Claudio Novakz

642 contatos e nenhum pra ligar

Numa rua qualquer de São Paulo, vive João, 45 anos, mais um entre tantos que seguem a rotina de uma cidade grande. Não importa muito como você o imagine, solteiro, gay, hétero ou qualquer outra forma de viver, porque, no fundo, todo homem carrega algo parecido.

Numa sexta à noite, largado no sofá, ele pegou o celular e começou a passar pelos contatos. Anderson da contabilidade. Fábio da faculdade, que sumiu faz mais de dez anos. O grupo do futebol de quinta. Uns três Zés com sobrenome de empresa, além do “Zé (marido da Maria)”. Mas que Maria? Ele não fazia ideia.

Seiscentos e quarenta e dois contatos. Um monte de nomes, mas nenhum pra quem ele pudesse fazer uma ligação simples, daquelas sem rodeio:

“Cara, tem cinco minutos pra mim?”

Não era o trabalho, ele exerce um cargo de confiança na empresa; também não era dinheiro, as contas estavam em dia. Era outra coisa.

Um aperto estranho no peito, um ruído constante na cabeça, como uma TV fora do ar. Por fora, tudo seguia normal. Reuniões, almoço com colegas de trabalho, alguma piada no corredor da empresa. Por dentro, uma sensação desesperada de que algo não está bem.

Depressão, ansiedade, melancolia? O nome nem fazia diferença. 

Tem meio que uma regra não dita entre os homens, que ninguém explica, mas todo mundo aprende. O João, por exemplo. Se o carro quebra, ele liga. Se precisa de ajuda numa mudança, ele chama sem muita cerimônia. Em dia de jogo, então, o celular dele vira ponto de encontro, cerveja, comemoração ou xingar o árbitro de filho da puta, sempre cabe mais um.

Agora, pegar o telefone só pra dizer “não tô legal”… aí já é outra história. Isso não entra no protocolo. E nem é falta de vontade, é um travamento mesmo, um receio de soar estranho, de ser entendido errado.

João continuou rolando a lista até parar em um nome: Paulo. Um colega de trabalho, daqueles com quem almoça de vez em quando. Já tinham conversado um pouco mais do que o básico, mas sempre dentro de algum contexto relacionado ao trabalho, nunca tinham entrado em nada muito pessoal. Ainda assim, parecia a melhor opção que ele tinha.

Abriu a conversa. O campo de mensagem vazio, o cursor piscando.

Ele digitou. Parou. Leu. Apagou.

Digitou de novo. Mudou uma palavra, depois outra. Em todas as versões, vinha a mesma dúvida: como aquilo seria recebido do outro lado? Bastava imaginar a interpretação errada para ele travar e apagar tudo outra vez.

A ideia era simples: mandar algo e torcer por alguma conexão. Mas e se Paulo interpretasse a mensagem de outro jeito?

João respirou fundo, olhou pro abajur no canto da sala e escreveu:

“Cara, você tá ocupado? Tem um minuto pra mim?”

Dessa vez, não revisou, não mexeu em nada, só respirou fundo e enviou.

Ficou com o celular na mão, parado, com a cabeça apoiada no encosto do sofá. O tempo começou a se esticar e cada segundo se tornou uma eternidade.

Quando a notificação finalmente soou, ele não abriu na hora. Primeiro olhou o nome, depois o trecho da mensagem que estava visível, e só então tocou na tela pra abrir a conversa.

“E aí. Aconteceu alguma coisa?”

Ele leu duas vezes, mais devagar na segunda, e demorou uns instantes antes de tomar coragem pra responder.

“Aconteceu, sim… ou não, sei lá… só sei que não tô bem.”

A resposta veio quase na mesma hora.

“Sentindo o que, cara? Já foi no médico?”

“Não é nada pra médico…. a cabeça que tá zuada.”

Dessa vez, a resposta demorou um pouco mais pra chegar.

“Bora pra lanchonete do Zé. tô precisando relaxar tb.”

João leu de novo e parou na segunda metade da mensagem: “tô precisando relaxar tb”.

“Bora!”

***

Eles chegaram quase ao mesmo tempo e se sentaram numa mesa na calçada, sem pressa, como se pudessem segurar o tempo ali. A conversa começou por coisas corriqueiras: o trânsito caótico mesmo àquela hora da noite, o preço do combustível, o calor fora de época, a situação da empresa. Qualquer assunto servia, desde que mantivesse o papo circulando.

Só que o motivo de estarem ali continuava sendo evitado, rondando a mesa em silêncio, como algo que nenhum dos dois tinha coragem de encarar, sem passar a ideia de fragilidade ou desordem emocional.

João puxou fundo o cigarro de menta, soltou a fumaça devagar e acompanhou com os olhos até ela desaparecer. Só então encarou o Paulo e disse:

“Você já teve a impressão de estar gritando por dentro, mas ninguém tá te ouvindo?”

Ele ficou esperando uma piada, mas ela não veio. Paulo só coçou a barba e concordou com a cabeça.

“Cara, nunca contei isso pra ninguém, mas tem quase um ano que tô tomando remédio pra conseguir pegar no sono. Nem minha mulher sabe. Às vezes eu paro o carro na garagem e fico chorando antes de subir.” Ele deu um gole na cerveja e prosseguiu: “Sei bem o que quer dizer.”

João ficou olhando para ele, em silêncio. Era estranho ouvir aquilo vindo do Paulo, o cara feliz das fotos de viagem, sempre com um sorriso fácil, sempre pronto para transformar qualquer situação em piada.

“Puta, cara. Que merda! Achei que fosse só eu.”

Paulo deu um sorrisinho de lado, meio sem graça.

A gente aprende a engolir tudo, né? Ficar quieto, fazer cara de que tá tudo bem… Esses dias eu tava vendo um filme… e fiquei com aquilo na cabeça. Os caras riam, bebiam juntos… mas também se abriam, se abraçavam… e ali era normal. Aqui fora… a gente pensa duas vezes até pra falar que não tá bem. E isso faz a gente sofrer pra caralho!”

Ele deu outro gole na cerveja antes de prosseguir:

“Ontem eu fiquei com o celular na mão um tempão. Abri a conversa de um amigo, fechei, abri de novo. Era só mandar uma mensagem, jogar conversa fora e espairecer, mas sei lá… acabei não mandando.”

Eles ficaram ali por quase duas horas, falando de tudo e de nada, sem pressa de ir embora. Não teve nenhuma grande revelação, nenhum momento decisivo, foi só conversa mesmo, do jeito que vinha.

Quando João voltou pra casa, percebeu no caminho que o silêncio já não pesava igual. Não era euforia, nem solução de nada, mas o peito parecia mais leve, como se aquele aperto constante tivesse afrouxado um pouco. Ele não saberia explicar o que mudou, só sentia que alguma coisa, lá dentro, tinha saído do lugar, ou finalmente encontrado um.

***

Chegando em casa, ele se jogou no sofá, esticou as pernas na mesa de centro e, quase no automático, abriu a lista de contatos de novo.

Seiscentos e quarenta e dois nomes. Os mesmos de sempre.

Mas agora não era igual, porque sabia que em algum lugar da cidade, tinha alguém acordado, alguém que também passava por coisas parecidas, que também carregava seus próprios silêncios.

João deixou o celular apoiado no peito e ficou ali, olhando pro teto, aliviado. O peito mais leve, os ombros já não tão tensos.

Claudio Novakz – Crônicas urbanas sobre o que ninguém diz