3 min. de leitura
Me lembro de uma notícia que li quase sem prestar atenção, sobre alguém conhecido no meio artístico que tinha ficado noiva. A palavra estava no feminino, e a fotografia mostrava a pessoa de roupa clara, cabelo ajeitado e expressão contida diante da câmera. Era uma nota curta sobre um noivado, e a princípio não encontrei ali nenhum motivo para interromper a leitura das outras notícias.
A vida íntima das pessoas nunca despertou minha curiosidade. Afinal de contas, o gênero com que alguém se identifica, o nome que prefere usar e a pessoa com quem pretende se casar não alteram absolutamente nada na minha vida. Desci a página sem dar muita importância ao noivado, até encontrar os comentários, onde algumas pessoas pareciam muito mais envolvidas naquela relação do que eu conseguiria compreender.
Havia exclamações, palavras em caixa alta e trechos bíblicos usados para condenar o casal. Entre os que se apresentavam como religiosos, alguns chamavam aquilo de safadeza e afirmavam que Deus abominava aquela união. Voltei à notícia procurando o motivo de tanta indignação, mas o que encontrei foi a mesma notícia de antes. Alguém tinha ficado noiva, e isso parecia suficiente para despertar uma hostilidade que a fotografia não explicava.
Foi lendo aquilo que me lembrei de Desmond Tutu, o arcebispo anglicano sul-africano que afirmou: “Deus não é cristão”. Para mim, a frase questiona a certeza de quem confunde a própria fé com tudo o que Deus poderia ser. Se ele é o criador de todos, não consigo entender por que só reconheceria como seus aqueles que o procuram dentro de uma determinada religião.
Uma crença pode orientar a vida de quem a segue, inclusive suas escolhas afetivas. Entendo que alguém recuse para si uma relação que contrarie suas convicções, mas, naquela página, pessoas usavam a própria fé para condenar a vida de quem não tinha pedido orientação a elas. Nem sequer era preciso conhecer a história do casal: bastava a notícia do noivado para que soubessem o que Deus pensava a respeito.
Fiquei incomodado com essa facilidade de falar por ele. Quando penso numa vida a dois, penso também no que acontece longe de uma fotografia de noivado. Duas pessoas que decidem dividir a vida terão contas para pagar e poderão enfrentar dias em que o dinheiro será insuficiente; uma delas poderá adoecer e precisar da presença da outra. Serem dois homens ou duas mulheres não muda o cansaço de quem cuida nem a falta que faz ter alguém por perto quando o corpo já não dá conta.
Não sei como seria a vida daquele casal, e a notícia também não permitia saber, mas chamar uma relação consentida entre adultos de safadeza, pelo gênero das pessoas envolvidas, dispensa qualquer interesse pelo que elas fazem uma pela outra. O julgamento já está pronto antes que se conheça o vínculo, reduzido ao que os outros imaginam que acontece na cama.
Enquanto eu tentava entender aquela preocupação, pensava no sofrimento que exige tão pouco esforço para ser encontrado. Há gente dormindo em calçadas e mulheres sendo agredidas dentro de casa. A palavra “safadeza”, usada com tanta convicção nos comentários, me parecia caber melhor em quem se aproveita da fragilidade de outra pessoa ou explora sua fé para tirar dela o pouco que tem.
A gente pode discutir por horas o comportamento de um desconhecido sem precisar fazer nada além de escrever. Diante de alguém que pede ajuda, a situação se complica, porque existe uma necessidade à qual uma opinião não responde. É preciso decidir se vamos nos envolver ou se continuaremos andando. Nesse momento, o que nós fazemos tem uma consequência que não depende da religião de nenhum dos envolvidos.
Me custa aceitar a imagem de um Deus voyeur, atento a quem se deita com quem, enquanto o sofrimento que nós conseguimos enxergar necessita de alguma resposta nossa.
Naquela notícia, alguém tinha anunciado um noivado, e eu continuava sem entender por que tanta gente precisava levar Deus até a cama dos outros.
Claudio Novakz – Crônicas sobre o que os homens não contam.