Me deram esse rascunho numa folha branca, com letras digitadas e uma frase curta no centro, e eu li sentado à mesa da cozinha, com o ventilador ligado no mínimo, espalhando um ar morno que não chegava a aliviar o calor das três da tarde, enquanto o café já tinha passado do ponto de temperatura e deixava um gosto amargo na boca. O texto escrito era um antigo provérbio judeu que diz ser melhor acender uma vela do que amaldiçoar a escuridão, seguido da recomendação de agir dentro das próprias possibilidades e confiar que tudo pode melhorar, desde que se mantenha a confiança e se aja. Eu fiquei olhando pra frase um tempo maior do que o necessário, não porque ela fosse difícil, mas porque ela pede um tipo específico de atenção, dessas que exigem que a gente pare de procurar frases bonitas e passe a observar o que realmente acontece quando alguém decide fazer alguma coisa em vez de reclamar.
A gente costuma falar de confiança como se fosse uma ideia solta, mas no cotidiano ela aparece sempre acompanhada de um gesto físico, de uma ação mínima, como levantar da cadeira, abrir uma porta, escrever uma linha num papel ou atravessar a rua mesmo quando o semáforo demora a abrir; isso não tem nada de abstrato, porque o corpo participa inteiro desse processo, com o peso transferido de uma perna pra outra, com a mão suando um pouco antes de girar a maçaneta, com a respiração ficando mais curta quando a decisão ainda não está completamente tomada. Talvez por isso o conselho do rascunho faça mais sentido quando a gente pensa em situações reais onde não há espaço para discursos longos nem para promessas vagas.
Me lembrei de um episódio recorrente na história antiga do povo judeu, o período do exílio na Babilônia, quando parte da população foi retirada à força de Jerusalém e levada para uma cidade estrangeira, com outra língua, outras regras e outro ritmo de vida. Não havia como negar o fato físico daquele deslocamento, porque os pés estavam em ruas diferentes, o cheiro do mercado era outro, o som das orações misturava palavras conhecidas com vozes desconhecidas, e a sensação diária era de limite imposto, não por escolha, mas por circunstância, e mesmo assim os registros históricos mostram que, em vez de apenas repetir lamentos, muitos começaram a organizar a vida possível ali, estabelecendo horários de estudo, cuidando das crianças, mantendo práticas religiosas dentro do espaço permitido. Ações pequenas, mas executadas com regularidade, que exigiam presença e disciplina.
Não havia garantia alguma de retorno rápido, não havia sinais claros de mudança imediata, e ainda assim as pessoas acordavam, preparavam o alimento disponível, se reuniam quando era permitido, copiavam textos à mão, ensinavam o alfabeto aos mais novos, e isso não é um gesto simbólico, é uma rotina cansativa, feita com dedos sujos de tinta, com costas doendo de ficar sentado muito tempo, com olhos ardendo ao final do dia. É nesse tipo de atitude que a confiança se manifesta, não como certeza de resultado, mas como continuidade de ação mesmo sem resultado visível naquele momento.
Outro exemplo que sempre aparece quando se fala em prática e responsabilidade é o de Hillel, um sábio judeu do período do Segundo Templo, que viveu numa época de tensão social e política, e que ficou conhecido não por discursos inflamados, mas por respostas diretas e comportamento coerente. Há relatos de que ele trabalhava cortando lenha para pagar o próprio sustento e o acesso aos estudos, chegando cansado, com o corpo sujo do trabalho manual, e ainda assim se sentava pra ouvir e aprender, e quando perguntado sobre deveres e limites, costumava devolver a questão em termos práticos, do que se faz ou se deixa de fazer no dia seguinte, na relação direta com o outro.
Esse tipo de postura não elimina o desconforto nem resolve tudo de uma vez, porque a vida não funciona assim, mas ela impede a paralisia, que é um estado muito fácil de reconhecer quando acontece, porque o corpo fica imóvel mais tempo do que o necessário, o olhar se perde em pontos fixos da parede, as mãos ficam ociosas, e o tempo passa sem que nada tenha sido iniciado. Reclamar, nesses casos, costuma ocupar o mesmo espaço físico da ação, mas sem produzir qualquer alteração no ambiente.
Quando o rascunho diz que devemos fazer aquilo que está dentro das nossas possibilidades, ele está falando exatamente desse campo delimitado onde a gente alcança com os braços, onde os pés conseguem chegar, onde a voz ainda é ouvida por alguém próximo, e isso não exige heroísmo nem grandes recursos, exige apenas atenção ao que está disponível agora, na mesa, na agenda, no corpo, e a decisão de usar isso de maneira consistente, mesmo que pareça pouco.
Confiar que tudo vai melhorar não significa esperar uma mudança externa repentina, mas aceitar que a melhora costuma ser percebida primeiro como uma leve alteração na rotina, como um problema a menos acumulado, como uma tarefa concluída ou como uma conversa feita; isso se soma ao longo do tempo, de forma mensurável, embora não espetacular, e só quem age consegue perceber essas diferenças, porque quem permanece apenas reclamando continua no mesmo lugar, repetindo os mesmos gestos e sentindo o mesmo cansaço.
Ao final da leitura, dobrei a folha e coloquei sobre a mesa. Senti a superfície fria do vidro sob a palma da mão, ouvi o barulho distante de um carro passando na rua e levantei pra lavar a xícara de café. Um gesto simples, sem importância aparente, mas feito com atenção, porque é assim que as coisas começam a mudar, não no discurso sobre o que deveria ser, mas na ação concreta do que pode ser feito agora, com os meios disponíveis, do jeito possível, mantendo o corpo em movimento e a confiança ancorada em ações.