O ÚLTIMO CAFÉ

Eu lia um livro qualquer na cama quando a gata começou a miar desesperada. Antes mesmo de o portão bater, ela já sabia. Saí para o quintal. A gata tinha razão.

Minha irmã voltava da clínica de Uber. Estava feliz, olhos brilhantes. Não perguntei o motivo; a felicidade alheia, às vezes, é um espetáculo que a gente só assiste, sem questionar. “Oi, Cá!” Minha mãe, sentada à mesa, ergueu os olhos da xícara. “Essa gata te conhece de longe”, disse ela, com aquela voz mansa de quem entrega um segredo. “Acredita que miou antes de eu ouvir o barulho do carro?”

Minha irmã pegou o bicho no colo, beijou-lhe a cabeça e despejou o sachê no pote. O miado cessou. Sentou-se. O café recém-passado subia em fumaça, com aroma de tranquilidade. As duas conversavam, riam sem pressa, como se o tempo tivesse lhes dado uma trégua. Eu, com meu livro, e elas na cozinha. Tudo estava no seu devido lugar.

Acordei com a sensação física desse abraço. Aquele instante em que a paz do sono ainda confunde a vigília. Mas o som da chuva batendo forte na veneziana de madeira trouxe a consciência de volta. Não era música, era apenas água e gravidade.

Levantei e fui ao quarto da minha mãe. Ela estava lá, de barriga para cima, como sempre. O rosto marcado pelas batalhas silenciosas que a deixaram acamada há tanto tempo. Dormia.

Segui para o quarto da minha irmã. Passos lentos de quem teme o que vai encontrar. Ela também dormia. Suspirei ao ver o movimento sutil do tórax. Minha irmã não dirige mais. Não anda de Uber. O tumor de cinco centímetros no cérebro lhe roubou o sorriso e a autonomia. Hoje, sua única tarefa é respirar.

Voltei para a minha cama. Encolhi-me em posição fetal, tentando convencer meu corpo a girar os ponteiros ao contrário. Fechei os olhos, implorando para voltar àquele lugar onde há cheiro de café, onde a gata mia na porta e onde a minha irmã ainda sabe sorrir.