TUDO BEM?

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“Tudo bem?” costuma ser uma pergunta tão rápida que mal cabe uma resposta diferente de “tudo”. No elevador, no corredor do trabalho ou no caixa da padaria, ninguém estranha quando o assunto termina antes mesmo de começar.

João mora há anos no mesmo prédio e já reconhece os hábitos de muitos vizinhos. Sabe quem sai cedo, quem passeia com o cachorro à noite e quem demora para encontrar a chave com as sacolas na mão. Sobre o que acontece dentro dos apartamentos, entretanto, conhece muito pouco.

Ricardo, do 12º andar, sempre o cumprimenta educadamente, mas evita olhar em seus olhos. Assim que entra, fixa a atenção no painel do elevador ou nos próprios sapatos. João o considera tímido, sem imaginar que, na infância, Ricardo tinha sofrido humilhações na escola por usar óculos. Os colegas cresceram, os anos passaram, mas algumas experiências continuam interferindo na maneira como nos relacionamos com os outros.

No 10º mora Gustavo, separado e pai de dois filhos. Trabalha em casa, participa de reuniões pelo Teams e é um dos vizinhos com quem João mais conversa. Quando se encontram, Gustavo pergunta sobre a vida alheia, escuta com atenção e quase nunca fala da própria. Se alguém quer saber como ele está, responde invariavelmente: “De boa”.

Às vezes aparece com os olhos vermelhos, e João pensa que deve estar cansado. Acerta, embora desconheça as madrugadas em que Gustavo permanece acordado, preocupado com despesas que ainda não chegaram, doenças que não foram diagnosticadas ou problemas que imagina ter com os filhos. De manhã, prepara o café, trabalha, cuida das obrigações e volta a responder “de boa” quando encontra alguém.

Renan, do 7º, é diferente. Conversa com facilidade, faz piadas e parece conhecer todo mundo. Tem uma boa carreira e namora há mais de dez anos, embora ele e o companheiro prefiram morar em casas separadas. João o vê sorrindo, comentando notícias e cumprimentando os funcionários do prédio. Não tem como saber que, em algumas noites, Renan fecha a porta de casa e pensa que seria mais fácil deixar de existir.

É assim que os três aparecem aos olhos de João: Ricardo é reservado, Gustavo enfrenta bem a rotina e Renan parece feliz. Nenhuma dessas impressões dá conta de tudo o que cada um vive. Também não significa que estejam fingindo. Renan ri de verdade, Gustavo cuida dos filhos e Ricardo é mesmo educado. O que João vê é apenas uma parte, e ninguém costuma contar seus problemas num encontro de poucos segundos.

Existe, porém, uma parte dessa história que João conhece muito bem e raramente conta. Ele queria ter um amigo próximo, alguém para quem pudesse mandar uma mensagem às quatro da tarde dizendo apenas “Café?”, sem precisar combinar com antecedência ou explicar por que estava chamando. Alguém com quem pudesse conversar sobre qualquer bobagem e, quando fosse necessário, dizer que não estava bem.

João costuma fazer isso pelos outros. Pergunta, convida, oferece companhia e percebe quando alguém se afasta. Um dia, cansado de tomar sempre a iniciativa, resolveu parar de mandar mensagens para descobrir quem procuraria por ele. Passaram dois dias, uma semana, depois outra, e ninguém escreveu. Começou a se perguntar se era tão importante para os amigos quanto eles eram para ele.

A ausência de mensagens não significa necessariamente falta de afeto. As pessoas podem estar ocupadas, distraídas ou simplesmente acostumadas a receber os convites. João sabe disso, mas o silêncio prolongado acaba alimentando uma dúvida que ele preferia não ter. Ao observar os outros moradores, imagina que Ricardo, Gustavo e Renan certamente possuem amigos com quem conversar quando precisam.

Na manhã seguinte, os quatro se encontram no elevador. Ricardo entra no 12º, Gustavo aparece no 10º com o filho, e Renan se junta a eles no 7º. Trocam cumprimentos, comentam alguma notícia e seguem olhando para o painel, para o celular ou para a porta. Durante alguns segundos, estão tão próximos que mal conseguiriam dar um passo sem esbarrar uns nos outros.

Nenhum deles conhece as dificuldades dos demais, embora todos tenham aprendido a conviver com as próprias. Ricardo ainda carrega lembranças que prefere não revisitar; Gustavo administra preocupações que não divide com os amigos; Renan atravessa períodos em que continuar vivendo exige um esforço que ninguém percebe. João, que gostaria de ter uma amizade mais próxima, permanece convencido de que os outros três têm justamente aquilo que lhe falta.

Ao chegar ao térreo, Ricardo vai para a garagem, Gustavo acompanha o filho, Renan segue para a rua e João caminha até o carro. No próximo encontro, provavelmente trocarão os mesmos cumprimentos, e alguém perguntará se está tudo bem.

Cada um já sabe o que responder, embora nenhum deles saiba o que ouviria se o outro decidisse contar a verdade.

Claudio Novakz – Crônicas sobre o que os homens não contam.