A BEIRADA DO ÓRGÃO QUE ELE NÃO TEM

Conheço gente que fala palavrão pra dar ênfase, outras usam palavrões como vocativo, virgulas e até indicativo de uma amizade mais próxima. Mas, devo confessar que o uso de palavras de baixo calão me deixa constrangido. Sou um homem tímido, de família tradicional judaica, recatado e do lar;  quando escrevo algo que foge do padrão mais tradicional é unicamente pelo bem da humanidade.

Isso seria administrável, se eu não tivesse um amigo do trabalho que não consegue atravessar uma conversa sem soltar uns palavrões. Qualquer assunto, mais cedo ou mais tarde, traz à tona a expressão preferida dele:

“A beirada da minha buceta.”

Não importa se estamos falando de determinado trabalho, da vida pessoal ou no envio de meme pelo Instagram, ele, do nada, solta a frase. E sai com tanta naturalidade que ele nem percebe. Mas eu percebo, e percebo demais.

Conversar com ele virou uma espécie de campo minado, não por causa dele, por minha causa mesmo, porque preciso ficar policiando cada palavra antes de falar.

A palavra “cuidado” já me deixa em alerta, a expressão “levar por trás”, nem pensar. Se eu preciso tratar de um assunto mais técnico, faço uma abordagem mais longa, mais burocrática, só para evitar que ele solte um “na beirada” do órgão que ele nem tem. 

Outro dia comecei: “Isso entrou…”, mas parei no meio, pensei por uns segundos e troquei a frase inteira. Preferi parecer confuso a entregar de bandeja motivos pra ouvir uma sequência de palavrões.

O impressionante é que ele não faz por mal, não tem malícia na entonação. Ele apenas fala como quem diz “Ah! Isso não vai rolar”. Aliás, aqui estou escrevendo a palavra “rolar”, mas quando estou perto dele essa é uma das palavras que eu evito, e você, caro leitor, já percebeu o motivo.

O problema é que eu tenho uma imaginação fértil e não preciso ouvir uma frase muitas vezes que ela arruma um canto na memória. E fica lá, quieta, esperando o pior momento oportuno pra se apresentar.

No sábado, fui à sinagoga. Até aí normal, muito judeus com um mínimo de religiosidade vão à sinagoga de vez em quando. O problema começou quando rabino iniciou a leitura da Torá, em hebraico.

Meu hebraico é uma lástima! Pego uma palavra aqui, outra ali, e algumas frases usadas no cotidiano de uma família judia. Em determinado momento, o rabino disse uma palavra que eu não lembro agora, e que serviu de gatilho. Os demais seguiam com o “Baruch Atá Adonai, Elokeinu Melech Haolam…”, mas eu só me lembrava da beirada do órgão feminino.

Foi aí que acabou a minha paz.

Enquanto todo mundo seguia com a solenidade necessária, eu comecei um esforço pra não rir.

Olhei para baixo, fingi ter perdido a página, cocei a barba, ajeitei a kipá na cabeça. Fiz tudo o que uma pessoa faz quando se sente constrangida e quer evitar chamar atenção.

Durou pouco. A frase voltava, e voltava pior, porque agora vinha com culpa.

Na segunda-feira, cheguei ao trabalho decidido a não comentar nada. Sentei, liguei o computador e abri o  programa de emails, como sempre faço pelas manhãs.

Cinco minutos depois, ele apareceu com uma caneca de café na mão.

“Tudo bem, Claudio? Tava com saudade?”

“Oi, veado! Tô bem, e você?”

E lá veio a resposta:

“Veado? A senhora me respeite! Veado é a beirada da minha buceta!

Claudio Novakz – Crônicas urbanas sobre o que ninguém diz