Júlio costumava dizer pouco, mas observava tudo. Talvez por isso a casa lhe parecesse maior do que era, alongada por silêncios e atravessada por ruídos mínimos, o rangido do assoalho, o chiado da televisão ligada em documentários que ninguém mais assistia, o chamado impaciente vindo do quarto no fundo, sempre no mesmo tom de urgência injustificada. A mãe ocupava aquele quarto como quem ocupa um território definitivo. Havia quase um ano vivia sobre a cama, assistindo a programas que não lembrava de ter visto e chamando alguém, qualquer um, pra reclamar que estava morrendo de fome, mesmo tendo acabado de comer.
Ela tinha idade avançada e, desde que quebrou o fêmur, não voltou a andar. Não quis, na verdade. Recusou a fisioterapia com uma teimosia que misturava orgulho e cansaço, dizendo que queria ficar quieta no canto dela, como se o mundo tivesse ficado grande demais pros próprios passos. E assim ficou. Além da limitação do corpo, o Alzheimer fazia um trabalho silencioso e imprevisível, apagando memórias recentes num dia, memórias distantes no outro, sem método, sem lógica, como quase tudo que realmente importa na vida.
“Estou morrendo de fome e não tem um fêla da puta pra me trazer comida!”, gritava ela menos de meia hora depois de se alimentar, com a mesma convicção.
As alterações de humor vinham no mesmo ritmo dos lapsos de memória. Xingava e elogiava em intervalos curtos, sem perceber contradição alguma nisso.
“Esse meu filho é um anjo!”, dizia logo depois de receber o prato, com um sorriso desdentado e sincero.
Júlio ouvia aquilo com uma espécie de carinho. Sabia que não era anjo nem demônio, era só um homem comum, desses que levam uma vida discreta, quase invisível, atravessada por problemas que raramente chegam ao conhecimento dos outros. Como numa novela mexicana, pensava ele, onde todo mundo come o pão que o diabo amassou, mas se esforça pra sustentar uma aparência minimamente digna diante da sociedade.
Às vezes, quando a mãe estava de bom humor, contava histórias da juventude. Falava dos bailes, dos vestidos rodados, dos namoros rápidos escondidos dos pais severos. Foi num desses namoros que conheceu o pai de Júlio, um encontro arranjado pelos próprios irmãos. E mesmo a contragosto e sob pressão familiar, o casamento veio rápido, como se o tempo não admitisse hesitação.
Depois da quebra do fêmur, a vida da família virou de cabeça pra baixo. Nem todos os irmãos podiam ou queriam ajudar e coube aos mais próximos assumir os cuidados, numa divisão tácita de tarefas e culpas. Júlio percebeu, sem ninguém dizer em voz alta, que algumas ausências doíam mais do que o trabalho acumulado.
Foi nesse período que ele ficou, como dizia sem muita convicção, um pouco mais religioso. Não sabia se essa palavra dava conta do que sentia. Passou a frequentar a umbanda não por devoção espontânea, mas por interesse prático, quase desesperado, em resolver problemas que se empilhavam sem pedir licença. E quem não faz algo parecido em tempos de crise? A maioria das pessoas que ele conhecia se aproximou de alguma religião quando o chão começou a ceder, fosse por desemprego, doença ou fracasso amoroso, e com ele não foi diferente.
Naquele sábado tinha gira no terreiro da mãe Angelina, como acontecia nos primeiros e terceiros sábados do mês, e no começo trocar o barzinho pelo terreiro lhe pareceu um sacrifício pouco atraente, embora necessário. Diziam que não era a gente que escolhia a umbanda, mas a umbanda que escolhia a gente, e Júlio sempre desconfiou dessas frases prontas, porque sabia, por experiência própria, que a umbanda não tem manual único, cada médium dizia uma coisa, cada casa seguia um jeito. Ele já tinha passado por vários terreiros diferentes, com tradições que não se pareciam entre si, mas no fim isso pouco importava, o que realmente contava era sair de lá se sentindo um pouco melhor.
Ele deu um beijo na testa da mãe, se despediu da irmã no quarto ao lado e saiu sob a garoa fria, que caía fina e persistente, grudando na roupa e no pensamento.
Mãe Angelina tinha por volta de sessenta anos, uma mulher negra, sempre solícita, com um sorriso constante no canto da boca. Os cabelos crespos e grisalhos presos atrás das orelhas lembravam a Júlio a Tia Anastácia, e era impossível olhar pra ela sem imaginar o cheiro de café quente e bolo de fubá recém-saído do forno.
No centro não havia atabaque nem agogô. Os pontos eram acompanhados apenas pelas palmas das mãos. O Sino da Igrejinha era exceção, com o “belém, blem, blom” marcado por três palmas ritmadas.
Júlio não soube dizer quanto tempo a gira durou naquele dia. Sabia que costumava durar pra cacete, mas ali, envolto pela cantoria, pela fumaça do defumador com cheiro de madeira queimada, o tempo perdia contorno. No final, se consultou com o Preto Velho, que pitava um cachimbo fedorento e falava com voz calma e palavras simples.
“Fio, a vida é como um rio que corre, e suncê é a canoa. Num dianta lutá contra a correnteza. Aprende a navegá com ela. Quando as água acalmá, descansa. Quando apertá, mantém a direção. O segredo é paciência e serenidade.”
Enquanto ouvia, Júlio se perguntava como manter a calma se tinha ido ali justamente pra se livrar dos problemas que caíram de repente, como tempestade de verão.
“Ocê precisa acalmá o coração. Sem fé nada se alcança”, disse o Preto Velho, soltando a fumaça devagar.
Voltou pra casa com aquelas palavras martelando a cabeça. Questionava que Senhor supremo era aquele que permitia que pessoas boas gemessem de dor sobre uma cama. Ainda assim, ao abrir o portão, se sentia menos tenso, talvez não pelas palavras, mas pelo jeito manso com que tinham sido ditas.
A tranquilidade durou pouco. As duas irmãs casadas estavam na cozinha, com o rosto fechado. O rapaz pensou na mãe, mas era a irmã mais nova, que há quatro meses ela não saía da cama. O câncer no cérebro tinha se espalhado, e agora ela chorava de dor, gemia sem conseguir dizer onde doía. Parecia doer tudo, uma dor que tomava o corpo inteiro e espalhava desespero pela casa.
Júlio se perguntou, de novo, o porquê daquele sofrimento. A irmã sempre fora boa, dessas pessoas que não fazem mal nem por distração. Enquanto isso, tantas pessoas ruins seguiam impunes. Onde estava Deus, afinal.
As palavras do Preto Velho voltaram. Júlio se sentou na poltrona ao lado da cama e acariciou a cabeça da irmã, agora sem cabelo, quente e frágil sob a mão.
“Se ocê tá passano por essa provação, é porque tem que passá.”
Ele não disse nada. Só ficou ali. Observando. Talvez entendendo que, se não havia respostas, ao menos ainda havia presença.