O ESPELHO DE DEUS

Como o homem colocou a própria face no céu

No princípio, o homem criou Deus à sua imagem e semelhança. Não por arrogância, como se um oleiro vaidoso moldasse um ídolo para admirar a própria face, mas por necessidade. O homem olhou para o céu e encontrou nele o reflexo ampliado de suas ambições, seus medos e sua fome de ordem. Um Deus indiferente seria insuportável; um Deus incompreensível demais seria inútil. Então o homem fez o que sempre faz diante do abismo: deu-lhe um nome, uma voz e uma intenção.

E o homem disse: Façamos Deus conforme a nossa semelhança. Que Ele ame o que amamos, odeie o que odiamos, puna os nossos inimigos e confirme nossas certezas. Que tenha ciúme, ira, compaixão; que conheça a guerra e a misericórdia. Um Deus incapaz de sentir como os homens não serviria para governá-los; seria apenas uma força, como o vento ou a gravidade. O homem não queria uma força, queria uma testemunha.

Cada civilização ergueu seus deuses como quem ergue um espelho diante de si mesma. Povos guerreiros imaginaram deuses conquistadores. Impérios criaram deuses imperiais. Sociedades disciplinadas produziram divindades obcecadas por leis, pureza e hierarquia. Até a ideia de eternidade carregou hábitos humanos. O paraíso quase sempre parece uma extensão daquilo que cada época considerava desejável. A eternidade medieval tinha tronos e coros. A eternidade moderna se aproxima do conforto absoluto, sem dor, sem esforço, sem silêncio.

O homem não apenas criou Deus à sua imagem. Criou também um Deus que legitimasse seu domínio sobre o mundo. “E domine sobre tudo o que se move sobre a terra e céus.” Não basta existir; é preciso possuir. Não basta viver; é preciso governar. O homem concedeu a si mesmo autorização sagrada para ocupar o centro da criação. A natureza deixou de ser mistério e tornou-se propriedade, os animais deixaram de ser companhia na fragilidade da existência e passaram a ser recursos. Até o céu virou território.

Essa inversão da narrativa bíblica não destrói necessariamente a experiência religiosa, ela apenas desloca a pergunta. Quando um homem fala de Deus, de quem ele está falando de fato? Daquilo que transcende sua existência ou daquilo que sua existência deseja eternizar? A religião, então, deixa de ser apenas um caminho para o sagrado, torna-se também um arquivo humano. Um registro das épocas, dos medos coletivos, das estruturas de poder e das carências morais de cada sociedade.

Ainda assim, existe uma ironia que atravessa os séculos. O homem criou Deus à sua imagem, mas terminou sendo julgado pela imagem do Deus que criou. Deuses severos produziram sociedades severas. Deuses movidos por vingança legitimaram massacres. Deuses que exigiam pureza ensinaram homens a perseguirem os impuros. O criador passou a obedecer à própria criação.

Mas existe outra possibilidade, menos confortável e mais exigente. Se o homem cria Deus à sua imagem, então cada transformação moral humana altera também a face do divino. Um homem incapaz de crueldade não precisaria de um Deus cruel. Uma sociedade menos fascinada pelo domínio talvez não necessitasse de um Deus que concede poder sobre todas as coisas. O problema nunca esteve no céu, sempre esteve naquilo que o homem levou para dentro dele.

Claudio Novakz – Crônicas urbanas sobre o que ninguém diz