Vizinhos, cachorro e crianças: Pequenas tragédias da classe média urbana

Eram 21h45 e o barulho no apartamento vizinho não diminuía. Não era o barulho habitual que eu já estava acostumado a ouvir todas as noites, era um conjunto de sons: cachorro latindo, criança pulando, vozes agudas que não conversavam, apenas competiam. O piso vibrava levemente, dando a impressão de que o problema estava dentro do meu próprio apartamento.

Me sentei no sofá e fiquei esperando os quinze minutos passarem, porque eu ainda tinha a esperança ingênua de que ao dar 22h algum adulto responsável ia olhar pro relógio, franzir a testa e dizer “chega”.

Eu já conhecia o garoto, a gente se encontrava no elevador às vezes, ele sempre inquieto, apertando todos os botões como se estivesse diante de um console de Xbox, escolhendo andares que ninguém pediu, sorrindo sozinho da própria bagunça. Nunca me incomodou, criança ocupa espaço mesmo, faz barulho, corre e testa o limite das coisas. O problema daquela noite era o barulho excessivo. Não era uma criança, eram várias. E, no meio de tudo, um cachorro latindo, enlouquecido com a movimentação.

Sei que a lei do silêncio vale em qualquer horário, mas, para manter a política da boa vizinhança, resolvi esperar até as 22h antes de reclamar. Esse horário parece ter algum efeito psicológico em quem mora em prédio, principalmente em quem ainda tem um pouco de bom senso. Mas deu 22h. Depois 22h10. Depois 22h15. E o barulho continuava.

Resolvi tentar o exercício de respiração quadrada que aprendi com um sujeito que conheci no hall do elevador, amizade rasa, mas que trouxe algum aprendizado. Puxei o ar por quatro segundos, segurei quatro, soltei quatro, esperei quatro. Durante as crises de ansiedade a técnica tem alguma eficácia, mas naquela noite não surtiu efeito.

Liguei na portaria e pedi que interfonassem informando do barulho. Ouvi o telefone tocar do outro lado da parede. Depois ouvi uma voz abafada, então veio o silêncio. Mas durou apenas cinco minutos.

Contei o tempo olhando pro visor da Alexa. Cinco minutos exatos até o cachorro voltar a latir e alguma criança resolver soltar o primeiro grito.

Minha paciência já tinha ido embora nessa altura. Calcei o chinelo e decidi descer pra pedir uma ficha de reclamação. Abri a porta do apartamento e, quando coloquei o pé sobre o tapete felpudo, a porta do vizinho abriu também.

Quatro crianças saíram correndo e, antes que eu entendesse a movimentação, um cachorro peludo da cor de caramelo escapou no meio delas e entrou no meu apartamento, confiante, como se já conhecesse o espaço.

Fiquei parado segurando a porta, sem reação diante da situação inusitada.

O cachorro atravessou a sala correndo e foi direto pra área de serviço. Ouvi o barulho do xixi batendo no pé da máquina. Em seguida disparou pra sala, subiu no puff, raspou as costas na mesa de centro, pulou no sofá e saiu acelerado pelo corredor.

O garoto entrou no meu apartamento desesperado, tentando agarrar o cachorro com braços curtos demais pra velocidade do animal. A voz saiu fina, quase chorando.

“Cocada, vem aqui.”

Não me lembro do nome real do cachorro, mas na minha cabeça soou como ‘Cocada’.”

“Cocada, vem aqui.”

O cachorro ignorava completamente os chamados. Passou perto da mesa e soltou mais um esguicho de urina antes de correr de volta pro apartamento dele.

O menino correu atrás.

“Desculpa, moço. Desculpa, moço. Não conta pra minha mãe.”

A porta do apartamento dele bateu.

O silêncio voltou tão rápido que deu a sensação de que o prédio inteiro tinha prendido a respiração junto comigo.

Fiquei parado alguns segundos olhando pra sala. O pano do sofá torto, a marca úmida perto da máquina, um rastro pequeno de patas atravessando o piso. E acabei me esquecendo de fazer a reclamação. Peguei um pano de chão e comecei a limpar tudo, devagar.

Já passava das 23h quando terminei. Enchi uma taça de vinho, apaguei as luzes da sala e fiquei sentado no sofá enquanto o cheiro de maconha do apartamento de cima entrava pela janela.

Claudio Novakz – Crônicas urbanas sobre o que ninguém diz