Esta noite eu sonhei com o Rafael, mas não foi um sonho comum, porque dentro dele eu tinha consciência de que estava sonhando, e essa lucidez estranha me fazia sentir cada detalhe com uma intensidade quase insuportável. Já fazia muito tempo que ele não vinha me visitar assim, e ao vê-lo percebi, com um aperto silencioso no peito, que estava mais novo do que da última vez, como se o tempo para ele tivesse escolhido outro ritmo, uma outra lógica que não a minha.
Mesmo ali, naquele espaço frágil do sonho, eu pressenti que logo não o teria mais comigo, e esse pressentimento não veio como medo, mas como uma certeza tranquila e cruel. Tomei-o nos braços, senti o peso leve do seu corpo, o cheiro conhecido que nenhuma memória consegue reproduzir, acariciei seus cabelos com a urgência de quem tenta guardar o que não pode ser guardado e disse: “Você sabe que neste mundo não existe nada e ninguém mais importante do que você, não sabe?”
Ele assentiu rápido, com aquele gesto simples que tantas vezes me arrancou sorrisos na vida desperta, e me olhou com alegria genuína, sem sombra de dúvida ou dor. “Eu também te amo muito, papai”, disse, abrindo os bracinhos com naturalidade, e completou: “Eu te amo deste tamanho. Do tamanho do mundo!”
Senti a garganta se fechar, mas ainda consegui pedir: “Então me abrace bem forte, como nunca me abraçou antes”, e naquele instante o mundo inteiro pareceu caber no espaço exato entre o peito dele e o meu. O abracei, beijei seu rosto com uma delicadeza quase reverente, como se soubesse que aquele gesto precisava compensar todas as ausências, todos os dias que não vieram depois, e ali se misturavam uma alegria funda e um desespero contido, porque amar assim, naquele contexto, doía mais do que perder.
Como num filme silencioso, imagens começaram a atravessar minha mente, cenas simples, nós dois brincando sem propósito, risadas que não tinham hora marcada, momentos banais que só depois da perda se revelam preciosos, e percebi, com uma clareza quase física, o quanto fui feliz sem saber. Abracei-o ainda mais forte, tentando fixar aquela sensação, como se fosse possível eternizar o instante apenas pela força do desejo.
Mas o tempo, mesmo nos sonhos, não aceita negociações. Acordei daquele sonho que existia dentro de outro sonho e, ainda sem sair completamente dele, contei a outras pessoas sobre o encontro que tivera com meu filho, e enquanto descrevia seu rosto, sua voz, o calor do abraço, consegui esticar por alguns segundos a ilusão de que ele ainda estava comigo, como se as palavras fossem capazes de sustentar sua presença.
Por fim, despertei de verdade. Do lado de fora, a chuva caía pesada, e o som ritmado das gotas na janela preenchia o quarto com uma melancolia quase respeitosa. Permaneci imóvel, de olhos fechados, numa tentativa inútil de segurar o que já se desfazia, como quem se recusa a abrir as mãos depois de perder algo precioso.
Enxuguei as lágrimas, respirei fundo e, sem frases bonitas ou pedidos elaborados, apenas supliquei a Deus que me permitisse encontrá-lo outra vez, mesmo que fosse assim, nesse território instável dos sonhos, porque ali, ao menos por alguns instantes, eu ainda podia ser pai do jeito que fui.
O relógio sobre a cabeceira despertou com seu som impiedoso, chamando-me de volta para um mundo que não espera, e precisei abandonar meus devaneios e me levantar. Quis ficar na cama, longe de tudo, mas o dia já estava ali, exigindo presença. A cada novo amanhecer, essa pergunta me acompanha com a mesma insistência: se algum dia vou conseguir superar a perda do meu filho, ou se, no fundo, superar seria uma forma de traí-lo.
Ah, Rafael, meu filho querido. Onde você estiver, saiba que neste mundo eu nunca amei nada e ninguém mais do que amei você, e esse amor, mesmo ferido, continua respirando em silêncio, esperando, talvez, mais um encontro que não sei quando virá.