Meu avô sustentava a tese teológica, jamais escrita em livro sagrado algum, mas praticada com rigor dogmático, de que a morte é uma visita educada que jamais ousaria interromper um homem durante a refeição. Talvez por essa convicção inabalável ele tenha durado tanto, resistindo às intempéries do tempo com a tenacidade de uma oliveira antiga, pois comia devagar, transformando cada garfada em um versículo silencioso da Torá, mastigando a existência sem pular linhas e sem a pressa vulgar de quem antecipa a sobremesa. Para ele, enquanto houvesse um pedaço de pão sobre a toalha ou um resto de vinho no fundo do cálice, a vida estava assegurada, visto que sempre faltava um prato, sempre havia uma nuance de tempero a ser decifrada, e a morte, respeitosa, aguardava do lado de fora, sentada na varanda.
Em contrapartida, meu tio era a própria encarnação da urgência, um homem que vivia em itálico, inclinado para a frente, comendo em pé no balcão da cozinha como se o mundo fosse acabar antes que ele pudesse engolir o café. Terminou a missão cedo, partindo jovem demais, deixando-nos com aquela frase terrível e comum que repetimos nos velórios para preencher o silêncio: “Morreu antes da hora”. Mas essa afirmação sempre me causou desconforto, pois que hora é essa, cronometrada por que relógio invisível, que ninguém sabe explicar, mas que todos parecem temer?
Esses mistérios sempre bagunçaram minha mobília interna, transformando-me em um inquilino desconfiado dentro da própria fé. Não sou uma pessoa religiosa no sentido litúrgico, daqueles que não falham um Shabat, mas em momentos assim, quando a ausência se torna uma presença física na sala de jantar, uma espiritualidade meio revoltada, meio inquisidora, insiste em aparecer. Fui consultar a Torá e o Eclesiastes, esperando uma cláusula contratual clara, mas encontrei apenas a poesia dura de Salomão: “Há tempo de nascer e tempo de morrer”. É bonito, possui uma cadência solene, mas ajuda muito pouco quando a dor ainda está viva e latejando, visto que a poesia não estanca a hemorragia da saudade.
Foi justamente dessa frustração, desse silêncio de Deus diante das minhas perguntas ruidosas, que nasceu a vontade de investigar o que existe por trás desse tal “tempo certo”. A tradição judaica, em suas camadas mais místicas, ensina que cada alma desce ao mundo com uma missão específica, um ajuste fino a ser feito na grande engrenagem quebrada da realidade. Alguns vêm com a paciência dos jardineiros para plantar carvalhos que só darão sombra daqui a cem anos; outros vêm apenas para regar uma única roseira que estava morrendo de sede; e há aqueles, misteriosos e breves, que aparecem apenas para recolher uma folha seca que sujava o caminho e, concluída a tarefa, retornam imediatamente para casa. Segundo a Cabalá, antes de respirarmos o ar deste mundo, a alma se apresenta diante do Criador para combinar os detalhes da jornada, o peso da bagagem, os encontros inevitáveis e, crucialmente, o momento do retorno.
Às vezes, observando minha própria procrastinação e minha dificuldade em fechar ciclos, penso que devo ser um desses espíritos repetentes, cheios de atrasos e pendências, que reencarnam sucessivas vezes tentando terminar o que deixaram pela metade na vida anterior. Imagino Deus, com a paciência infinita que lhe atribuem, folheando meu histórico espiritual, suspirando diante da bagunça e dizendo: “Vamos dar mais um tempo para ele, pois ainda não aprendeu a arrumar a própria cama”. O tempo, afinal, é uma medida humana e falha, pois não afere profundidade, apenas duração. Conheci pessoas que, em poucos anos, fizeram mais barulho e geraram mais luz no universo do que muita gente em uma vida centenária e morna; gente que passou rápido como um cometa, mas deixou marcas que continuam queimando na retina da memória.
Lembro-me de um velho amigo da sinagoga, um homem que lia o Zohar como quem decifra mapas de tesouro, que me dizia que algumas almas vêm a este mundo apenas para acender uma vela. Um gesto, uma palavra, um encontro fortuito na fila do pão, e pronto: a missão está cumprida, a luz foi feita, e a permanência prolongada torna-se desnecessária. Aceitar isso é o ponto mais difícil, o cume da montanha onde o ar é rarefeito, porque nossa cabeça, viciada na lógica linear, pede justiça cronológica e longevidade como prêmio, enquanto o coração, analfabeto nessas questões teológicas, apenas mastiga a saudade devagar.
O Baal Shem Tov, fundador do chassidismo, ensinava que tudo acontece para o bem, não como uma negação ingênua da dor, mas como o reconhecimento de que existe uma geometria sutil operando além do alcance da nossa miopia material. Há uma ordem nos caos, uma arquitetura nas ruínas, mesmo quando nossos olhos, embaçados pelas lágrimas, só conseguem enxergar o desmoronamento. Eu, que não tenho a visão dos profetas e muitas vezes tropeço na própria sombra, só consigo transformar essa angústia em história, não para aliviar a ausência, mas porque narrar é a única forma que encontrei de continuar dialogando com quem já se foi.
No fim das contas, a morte não tem hora marcada na nossa agenda, mas tem hora cumprida na agenda do Eterno. Se cada alma veio desempenhar um papel específico no grande teatro da criação, morrer não é ser interrompido no meio da fala, é concluir o monólogo e sair de cena sob os aplausos invisíveis dos anjos. Talvez aqueles que “morrem antes do tempo” não sejam vítimas de um erro de cálculo divino, mas espíritos velozes, atletas da alma que completaram sua maratona de sentido em poucos passos, enquanto eu, que ainda tropeço no ritmo dos dias, preciso de mais tempo não por mérito, mas por pura lentidão de aprendizado.
E assim seguimos, equilibrando-nos entre o mistério e a memória. Na próxima despedida, talvez eu consiga resistir à tentação infantil de pedir explicações aos céus e tente lembrar que o tempo é uma arte divina incompreensível, e que cada alma conhece, em algum nível profundo e inacessível à razão, o instante exato de levantar da mesa. Ou, quem sabe, meu avô estivesse certo o tempo todo e a vida seja, em última análise, apenas um longo e saboroso almoço, que só termina quando a alma, satisfeita, reconhece que já comeu o suficiente e limpa os lábios com o guardanapo da eternidade.