No Hall do prédio

Amigos são uma categoria curiosa de gente.

Ao longo da vida a gente vai acumulando vários tipos, como quem guarda bugigangas na gaveta da cozinha. Algumas ainda servem, outras ninguém sabe por que continuam ali; de qualquer forma, todas têm alguma história.

Tem o amigo de bar, que escuta suas tragédias sentimentais enquanto gira o copo de cerveja e solta frases profundas o suficiente para justificar mais uma rodada.

Tem o amigo de viagem, que já te viu às sete da manhã com bafo de aeroporto e a mesma camiseta há três dias, e mesmo assim continua sendo seu amigo.

Tem o amigo de futebol, que sofre ao seu lado por um impedimento duvidoso e oferece, na derrota, aquele silêncio respeitoso que só o fracasso coletivo produz.

Existem até os amigos de swing, mas desses, por motivos óbvios, eu prefiro não falar.

Até pouco tempo atrás, eu jurava que meu catálogo de amizades estava completo, até descobrir uma categoria nova: o amigo de hall de prédio.

Tudo começou numa terça ou quarta-feira, não me lembro ao certo. Eu estava esperando o elevador, com humor típico de quem trabalhou demais, pensou demais durante o dia e já estava exausto da vida e tudo o que queria era entrar em casa, me jogar no sofá e esquecer do mundo, das pessoas, de mim mesmo. E foi justamente nesse momento de desejo de isolamento que ele saiu do elevador, olhou para mim com uma cara meio séria e perguntou: “O que foi? Aconteceu alguma coisa, cara?”

Era uma pergunta simples, mas naquele momento foi como se alguém tivesse encostado o dedo exatamente no ponto dolorido. E eu desabei. Chorei ali mesmo, diante de um homem que até então era apenas “o vizinho do décimo terceiro andar”.

Sentamos nas poltronas do hall e ficamos conversando. Abri meu coração como nunca havia feito antes e joguei pra fora tudo o que estava me sufocando, e me senti acolhido.

Aos poucos, a conversa foi mudando de direção, eu não chorava mais e o assunto se tornou mais leve. Falamos do síndico, do barulho do apartamento de cima, do preço absurdo das coisas no mercadinho do prédio.

Desde então, de vez em quando nos encontramos naquele mesmo lugar, entre a porta de vidro e o elevador. Conversamos alguns minutos e depois cada um sobe pro seu apartamento.

No começo imaginei que aquela amizade pudesse evoluir e, confesso, desejei que ali fosse o início de uma amizade promissora. Idealizei, afinal de contas, um amigo a um elevador de distância parece uma boa ideia: café improvisado, pizza sem cerimônia; talvez um jogo qualquer na televisão. A conversa fluía, as risadas eram sinceras, havia uma cumplicidade estranha ali, entre o sobe e desce do elevador e as poltronas gastas do hall.

Mas a vida é especialista em frustrações e logo deixou claro que nem toda afinidade vira amizade profunda. Algumas relações nascem com limite de altura, como os bonsais: bem cuidados, até bonitos, mas incapazes de crescer. E nossa amizade ficou exatamente onde começou. No hall do prédio.

Nunca houve convite, nunca um “sobe lá em casa”. Nunca um passo além da linha invisível que separa o espaço comum do território íntimo. A gente se encontra, senta, troca nossas queixas, ri do mundo e volta cada um pro seu apartamento.

Essa falta de reciprocidade me incomodou no início. Demorei a entender que não era um defeito, talvez fosse apenas uma característica, uma forma de não se envolver demais, de não se expor, de evitar o risco de precisar do outro além do que o código masculino tolera.

Ainda assim, aprendi a reconhecer o valor dessa amizade. Ela não exige entrega, nem profundidade, nem a coragem de se mostrar inteiro, oferece apenas o suficiente: um contato humano mínimo, mas real, capaz de lembrar que ainda pertencemos ao mesmo mundo.

O tempo me ensinou que amizades de hall de prédio não salvam ninguém nem sustentam crises profundas, mas possuem suas virtudes. Hoje, aceito esse amigo como ele é, não como eu idealizei. Ele não sabe dos meus traumas mais profundos, não senta à minha mesa, não me liga. Mas, vez ou outra, me vê cansado e pergunta se aconteceu alguma coisa. E por alguns minutos, isso basta. 

Talvez o mais revelador não seja a existência desse tipo de amizade, mas o fato de a gente ter de aprender a se contentar com ela, não por maturidade, mas por exaustão, porque pedir pouco dói menos do que desejar muito.

E, no fim, o hall continua ali, as poltronas também. O elevador sobe e desce, outras pessoas passam e, às vezes, encontro meu amigo do hall sentado em uma das poltronas. Trocamos algumas palavras, falamos de questões do dia a dia e cada um segue seu rumo. É pouco? Claro que é, porque a gente sempre espera mais. De qualqer forma, essas pequenas interações, muitas vezes, servem de lenitivo quando a dor no peito aperta mais do que deveria.