FAMALIÁ

Vinha matutando isso há alguns dias, desde minha última conversa com o compadre Quincas, e estava determinado a dar uma guinada na vida. Após a morte de Ritinha as coisas vinham caminhando de mal a pior e continuar desse jeito não valia a pena. 

Durante anos vivi da produção de queijo e Ritinha era meu braço direito na tarefa. Ao lado dela passei os melhores dias de minha vida, tanto no amor, quanto a vida confortável que a venda de queijos nos permitia. Depois que ela se foi, não tive mais ânimo e nem disposição para dar sequência ao negócio. Comecei a atrasar as entregas, os compradores foram sumindo e o dinheiro foi diminuindo. Isso me impossibilitou de manter empregados e continuar com a venda de queijos. Daí pra frente a situação só desandou.

Conheci o compadre em uma das minhas andanças pela estrada velha quando estava indo pescar no Rio Preto, em Carlos Euler. O pneu da minha bicicleta furou e a única casa que havia por perto era justamente a do compadre, que estava sentado do lado de fora, pitando um cigarro de palha. Ele viu minha chateação e me ofereceu a bicicleta dele emprestada. Foi assim que nos tornamos amigos. A bem da verdade, meu único amigo. Não sei porque diacho, começamos a nos chamar de compadre e em pouco tempo era compadre pra cá, compadre pra lá. E o compadre Quincas sempre estava disposto a me oferecer o ombro amigo quando eu precisava chorar as pitangas. 

Numa dessas idas à casa dele observei que ele um calango preso dentro de uma garrafa tampada. Não sei por onde o bicho respirava, mas se movia o tempo todo. Achei um tanto exótico por parte dele, mas fiquei encabulado de perguntar o que era. Cinco dias depois passei na casa do compadre novamente e o bicho na garrafa havia perdido o rabo. Agora se parecia mais com um sapo do que com um lagarto. Compadre Quincas devia ser meio maluco para manter aquilo em cima do armário. Mas era o único amigo que eu tinha.

Num desses dias ele me confidenciou a sete chaves que havia feito um pacto com o capiroto e que desde então a vida dele estava melhorando. Segundo ele, quando se faz um pacto com o capeta, o Tinhoso fica com a sua alma, mas durante a vida, o sucesso era garantido. Isso despertou meu interesse. Eu vinha passando por uma situação complicada e se não fizesse nada, ia acabar mendigando o pão. E se meu compadre fez o pacto e a vida estava melhorando, por que não fazer também?

“Está vendo aquela garrafa?” Perguntou ele apontando para a garrafa com o bicho sobre o armário. “Aquilo ali é meu Famaliá.”

“Famaliá, compadre?”

“Sim. Uma espécie de gênio, sempre pronto a realizar o desejo de seu dono.” Ele se ajeitou na cadeira, com os olhos arregalados e apontou para a garrafa. “Esse aí ainda está pequeno e tem poucos poderes, mas depois que estiver formado, vai realizar tudo o que eu pedir” assegurou.

Fiquei curioso com a história. Nunca fui de acreditar nessas crendices populares, mas o compadre Quincas dizia com tanta convicção, que me interessei pela história.

“Mas basta pegar um sapo e prender na garrafa, compadre?”

“Não! Eu chamo ele de filhote de cruz-credo, porque ainda está se desenvolvendo e cada dia assume uma forma diferente.”

Compadre Quincas era um homem simples, de poucas letras e inclinado a esse tipo de crendice. Eu ouvi tudo com atenção, mas por dentro me mantinha completamente cético.

“Pois então! Cinco dias atrás era um calango que estava preso na garrafa, mas agora parece uma perereca.”

Compadre Quincas deu um trago demorado no cigarro de palha, mirou a garrafa por uns instantes e se ajeitou sobre a cadeira.

“Compadre Cláudio, vou lhe explicar tintim por tintim, mas antes precisa me prometer nunca contar nada a ninguém.”

Após eu dar minha palavra, o compadre começou a relatar tudo o que sabia sobre o Famaliá.

Contou que certa noite estava deitado na rede, preocupado com a escassez na lavoura, quando um homem alto, de chapéu e galocha se aproximou dele e propôs um pacto. Era o capiroto à cata de pessoas dispostas a pactuar com ele. Segundo contou, o Famaliá é a cria de um ovo fecundado pelo próprio Tinhoso, e esse ovo precisa ser chocado durante trinta dias pela pessoa que fizer o pacto. No trigésimo dia, o ovo eclode e de dentro dele sai uma criatura gosmenta, parecida com uma salamandra. Assim que nasce, essa criatura precisa ser aprisionada dentro de uma garrafa e alimentada com sete gotas do sangue do dono, durante as sete primeiras noites. Depois basta deixar preso dentro da garrafa e após um mês o Famaliá estará completamente formado e apto para realizar todos os desejos de seu amo.

