PRECONCEITO POR QUILO

Perto de casa tem um empório. Pequeno, caro e sem pretensão de agradar todo mundo. Luz quente, prateleiras de madeira, música baixa, e produtos sempre frescos e de boa qualidade. Gosto de comprar lá.

Entrei numa tarde qualquer, peguei um cesto e fui direto nas frutas. Escolhi como sempre: pelo olho, pelo peso, pelo que parecia certo. Nunca li nome nenhum.

No caixa, o rapaz foi passando os itens com calma. Era magro, de pele clara, cabelo escuro e volumoso, meio desalinhado de propósito. Usava óculos de armação grossa, que deslizavam levemente pelo nariz sempre que ele inclinava a cabeça para ler a tela. A camiseta era simples, mas ajustada, e contrastava com o cuidado visível nas mãos, com unhas longas, bem lixadas, pintadas de vermelho vivo.

“Maçã gala, banana nanica, nêspera…”  ele fez uma pausa, aproximando o rosto da tela. “Você viu o nome dessa laranja?”

“Não vi, só sei o nome daquela laranja normal. Essa aí peguei pela aparência.”

Ele levantou os olhos por cima da armação, segurando meu olhar por um segundo a mais do que o necessário.

“E o que seria uma laranja normal?”

Dei de ombros. “Aquela comum, redonda, laranja… padrão.”

Ele inclinou a cabeça de leve, como quem desmonta uma ideia antes de responder.

“E o que foge do padrão é o quê?”

Demorei um segundo. “Sei lá… diferente.”

Ele fez aspas no ar, com um cuidado quase didático, o vermelho das unhas cortando o gesto.

“Diferente de quê?”

A conversa já não parecia mais sobre fruta.

“Então você acha que tudo que não segue um padrão deixa de ser normal?”, perguntou.

“Claro que não”, respondi, mais rápido do que pensei.

Ele sorriu de lado, breve, como se já conhecesse o caminho da conversa.

“Curioso como a gente escolhe as palavras.”

Fiquei em silêncio.

Ele voltou ao caixa.

“Laranja baía cara cara”, disse, digitando. “Uma laranja normal. Só muda o nome.”

Claudio Novakz – Crônicas urbanas sobre o que ninguém diz