Quando os amigos imaginários crescem

Os adultos aprenderam a dar nomes sofisticados aos seus amigos imaginários. A infância inventa companheiros invisíveis; a vida adulta inventa sistemas de crença. 

Pensei nisso na sinagoga. Enquanto observava as pessoas rezando, me ocorreu que os amigos imaginários não desaparecem quando crescemos, apenas recebem outros nomes. Às vezes são entidades. Às vezes Deus. Às vezes santos. Não importa a forma escolhida; importa a necessidade que sustenta essa invenção, porque o ser humano é incapaz de atravessar a vida completamente sozinho.

E isso não é fraqueza, é apenas um sinal da nossa humanidade. Somos animais gregários, precisamos da sensação de companhia, mesmo quando ela não pode ser comprovada. A criança fala com alguém que ninguém vê. O adulto reza, pede conselho em silêncio, agradece, negocia, culpa, espera resposta. Em ambos os casos existe uma presença construída para tornar o mundo mais suportável.

A religião tem sobrevivido durante tantos séculos não por oferecer respostas, mas por oferecer companhia a pessoas apavoradas demais para encarar o silêncio sozinhas. As doutrinas mudam, os livros sagrados recebem novas interpretações, mas a necessidade humana permanece quase imutável. O homem continua precisando sentir a presença de alguém que o acolha. Não importa se ela acontece numa sinagoga, numa igreja ou no quarto escuro de alguém que perdeu a esperança. Em todos esses lugares existe a tentativa de transformar o abandono em diálogo.

Por isso que a modernidade, apesar de toda a tecnologia e de toda a comunicação instantânea, não tenha conseguido eliminar esse impulso. Nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão sós. Multiplicamos contatos, mas continuamos procurando presença. Talvez os amigos imaginários da infância fossem mais honestos. A criança sabe que inventou alguém para suportar o medo. O adulto prefere chamar isso de fé. Mas, no fundo, continua fazendo a mesma pergunta infantil para o vazio: “Você está aí?”

E, no entanto, chamar isso de ilusão seria leviandade. Um amigo imaginário não precisa ser real para produzir efeitos reais. A criança sente menos medo; o adulto suporta melhor o sofrimento, a culpa, a incerteza, a solidão.

O fato é que a diferença entre a infância e a vida adulta é menor do que gostamos de admitir. Apenas refinamos nossos mecanismos de companhia, mas a necessidade continua a mesma.

Claudio Novakz – Crônicas urbanas sobre o que ninguém diz