AS DUAS CAIXAS

Eu estava no escritório quando apareceu um vendedor carregando duas caixas. Como não tinha pedido nada, fiquei tentando lembrar quem poderia ter feito uma compra sem me avisar. Ainda estava ocupado com isso quando olhei para o rosto do homem e reconheci Bruno, que tinha partido três anos antes.

Sorria daquele jeito contido que eu conhecia bem, com o cabelo um pouco mais crescido e uma aparência tranquila, mais saudável. As tatuagens tinham desaparecido do pescoço, das mãos, de toda a pele que eu conseguia ver. Reparei nessa diferença, mas não cheguei a me deter nela. Levantei da cadeira e fui até ele, apressado demais para organizar as perguntas que caberiam ali: “Caralho, Bruno, o que você tá fazendo aqui?”

“Tive que dar um jeito de vir te visitar, ué!” Ele colocou as caixas no chão, abriu um pouco mais o sorriso e concluiu: “A entrega foi apenas um pretexto pra aparecer.”

Nós nos abraçamos apertado, e senti meu corpo se aquecer. Ele perguntou o que eu andava fazendo, se ainda tocava violão e continuava escrevendo crônicas. Conversamos sem nos afastar, numa posição pouco prática para pôr a conversa em dia, mas nenhum dos dois soltava os braços. Ainda abraçado a ele, respondi: “Cara, sou igual você. A cabeça nunca para e eu continuo escrevendo de tudo.”

Apesar de ainda me lembrar da facilidade com que a gente conversava, não lembro direito do que dissemos depois.

Bruno sofria de depressão e tinha dificuldade de falar sobre o que sentia, e eu me reconhecia naquele jeito de guardar os problemas: também falo com facilidade do que faço, mas me retraio quando preciso contar como estou. Essa dificuldade de expor os sentimentos se repete entre muitos homens, mesmo nas conversas com amigos em quem confiam.

Sua morte por suicídio deixou perguntas para as quais continuo sem resposta. Não sei tudo o que ele enfrentava, nem quanto ficou por dizer entre nós. Durante a visita, não me ocorreu perguntar por que tinha partido ou como tinha conseguido voltar; eu estava contente demais em vê-lo e queria ouvir o que ainda tinha para me contar. Ele tinha vindo saber de mim, e eu respondia sem estranhar que a gente pudesse retomar uma conversa interrompida pouco mais de três anos atrás.

A certa altura, eu nem reparava mais na falta das tatuagens. Era o sorriso dele que eu reconhecia enquanto conversava, e a diferença na aparência foi deixando de importar. Quando disse que precisava ir embora, perguntei se já tinha mesmo que ir, e ele explicou que só tinha dado um jeito de me visitar. Lamentei a visita tão breve, ainda querendo prolongar a conversa, e insisti para que voltasse, com a liberdade de quem ainda pode combinar um próximo encontro: “Mas vê se volta, vê se dá um jeito pra gente se ver de novo.”

Acordei sem saber o que havia nas caixas. A visita inteira tinha acontecido num sonho, e precisei me acostumar de novo com a ausência de Bruno, depois de tê-lo tão perto. Eu sabia que estava acordado, mas meu corpo parecia conservar o calor daquele abraço. A imagem do escritório já começava a perder a nitidez quando ainda sentia que tinha acabado de me despedir dele.

Demorei a me desprender sobretudo do pedido que fiz na despedida. Disse que voltasse com a mesma naturalidade com que, a princípio, quis saber quem tinha encomendado aquelas caixas. Dentro do sonho, eu podia me preocupar com uma entrega e pedir a um amigo que aparecesse mais vezes. Agora sentia sua falta, ainda contente por tê-lo visto, e tentava lembrar o que ele tinha dito depois de perguntar pelas crônicas.

Claudio Novakz – Crônicas sobre o que os homens não contam.