“Eu sei que parece uma história absurda”, continuou ele, “mas o trem funciona.”

Apesar de parecer uma história surreal, não posso negar que a vida do compadre Quincas estava claramente melhor nessas últimas semanas. Antes ele estava com a coluna toda entrevada, as articulações dos dedos deformadas e a geladeira armazenava apenas garrafas d’água. Agora, a geladeira está repleta dos mais variados itens, a artrose nos dedos praticamente sumiu e a coluna estava mais reta que a coluna de um molecote de quinze anos. Até as plantas na frente da casa estavam floridas e viçosas. Para confirmar a história, compadre Quincas tirou a carteira do bolso e a abriu em minha direção. A carteira estava até estufada, cheia de notas de cinquenta e de cem reais. Como podia ser? Até poucos dias atrás o compadre Quincas estava no mesmo perreio que eu e agora estava nadando no dinheiro! 

“Compadre, conforme já lhe contei, depois da morte de Ritinha, minha vida anda de mal a pior. Como é que eu faço para adquirir um trem desse?”

“Só por indicação de quem já possua um, mas se quiser ainda hoje eu te indico.”

Diante do que havia visto, não pensei duas vezes, afinal de contas, o compadre Quincas já havia feito o pacto e as coisas estavam melhorando para ele, e se funcionou com ele, ia funcionar comigo também.

Segundo me disse, o Tinhoso só aparece por essas bandas em noites de lua nova e apenas às sextas-feiras, e assim compadre Quincas teve tempo para me ensinar tudo o que precisava fazer após receber o ovo das mãos do Tinhoso.

Na sexta-feira de lua nova, montei na minha bicicleta e me dirigi até o local aprazado. Sempre tive medo de assombração, mas segundo o compadre, o Tinhoso não era com a aparição das almas dos mortos, ao contrário, era um homem bem-apessoado, perfumoso e carismático. 

Faltava mais de vinte minutos para a meia-noite quando cheguei na ponte sobre o Rio Preto, a caminho de Quatis. O local aprazado foi a ponte na divisa do estado, mas não sabia se ele viria de Carlos Euler, de Quatis ou de Passa Vinte. O local estava escuro, iluminado apenas pela luz da lua. Não passava viva alma pelo local e apenas o barulho das águas do Rio Preto e do piado das corujas quebravam o silêncio da noite. De repente um raio cortou o céu vindo de Passa Vinte e indo na direção de Quatis, seguido de um estouro grave, que me fez arrepiar até os pelos da orelha. Meus joelhos começaram a bater um no outro e meu queixo parecia que ia cair da boca. Respirei fundo e procurei manter a calma. Era uma ida sem volta e não adiantava querer fugir agora. 

Do outro lado da ponte, distante, avistei uma luzinha vindo em minha direção. Era apenas uma luz e àquela hora da noite ou era um carro com uma lanterna queimada ou era o Tinhoso. Por uns instantes rezei na esperança de ser um carro, mas então, avistei a figura de um homem do outro lado da ponte, caminhando em minha direção. Ao chegar bem no meio do rio ele fez um gesto com a mão. O local combinado era o meio da ponte, bem da divisa entre os estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais, talvez porque a ponte acima e o rio abaixo formavam uma espécie de encruzilhada, imaginei.

Caminhei em direção a ele mal sentindo minhas pernas bambas e logo senti o perfume que vinha ao meu encontro, uma mistura de mirra com dama da noite. Era o Tinhoso, mais pontual que um lorde inglês.

Após se apresentar com um sorriso amistoso, alertou sobre as implicações do pacto e informou sobre os benefícios. Assinei meu nome em uma página no fim de uma caderneta com capa de couro e ele me entregou um ovo acinzentado, um pouco maior que ovo de codorna. Repetiu todas as instruções que o compadre Quincas já havia informado, me abraçou apertado e voltou em direção a Quatis, desaparecendo logo após sair da ponte.

O acordo era basicamente minha alma após a morte, contra o Famaliá, que passaria a me conceder todos os desejos em vida. Sempre que ouvia falar sobre pacto com o Tinhoso, eu morria de medo, mas o sujeito me pareceu tão amigável, que encontrá-lo após minha morte poderia tornar minha vida no além até mais agradável.

