Tá Foda

Primeira corrida do dia. O chamado veio do Hospital Santa Marcelina, na zona leste. Chuva fina no para-brisa, trânsito engrossando e aquele silêncio típico das manhãs cinzentas de São Paulo.

O rapaz entrou no carro carregando um cansaço visível no rosto. Antes mesmo de confirmar meu nome pelo aplicativo, já dava pra perceber que tinha alguma coisa pesada ali. Motorista aprende a ler as pessoas rápido. Tem passageiro que quer conversar desde o primeiro minuto e tem quem entre no carro criando uma parede invisível ao redor de si.

“Tudo certo, parceiro? Trabalha no hospital?”

Ele negou com a cabeça.

“Vim visitar.”

A resposta curta não abriu muito espaço, então deixei quieto. Ficou olhando pela janela durante alguns segundos antes de voltar para o celular. Hoje quase todo mundo faz isso. Antes da pandemia, as pessoas puxavam conversa por qualquer coisa. Futebol, clima, trânsito, novela. Agora parece que cada um vive preso dentro da própria tela.

Alguns minutos depois, ele perguntou:

“Faz tempo que você trabalha de aplicativo?”

Pergunta clássica. Escuto isso praticamente todos os dias.

“Cinco meses, indo pro sexto.”

Ele assentiu em silêncio, digitando rápido no celular. Achei que a conversa morreria ali, mas então comentou sem tirar os olhos da tela:

“Meu pai também era motorista. Só que ele gostava de trabalhar de madrugada.”

A frase saiu carregada de saudade.

“Ah, é? Faz tempo que ele parou?”

O garoto coçou a testa devagar antes de responder.

“Meu pai foi assassinado faz uns três meses, em Diadema. Parou no farol e dois caras numa moto abordaram ele pra roubar o celular.”

A voz dele não falhou. Isso me pegou.

Contou que conseguiram imagens das câmeras de uma padaria, mas nada da placa, nada dos criminosos, e nada de justiça.

“Se fosse empresário famoso tinham achado os caras no mesmo dia.”

Não respondi de imediato, só fiquei pensando na minha própria vida, nos meus filhos, na minha esposa desempregada desde a pandemia. Quando eu tinha carteira assinada, ainda conseguia respirar um pouco. Tinha seguro, benefício, alguma segurança. Hoje, se eu parar de trabalhar, minha casa para junto comigo.

“Que merda, cara… sinto muito mesmo.”

Olhei pelo retrovisor e vi os olhos dele brilhando, tentando segurar o choro.

“Tá foda”, respondeu baixo.

O rapaz devia ter no máximo vinte anos. A boca tremia de leve enquanto ele apertava os lábios tentando se controlar. Por um instante tive vontade de encostar o carro e abraçar o garoto. Fazer qualquer coisa útil além de dirigir.

Depois veio outra pancada.

“Semana passada minha namorada terminou comigo.”

Falou aquilo quase dando risada.

“Me trocou por um cara do trabalho dela.”

Fiquei pensando que, diante da morte do pai, aquilo parecia pequeno, mas sofrimento não funciona assim.

“Foda!”, falei. “Mas uma hora melhora. Só não pode desistir de você.”

Ele balançou a cabeça sem muita convicção. Pouco depois veio a pior parte.

“Minha mãe tá internada… sessenta e cinco por cento do pulmão comprometido.”

A frase saiu seca, automática.

“Sem pai. Sem namorada. E quase sem mãe.”

O carro ficou em silêncio depois disso.

Eu só ouvia o som do limpador de para-brisa e o barulho distante da cidade acordando. Pelo retrovisor, via ele digitando sem parar no celular. Talvez falando com alguém da família. Talvez tentando se distrair. Talvez só tentando não desmoronar dentro do carro de um desconhecido.

Depois de um tempo, perguntou:

“Você tem filhos?”

Respondi que sim. Falei das idades, das bagunças dentro de casa, das coisas bobas que eles gostavam de fazer.

Ele ouviu quieto.

“Eles têm sorte de ter pai.”

Não consegui responder nada além de um aceno com a cabeça. Seguimos em silêncio até o destino.

Quando parei o carro diante de um sobrado cercado por um muro alto de ardósia, o celular dele tocou. Atendeu rápido e saiu sem se despedir, ainda com o telefone na orelha. Fiquei observando pelo retrovisor enquanto caminhava alguns passos pela calçada, coçando a nuca.

Soltei o freio e desci a rua. Fiz o retorno na esquina e passei novamente pelo mesmo lugar.

Ele estava sentado na calçada, curvado, com o rosto escondido entre os joelhos e as mãos sobre a cabeça.

Sozinho.

Claudio Novakz – Crônicas urbanas sobre o que ninguém diz