A FALTA DE QUEM FOMOS

Peguei o celular, abri o Whatsapp, rolei as mensagens e encontrei aquilo que há meses eu evitava nomear. O silêncio.

Os aplicativos são minuciosos quando se trata do que importa pouco. Informam o horário exato em que a mensagem foi enviada, recebida e visualizada. Exibem a última conexão, registram reações, arquivam fotografias e preservam conversas que ninguém terá coragem de reler, mas falham na informação decisiva. Não há um aviso dizendo: “Esta amizade terminou há três meses. Apenas você ainda não percebeu”.

Seria útil.

Demorei a admitir o que estava acontecendo porque perder uma amizade sempre me pareceu mais constrangedor do que perder um amor. O fim de um relacionamento amoroso possui um roteiro conhecido. Há uma conversa, ainda que ruim, há músicas apropriadas, amigos convocados, frases geradas pelo ChatGPT e ensaiadas para soar com naturalidade. A pessoa abandonada pode dizer que está de coração partido e será compreendida.

Já o afastamento de um amigo adulto ocorre de maneira diferente.

Primeiro, a resposta demora um pouco mais, depois, vem sem pergunta de volta. O convite recebe um “vamos ver”, expressão cuja principal função na língua portuguesa é impedir que alguma coisa seja marcada. O meme fica sem reação, a conversa perde a espontaneidade e passa a exigir esforço diplomático. Cada mensagem é redigida com o cuidado de quem tenta não parecer carente diante de alguém cuja atenção antes parecia natural.

A amizade transforma-se em uma espécie de monólogo educado.

Continuamos falando porque o silêncio definitivo nos obrigaria a reconhecer o vazio. Enquanto enviamos alguma coisa, podemos sustentar a fantasia de que o vínculo ainda existe, afinal de contas, uma resposta breve, por mais fria, serve como pequena autorização para prolongar a esperança.

O ser humano possui extraordinário talento para transformar migalhas em banquete quando está com fome de afeto.

Nas amizades masculinas, esse processo costuma ser ainda mais silencioso. Muitos homens são educados para reconhecer o afeto apenas quando ele aparece disfarçado. A amizade pode ser expressa por piadas, partidas de futebol, insultos, favores práticos e longos períodos de convivência nos quais quase nada íntimo é dito. Tudo isso pode conter ternura verdadeira.

Há homens capazes de atravessar a cidade de madrugada para ajudar um amigo com o carro quebrado, mas incapazes de dizer: “Senti sua falta”. Sabem trocar um pneu, mas não sabem nomear o abandono.

Essa limitação costuma ser apresentada como natureza masculina, como se os cromossomos carregassem uma proibição contra frases sinceras, mas não carregam. O que existe é um distanciamento baseado no medo: medo de parecer fraco, dependente, excessivo ou ambíguo. O homem aprende cedo que deve desejar companhia sem demonstrar necessidade, oferecer apoio sem pedir cuidado e sofrer perdas afetivas sem produzir incômodo.

O Tanakh, curiosamente, é menos constrangido do que nós.

Quando David e Jonathan se encontram, o primeiro livro de Samuel afirma que a alma de Jonathan se ligou à alma de David. Os dois estabelecem uma aliança. Jonathan protege David da fúria de Saul, arrisca sua posição e chora com ele no momento da separação. Mais tarde, David lamentará sua morte dizendo que a amizade de Jonathan lhe fora preciosa.

O texto bíblico não pede desculpas pela intensidade dessa amizade. Nós pediríamos.

Talvez acrescentássemos uma piada no fim da frase, apenas para garantir que ninguém interpretasse nossa sinceridade como ameaça à masculinidade, uma ironia que seria transformada em armadura à prova de abraço. Dizemos algo verdadeiro e logo o desmentimos com humor, porque sustentar a própria vulnerabilidade por mais de alguns segundos parece perigoso.

Por isso, quando alguém finalmente atravessa nossas defesas, aprende nossas histórias e compreende aquilo que não conseguimos explicar, surge a impressão de que esse vínculo precisa durar para sempre.

Pirkei Avot ensina: “Faz para ti um mestre e adquire para ti um amigo“. O verbo “adquirir” pode causar estranhamento, porque amizade não é mercadoria. Os sábios, contudo, pareciam compreender que um amigo custa alguma coisa. Custa tempo, disponibilidade, paciência e a renúncia ocasional ao próprio conforto. Custa ouvir uma história repetida, aparecer em dias inconvenientes e suportar a desagradável descoberta de que o outro também conhece nossas falhas.

Um amigo não é encontrado como uma moeda no chão, é cultivado. Mas cultivar não significa carregar sozinho.

Mas há uma diferença entre cultivar uma amizade e sustentar sua aparência depois que o outro já abandonou o trabalho. Mas vale observar que nem toda assimetria indica desinteresse. Existem períodos em que um amigo oferece mais porque o outro está doente, de luto, deprimido ou simplesmente sem forças. Reciprocidade não é contabilidade infantil. Não se trata de responder a cada mensagem no mesmo número de minutos nem de dividir todos os gestos com precisão comercial, trata-se de reconhecer no outro alguma vontade de permanecer.

Quando essa vontade desaparece, começamos a produzir justificativas: ele está ocupado está atravessando uma fase; é o jeito dele; sempre foi ruim com mensagens; talvez eu esteja cobrando demais. E algumas dessas explicações podem até ser verdadeiras. O problema é que, repetidas durante meses, elas deixam de explicar o comportamento do outro e passam a esconder nossa recusa em aceitá-lo.

