CIGARRO

Fiquei um tempo encostado na grade da varanda, com os antebraços apoiados no ferro ainda morno do dia, sentindo a pele grudar levemente por causa do suor, enquanto a rua permanecia quase sem movimento e o ar trazia um resto de calor que insistia em permanecer. Olhava mais pra cima do que pra frente, acompanhando a lua já alta, meio amarelada, tentando reconhecer aquele desenho que aprendi na infância de São Jorge matando o dragão. 

Acendi o cigarro protegendo o isqueiro do vento leve com a mão em concha, e dei a primeira tragada puxando devagar, deixando a fumaça permanecer alguns segundos antes de soltar, sentindo o gosto seco na boca e o calor leve descendo pela garganta. Fiquei ali repetindo esse gesto, sempre tentando prolongar o momento entre uma tragada e outra.

A rua continuava vazia, e o som mais constante vinha de algum cachorro distante que soltava um uivo irregular. Em algum momento, um homem apareceu caminhando devagar, com um cachorro preso por uma guia frouxa, e na outra mão segurava um baseado. Quando ele passou mais perto, senti o cheiro forte de erva queimada subindo até a varanda, despertando em mim a vontade de acender outro cigarro, mesmo tendo fumado um há poucos minutos. Só então me dei conta que meu último cigarro já havia virado fumaça.

Fiquei parado por alguns segundos. Olhei até a loja do posto na esquina de baixo, a distância curta, o caminho já conhecido: os buracos na calçada, os trechos de luz fraca, a árvore inclinada sobre a rua.

Desci a rua sem pressa. O som dos meus tênis nos pedriscos riscava o silêncio. Apesar do bairro ser tranquilo, os trechos sem iluminação sempre me fazia imaginar algum nóia filho da puta se aproximando em cima de uma moto. 

A loja de conveniência do posto destoava da rua, iluminada demais. Entrei e caminhei entre as prateleiras, passando os olhos pelas embalagens, lendo rótulos sem fixar nada. O ar-condicionado batia frio. Perto da máquina de café, um rapaz magro estava sentado, inclinado pra frente, os cotovelos nos joelhos. Ele levantou o olhar, fez um cumprimento discreto com a cabeça; respondi do mesmo jeito e segui até o caixa. 

Pedi um Camel de cravo e a atendente atrás do balcão respondeu que tinha acabado. Peguei outro qualquer, paguei e, antes mesmo de sair, já apertava o maço com os dedos, sentindo os cigarros alinhados lá dentro.

Do lado de fora, abri a caixinha e levei ao nariz. O cheiro veio forte, seco, levemente adocicado, aquele primeiro sopro antes da fumaça. Não acendi. Segui andando alguns metros com o cigarro entre os dedos.

Foi então que ouvi passos atrás de mim, mais rápidos que os meus. Virei a cabeça só o suficiente para ver quem era. Era o rapaz da loja. A tensão cedeu um pouco, mas não foi embora.

Ele se aproximou, falou comigo de forma direta.

“Opa! E aí?” disse ele. “Vi que você comprou cigarro. Rola me dar um?”

Balancei a cabeça.

“Cara, eu nem te conheço…”

Ele sorriu e estendeu a mão.

“Então agora conhece. Me chamo Alberto.”

Fiz um aceno curto com a cabeça, me apresentei com um nome qualquer que me veio à mente e continuei andando.

“Sem problema… o cigarro era apenas desculpa pra me aproximar.”

Não respondi.

“Na real, eu queria outra coisa.” Ele passou a mão pelo cabelo, parando na nuca.

“Tô sem grana, cara. Paguei o cigarro com pix.” Respondi.

“Não percebeu ainda, né? Tô a fim de chupar uma rola.” Ele disse sem cerimônia, como se fosse a coisa mais natural da vida. “Não sou de fazer isso, mas quando te vi lá dentro… sabe como é.”

Continuei andando, fingindo não entender.

“Só uma chupada” prosseguiu ele, “depois cada um segue o seu caminho.”

Dei uma risada curta, mais de surpresa do que de humor.

“Cara, não leva a mal, mas eu não tô a fim de sexo. Só quero fumar meu cigarro em paz.”

Ele riu.

“Mas quem falou de sexo? É só um boquete, nada mais.”

Balancei a cabeça, ainda sorrindo de leve.

“Não vai rolar.” Respondi.

Ele deu de ombros.

“Beleza! Não tá mais aqui quem falou… Se importa se eu subir a rua com você?”

De que adiantaria dizer não? A rua era pública, eu não tinha como impedir ninguém de andar ali. Não me agradava a ideia de seguir com um estranho, mas, naquele momento, parecia menos arriscado do que estar à mercê de alguém imprevisível. Ele tinha um corpo franzino, quase frágil, e não parecia oferecer perigo. 

“Mora por aqui?” Perguntei, depois de um tempo.

Ele assentiu e emendou, dizendo o bairro onde morava e há quanto tempo tinha se mudado. Eu falava pouco, queria entender quem era ele, não me expor. Sem perceber, diminuímos o passo e seguimos vagarosos, numa conversa quase aleatória.

Enquanto ele falava, minha atenção já se deslocava: a rua vazia, a distância que ainda teria que caminhar, a aparência dele.

Quando chegamos perto da minha casa, parei diante do portão e ele fez a última tentativa, com um sorriso malicioso: 

“Não vai mesmo aceitar a minha proposta?”

Tirei um cigarro do maço, acendi e dei uma tragada forte. Depois estiquei o braço na direção dele e ofereci o cigarro que recendia o odor almiscarado enquanto a fumaça subia em uma dança suave e se dissipava sobre nós.

Claudio Novakz – Crônicas urbanas sobre o que ninguém diz