na ausência de aliança. Expliquei que sim, mas o anel estava apertado depois que meu dedo engrossou. Ele contou que também era casado e passou a falar das dificuldades da rotina conjugal, especialmente da diferença entre o desejo sexual dele e o da esposa. Concordei que cada casal tem seu ritmo, tentando não prolongar a conversa. Mas ele resolveu acrescentar que gostava de transar com frequência e que provavelmente nós dois nos entenderíamos bem nesse aspecto.

Peguei o celular e comecei a responder mensagens. Não adiantou. Ele continuou falando e, em determinado momento, estendeu a mão em direção ao meu rosto, pedindo licença para tocar na minha barba e sentir a textura. Eu afastei o rosto apressado e, procurando manter a calma, disse que não queria aquele tipo de contato. Estava cansado e só pretendia chegar em casa. Ele recolheu a mão, pediu desculpas e afirmou que não era gay, que tudo não passava de um mal-entendido.

O restante do caminho transcorreu em silêncio, interrompido apenas pelas instruções do GPS. Quando finalmente paramos diante de casa, fui abrir a porta e descobri que estava travada. O motorista fez um sinal para eu esperar e se inclinou para pegar alguma coisa debaixo do banco. Segurei a maçaneta, acompanhando seus movimentos, até que ele tirou uma nécessaire preta, abriu o zíper e começou a procurar entre alguns papéis e cartões.

Retirou um cartão, estendeu-o para mim e pediu desculpas mais uma vez pelo desconforto. Disse que, se eu precisasse, bastava ligar. Só então destravou a porta. Desci do Corolla com as pernas levemente trêmulas e fui para casa.

Já na sala, examinei o cartão. De um lado, em letras douradas, estava escrito “Bearded Barber Shop”, seguido de endereço e telefone. Do outro, “Motorista particular com hora marcada”. A barbearia explicava, pelo menos, o entusiasmo com que ele tinha examinado minha barba. Mas olhei novamente os serviços anunciados e não encontrei nenhum que exigisse perguntar ao cliente se ele tinha o peito peludo.

Claudio Novakz – Crônicas sobre o que os homens não contam.