TIO, COM PRAZER

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A primeira vez que uma criança me chamou de tio, eu tinha acabado de fazer trinta anos e fiquei puto pra caralho. Ainda me achava jovem demais pra ser chamado daquela forma e, quando ouvia o tratamento, já perguntava pra criança se eu era irmão do pai ou da mãe dela; diante da resposta negativa, ralhava e dizia que não era seu tio. 

O que eu ouvia naquele tio era que já estava ficando velho, e isso me incomodava mais do que eu queria admitir. Preferia discutir o parentesco, porque ali era fácil ter razão: não éramos parentes e pronto, eu não era tio! 

Quanto à idade, eu sabia quantos anos tinha e não via problema em ter trinta, desde que os outros continuassem me achando jovem. Se me chamavam de tio, eu já me imaginava parecendo mais velho do que era e deixava a simpatia de escanteio.

Com o tempo, fui deixando de me ofender e comecei a perceber o carinho daquele tratamento quando proferido por crianças ou adolescentes. Ser chamado de tio por uma criança começou a me parecer um sinal de que ela se sentia à vontade comigo e, depois dos quarenta, passei a ouvir mais o meu nome e só percebi o quanto sentia falta do outro tratamento numa conversa com um amigo do prédio.

Estávamos conversando enquanto as crianças brincavam com o filho dele, e elas o chamaram de tio. Fiquei com uma puta inveja, ainda mais porque ele é mais novo que eu e, se ele podia ser chamado daquela maneira, por que eu não? Comecei a me perguntar o que as crianças viam naquele amigo que não viam em mim.

Eu era apenas o Claudio, um tratamento que começou a parecer seco demais. Ao lado do tio que ele recebia, parecia faltar alguma coisa quando se dirigiam a mim; ninguém estava sendo grosseiro, eu sabia disso, mas bastava uma delas me chamar de Claudio pra me sentir deixado de lado.

Também não dava para perguntar às crianças o que faltava em mim. Como puxar uma conversa dessas sem parecer que eu estava cobrando alguma coisa? Pedir que me chamassem de tio tiraria boa parte da graça de ouvir aquilo, porque eu queria que a vontade fosse delas, e contar ao meu amigo era o mesmo que dizer que eu estava com ciúme de um carinho que apenas ele recebia.

Hoje, ao entrar no hall, encontrei o filho de outro amigo do condomínio. O garoto sempre me chamava pelo nome, então eu esperava o cumprimento de costume quando ele veio com um “E aê, tio!”. 

Caralho, fiquei contente de um jeito que não teria conseguido explicar sem contar toda essa história. O garoto sempre tinha sido simpático comigo, mas dessa vez me senti especial ao receber aquele carinho sem precisar pedir.

Subi no elevador com um sorriso no rosto, feliz com meu novo sobrinho.

Claudio Novakz – Crônicas sobre o que os homens não contam.