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Acordo uma hora antes do necessário para tomar café na cafeteria em frente ao meu prédio, onde posso demorar um pouco antes de seguir para o trabalho. Troco essa hora de sono pelo sossego de começar o dia entre gente, como tantos paulistanos que encontram nas padarias e cafeterias uma companhia que faz falta à mesa de casa.
Foi assim que comecei a encontrar Rodolfo, cuja presença no mesmo horário acabou criando uma familiaridade suficiente para nos cumprimentarmos, embora ainda nem soubéssemos nossos nomes. Durante um jogo da Copa na televisão do fundo, ele se aproximou para perguntar o que eu estava achando da partida, e precisei recorrer a uma opinião que tinha lido em algum lugar. Tenho um time porque entendi que homem precisa ter um, mas meu compromisso se resume às finais dos campeonatos e não inclui saber quem são os jogadores.
Mesmo assim, afirmei que a seleção estava ruim e dificilmente levaria a Copa, o que bastou para ele se sentar à minha mesa e conversar como se nos conhecêssemos havia anos. Enquanto os encontros se repetiam, fui deixando de procurar alguma explicação para aquela facilidade de se aproximar, porque Rodolfo também falava dos próprios problemas e, ao ouvi-lo, comecei a me permitir contar os meus.
Essa confiança foi crescendo até a manhã em que a filha da puta da depressão me deixou com os olhos marejados enquanto eu tentava explicar como estava. Quando ele se aproximou e colocou a mão no meu ombro, o alívio de me sentir acolhido fez com que eu chorasse de vez, sem precisar disfarçar o quanto estava mal. Deixei que me abraçasse, mas, em meio ao conforto, comecei a achar que ele estava flertando comigo, como se aquela atenção toda só pudesse existir por uma razão que eu ainda não tinha entendido.
Embora soubesse o quanto aquele abraço tinha me feito bem, comecei a evitar a cafeteria, constrangido com a ideia de que ele estivesse interessado em mim. Quando chegavam suas mensagens, demorava a responder ou deixava sem visualizar, mantendo à distância o homem a quem tinha conseguido contar o que me fazia sofrer. Quanto mais prolongava o silêncio, mais difícil ficava retomar o contato sem admitir o motivo do sumiço.
Com o tempo, comecei a me envergonhar, porque, afinal, que diferença faria se ele fosse gay? A orientação sexual do Rodolfo era uma conclusão minha, tirada de um abraço, enquanto a minha capacidade de ser um filho da puta estava muito bem demonstrada pelas mensagens que eu ignorava. Ainda assim, reconhecer isso não bastou para me fazer procurá-lo, até que a depressão apertou novamente e senti falta de conversar com alguém diante de quem não precisasse escolher tanto as palavras.
Queria voltar a falar com ele, mas não sabia como admitir que tinha fugido justamente quando me senti acolhido, por isso enviei um meme qualquer e fiquei esperando. Rodolfo visualizou depressa, sem responder, e as três horas até a mensagem seguinte me fizeram sentir a falta que antes eu tentava disfarçar. Abri esperando que dissesse estar com saudade, embora eu mesmo não tivesse tido coragem de dizer isso, e encontrei um meme de futebol.
No dia seguinte, arrisquei um “E aí, cara, blz?”, colocando naquela pergunta uma vontade de falar de mim que ele percebeu quase imediatamente. Mal ele tinha respondido “Resolveu dar sinal de vida, cara?” quando, sem esperar que eu me explicasse, acrescentou “Cê tá zoado, né?”, e já não encontrei motivo para disfarçar, porque era justamente por me conhecer daquele jeito que eu tinha sentido tanta falta dele.
Confirmei que estava mal e aceitei o convite para a cafeteria, sentindo vergonha de voltar ao lugar que tinha evitado só para não encontrá-lo. Quando percebi que vinha me abraçar, ainda estendi a mão entre nós, preocupado em não dar margem a uma intimidade que eu mesmo tinha ido buscar.
Apesar daquele cumprimento, voltamos a nos encontrar, e a intimidade foi crescendo conforme eu deixava de procurar segundas intenções no cuidado que recebia. Fazia bem saber que podia falar de um dia ruim e continuar sendo a mesma pessoa para ele, assim como me fazia bem ouvi-lo, sem que nossas conversas precisassem se limitar aos problemas. Aos poucos, chegamos à liberdade de eu chamá-lo de “veado” e ele me chamar de “arrombado”, e isso era um sinal forte de que dessa vez a amizade seguiria sem maiores contratempos, afinal de contas, mandar um amigo ir tomar no cu e chamar de arrombado é sinal de intimidade, uma espécie de carinho que apenas os homens entendem.
Já estávamos assim quando, numa manhã, a atendente se aproximou com nossos cafés e disse que precisava fazer uma confissão: “Eu sempre achei vocês um casal tão fofo que fiquei triste quando pararam de aparecer aqui juntos. Graças a Deus vocês voltaram!”
Olhamos um para o outro e começamos a rir, enquanto ela colocava os cafés na mesa, e só conseguimos agradecer.
Claudio Novakz – Crônicas sobre o que os homens não contam.