Me pego observando a estrutura de um viaduto antigo, desses que cortam a cidade e ignoram o que acontece embaixo deles. O concreto está manchado pela fuligem dos escapamentos, o ferro da guarda mostra uma ferrugem alaranjada que tinge as mãos se a gente se apoia por muito tempo. É uma construção sólida, pragmática, feita pra aguentar o peso de quem passa, mas indiferente ao destino de quem atravessa. E é curioso como a gente, na nossa eterna mania de humanizar o concreto e petrificar as pessoas, esquece a função primária dessa engenharia: levar alguém de um lado ao outro. Ninguém mora na ponte. Ninguém constrói uma casa no meio do viaduto. A ponte serve pra passagem, se a gente ficasse nela pra sempre, nunca chegaria a lugar nenhum.
A gente cresce ouvindo que precisa ter amigos; é quase uma imposição social. Se você almoça sozinho numa terça-feira, os olhares de pena caem sobre o seu prato com mais peso que o feijão. Criamos essa narrativa de que a amizade é o grande porto seguro, o destino das relações humanas, e que um amigo, uma vez conquistado, é um troféu vitalício que deve permanecer na estante até que a morte, e somente ela, nos separe. Mas na vida nada é permanente e tudo sucumbe à lei da transitoriedade.
Me lembro de épocas em que o abismo era grande demais. O fim de um casamento, a demissão daquele emprego que pagava as contas, mas sugava a alma, ou simplesmente aquele vazio existencial que bate num domingo à tarde sem motivo aparente. E é exatamente aí que a ponte aparece, alguém surge, um amigo antigo que reaparece, ou alguém novo que cruza o nosso caminho no hall do prédio ou dentro do elevador. Essa pessoa estende a mão, ela escuta, ela oferece o ombro, o tempo, o ouvido e, às vezes, só o silêncio compartilhado. Ela se torna a estrutura que nos permite caminhar sobre o buraco.
Durante a travessia, a sensação é de segurança absoluta, a gente se agarra ao corrimão dessa amizade com uma força desesperada. As conversas varam a madrugada, os segredos são trocados como moeda forte, a intimidade se constrói tijolo por tijolo, e a gente acredita piamente que aquilo é para sempre. “Esse é meu irmão”. E confundimos a travessia com a morada.
Mas a ponte tem uma extensão definida. Ela foi projetada pra cobrir uma distância específica, pra ligar a margem da sua dor à margem da sua recuperação, ou a margem da sua imaturidade à margem do seu crescimento. E uma hora, inevitavelmente, os pés tocam a terra firme do outro lado.
É nesse momento que começa o sofrimento silencioso de tanta gente. A função daquela amizade foi cumprida, o amigo-ponte te levou até onde você precisava ir e você está seguro agora. O abismo ficou pra trás. Pela lógica da vida, seria o momento de agradecer, olhar pra trás com carinho, e seguir caminhando pela estrada nova. Mas a gente não faz isso, a gente insiste, a gente quer carregar a ponte nas costas.
A reciprocidade começa a falhar, a energia que mantinha aquela conexão viva vinha da necessidade da travessia. Sem o abismo, a urgência do encontro se dilui, as mensagens começam a ser respondidas com mais demora, os assuntos, antes inesgotáveis, agora esbarram em silêncios constrangedores. Você propõe o encontro, o outro diz “vamos ver”, e esse “vamos ver” é o eufemismo mais triste e honesto da vida adulta pra dizer “não vai rolar”.
E nós sofremos, nos culpamos, achamos que deixamos de ser desinteressantes, que fizemos algo errado, ou pior, começamos a julgar o outro. Chamamos de ingrato.
“Depois de tudo que vivemos, ele sumiu”. Mas não sumiu, apenas ele ficou lá atrás, compondo a paisagem do trecho que você já percorreu. Tentar manter viva uma amizade que já perdeu a função é como tentar bombear sangue pra um membro fantasma: dói, cansa e não traz nada de volta.
O apego causa dependência, nos faz esquecer que a transitoriedade não anula a importância. O fato de algo acabar não significa que não foi verdadeiro. O café que você tomou de manhã acabou, a xícara está vazia, mas ele te alimentou, te acordou, cumpriu o papel dele. Você não chora pelo café que acabou, você lava a xícara e segue o dia.
Deveríamos ter a mesma sobriedade com as pessoas. Ser gratos pelo acolhimento, pelas palavras que serviram de cimento na hora que a gente estava desmoronando, pelo abraço que segurou as nossas peças juntas. A gratidão é memória, o apego é prisão. A gratidão olha pro passado e sorri; o apego olha pro passado e tenta trazê-lo arrastado pro presente, onde ele não cabe mais.
Quanto mais a gente solta, mais a gente caminha leve. E soltar não é abandonar com raiva, não é bloquear nas redes sociais num acesso de fúria infantil, nem falar mal pra terceiros pra justificar o afastamento. Soltar é apenas abrir a mão, é entender que aquele amigo foi essencial num capítulo, mas não faz parte do livro inteiro, é respeitar o fato de que a reciprocidade acabou porque os caminhos bifurcaram.
As coisas podem acabar simplesmente porque acabaram. Como a estrada que chega no asfalto depois de quilômetros de terra, e ninguém chora porque a terra acabou, a gente só ajusta o pneu e segue em frente.
Olho de novo pra estrutura do viaduto. O concreto continua lá, estático, frio, suportando o peso de milhares de pneus todos os dias. Ele não pergunta pra onde os carros vão, ele não pede que eles fiquem, ele apenas suporta a passagem. A maior prova de amizade que possamos dar e receber é exatamente essa: a liberdade de ir embora quando a travessia termina. Sem culpa, sem cobrança, apenas com a certeza de que chegamos seguros do outro lado graças àquela estrutura que, agora, fica na paisagem, imóvel e digna, enquanto a gente segue adiante.