Durante os trinta dias que se seguiram, fiquei em casa, sem poder conversar com ninguém, apenas chocando o ovo. Minha coluna já estava dolorida de ficar na cama e eu só podia sair dali para comer alguma coisa e para fazer minhas necessidades fisiológicas. Nem com o compadre Quincas conversei nesse período. 

Exatamente na trigésima noite, uma noite de lua nova, o ovo que eu estava chocando eclodiu. De dentro saiu uma criaturinha gosmenta, semelhante a uma salamandra. O bicho já saiu do ovo ligeiro como uma lagartixa. Eu havia me esquecido de deitar a garrafa ao lado da cama, então peguei o penico e emborquei sobre a criaturinha, deixando-a presa dentro dele. Corri até a cozinha e apanhei a garrafa com rolha que havia preparado e voltei para aprisionar a criatura dentro dela. Mas, pra minha surpresa, o bicho não estava preso dentro do penico. Fiquei desesperado e revirei o quarto de cabeça para baixo em busca da criatura. Minha busca foi em vão. E meu desespero aumentou.

Segundo o Tinho havia alertado, a criatura precisava ser presa imediatamente após a eclosão do ovo, caso contrário poderia fugir e as consequências seriam desastrosas. 

Procurei sob o sofá, dentro das gavetas, no meio das panelas, mas nada de Famaliá. Surtei em desespero e sem saber a quem recorrer, peguei a bicicleta e segui para a casa do compadre Quincas. Cheguei lá vinte minutos depois, ofegante e com o coração quase saindo boca afora. Pulei da bicicleta e comecei a bater forte na janela do quarto.

“Compadre Quincas! Pelo amor de Deus abra a porta!”

“Que houve, homem?” Perguntou ele lá de dentro. “Por que esse desespero a essa hora da madrugada?”

Um corisco cortou o céu sobre a cabana do compadre nesse momento. 

“Deixei meu Famaliá escapar, compadre.” Respondi tentando conter os soluços do choro. “Ele foi mais ligeiro que eu e acabou fugindo.”

A porta da frente foi aberta e me apressei em entrar. 

“Não sei como, compadre, mas o bicho já saiu do ovo pulando mais ligeiro que lagartixa! E ainda emborquei o penico em cima dele, mas a criatura conseguiu fugir.”

“Por isso que era preciso a garrafa com a rolha. O Famaliá não é um bicho qualquer. É um bicho mágico.”

“Mas e agora? O que posso…?”

Nesse instante percebi que sobre o armário do compadre Quincas havia outra garrafa de Famaliá. O bicho dentro da primeira garrafa havia adquirido nova aparência, ainda mais estranha. O corpo era de um sapo, mas se apoiava sobre duas pernas, e sobre a cabeça havia um punhado de cabelo avermelhado, espetado para cima. Na segunda garrafa a criatura ainda estava em forma de salamandra.

“O que dizia mesmo, compadre?” Perguntou ele.

“Estava perguntando o que devo fazer para consertar a situação.” 

Disse em tom vago, ainda olhando na direção das garrafas.

A resposta veio em tom ríspido. 

“Não tem conserto. Uma das condições era não deixar a criatura fugir, e se você não conseguiu dar conta nem da criatura recém saída do ovo, como poderia cuidar do Famaliá formado?” 

Abaixei a cabeça e cruzei as mãos sobre a nuca. A conversa estava me deixando ainda mais tenso e meu compadre parecia não ter a resposta que eu procurava.

“O ovo do Famaliá é fecundado pelo Tinhoso, mas só pode ser chocado por um homem de bom coração, e a criatura só pode ser cuidada por alguém que seja capaz.” Prosseguiu ele enquanto eu permanecia com a testa sobre a mesa e as mãos sobre a nuca. “Você tem um bom coração. Eu tenho a capacidade.”

As palavras do compadre Quincas me deixaram incomodado. Ele sempre me tratou com gentileza, mas agora parecia outra pessoa. Provavelmente o fato de ter sido acordado no meio da madrugado ele tenha ficado de mal humor, sei lá. De qualquer forma, achei melhor ir embora e retornar em outro momento.

“Amanhã , a gente conversa compadre”, disse enquanto me punha de pé, “e me desculpe por ter acordado você a essa hora, não era minha intenção perturbar.”

Quincas balançou a cabeça sem esboçar nenhuma expressão.

“Aceito suas desculpas, mas acredito que não tenhamos mais sobre o que conversar.” Ele apontou na direção das garrafas sobre o armário e prosseguiu. “Um homem só pode fazer o pacto com o capeta uma única vez na vida.” 

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