O fato é que insistir nem sempre é prova de lealdade; muitas vezes é apenas medo de aceitar a realidade. O apego possui uma habilidade particular para vestir-se de virtude, chamamos de persistência aquilo que talvez seja humilhação voluntária, chamamos de esperança aquilo que talvez seja incapacidade de abandonar uma imagem antiga.

Em muitos casos, já não sentimos falta apenas do amigo, sentimos falta de quem éramos perto dele, porque uma amizade guarda versões de nós que não existem em nenhum outro lugar.

O amigo da adolescência conhece o rapaz anterior às responsabilidades, o colega de faculdade se lembra das ambições que abandonamos, aquele que esteve presente durante uma perda sabe como falávamos antes de aprendermos a esconder certas dores. Quando uma dessas pessoas se afasta, desaparece também uma testemunha de nossa própria história.

Isso explica parte do sofrimento; queremos preservar o vínculo porque tememos que, sem ele, alguma versão de nós morra definitivamente.

Montaigne escreveu sobre La Boétie com uma intensidade que atravessou séculos. Ao tentar explicar a amizade entre ambos, resumiu: “Porque era ele; porque era eu“. A frase é bela justamente porque se recusa a transformar uma relação excepcional em fórmula. Até porque, certas amizades parecem nascer de um reconhecimento imediato, como se duas pessoas encontrassem uma linguagem que já existia antes do encontro.

Aristóteles distinguia amizades baseadas na utilidade, no prazer e na virtude. As duas primeiras tendem a desaparecer quando a circunstância muda. O colega de trabalho se afasta depois da demissão, o companheiro de festas desaparece quando os hábitos se alteram, e isso não torna necessariamente falsa a convivência anterior, ela correspondia ao que ambos eram capazes de oferecer naquele período.

Nem toda relação precisa ser eterna para ter sido verdadeira.

Há uma metáfora que gosto de usar: amizades são pontes. Algumas atravessam décadas, outras duram apenas o necessário para nos levar de uma margem a outra. Uma pessoa nos acompanha durante uma mudança de cidade, uma doença, um trabalho difícil, uma crise de fé ou a juventude. Depois, a vida modifica os horários, os interesses e as prioridades. E está tudo bem, faz parte do percurso.

O erro consiste em querer transformar a ponte em moradia.

Rebbe Nachman de Breslov ensinou que o mundo inteiro é uma ponte estreita e que o essencial é não se deixar dominar pelo medo. A frase costuma ser usada como estímulo individual, mas talvez também diga algo sobre os vínculos. Algumas pessoas seguram nossa mão durante parte da travessia, e isso pode salvar uma época inteira de nossa vida.

Ainda assim, nada foi ajustado que elas deveriam chegar conosco até o fim.

Reconhecer isso não reduz a gratidão, ao contrário, livra o passado da acusação de não ter se tornado futuro. Uma amizade pode ter cumprido um papel decisivo e, depois, terminado. Ou o valor da água desapareceria após você ter saciado sua sede?

Kohelet afirma que há tempo de abraçar e tempo de afastar-se do abraço. Kohelet raramente se preocupa em tornar a verdade agradável, pois sua sabedoria consiste em saber que tudo é transitório.

Schopenhauer observou, com seu pessimismo habitual, que grande parte de nosso sofrimento nasce do conflito entre aquilo que o mundo é e aquilo que exigimos que ele seja. Nas amizades, sofremos muitas vezes diante de uma pessoa real e de sua versão preservada em nossa memória. O amigo presente responde pouco, evita encontros e já não demonstra curiosidade. O amigo lembrado ria conosco, procurava nossa companhia e parecia compreender tudo.

Assim, observar a reciprocidade é lucidez, porque o amor ao próximo não exige o desprezo por si mesmo. Hillel ensinou: “Se eu não for por mim, quem será por mim? E, sendo apenas por mim, o que sou?” As duas perguntas precisam permanecer juntas. Uma impede o egoísmo, a outra impede que chamemos de bondade o hábito de aceitar qualquer coisa para evitar o abandono.

Deixar ir raramente exige um discurso final, basta interromper o esforço unilateral que mantinha de pé uma construção abandonada.

No início, o silêncio aumenta e dói porque oferece uma medida exata daquilo que já existia. Depois, aos poucos, deixa de funcionar como acusação e se torna apenas silêncio.

A amizade a amizade que termina tem seu valor: as conversas aconteceram, as risadas foram reais, o auxílio recebido não perde valor; houve tardes, viagens, confidências e momentos em que a presença daquela pessoa tornou a vida mais suportável.

Voltei à tela do celular. A conversa permanecia ali, inteira e morta, com anos de mensagens preservadas. Havia aniversários, piadas, planos, fotografias, pedidos de ajuda e promessas de encontros futuros. O fato é que a tecnologia guardara tudo, exceto a amizade.

Fechei o aplicativo.

Amadurecer é também aprender a agradecer por certas pontes sem exigir que elas avancem depois da margem. Mas resta uma pergunta menos confortável:

Quando insistimos numa amizade que já terminou, sofremos pela falta daquela pessoa ou pela falta de quem fomos ao lado dela?

Claudio Novakz – Crônicas urbanas sobre o que ninguém diz