Peguei o celular numa tarde tranquila e percorri as mensagens sem esperar nada em particular. O afastamento já vinha acontecendo, mas, daquela vez, ficou difícil continuar atribuindo tudo à falta de tempo. Havia respostas que chegavam muito depois, convites adiados, um meme ao qual ele não tinha reagido. Entre uma conversa e outra, era sempre eu quem voltava a puxar assunto.
O incômodo vinha do que acontecia depois da resposta. Ele respondia ao que eu perguntava, mas não perguntava de volta, e a conversa parava até que eu encontrasse outro motivo para escrever. Vistos separadamente, aqueles intervalos não diziam muita coisa. Mas, ao percorrer as mensagens, eu reconhecia a repetição de um esforço que já estava me cansando. Quanto mais difícil ficava conversar, mais eu me preocupava em manter o contato.
Demorei a admitir que aquilo doía, porque o fim de uma amizade me constrangia de um jeito que o fim de um namoro não parecia constranger. Para a perda de um amor, existem palavras conhecidas, maneiras de contar aos outros que uma relação terminou e de falar da saudade sem precisar justificar por que aquilo dói. Com um amigo que se afasta, eu nem sabia como dizer que sentia falta sem parecer que cobrava uma atenção que deveria ser espontânea, e ainda tinha receio de que os outros confundissem aquela saudade com flerte.
Fazer amizade na vida adulta já me parecia difícil. Entre homens, havia ainda o cuidado para não parecer carente, para não dar margem a uma interpretação que tornasse tudo mais complicado. Um meme permitia procurar o outro sem precisar dizer que estava com saudade. Dava para retomar uma piada conhecida e esperar que a conversa continuasse. Eu gostava daquela familiaridade, mas também me escondia um pouco nela, tentando me aproximar sem deixar tão evidente a vontade de estar perto.
Quando finalmente encontrava essa afinidade com alguém, custava aceitar que ela pudesse diminuir. Eu me apegava ao entusiasmo do começo, às risadas que tinham sido boas para nós dois. Se a amizade tinha funcionado antes, eu continuava esperando que voltasse a funcionar, e cada nova tentativa me parecia uma maneira de cuidar dela. Era difícil perceber em que momento esse cuidado tinha começado a me fazer mal.
Por algum tempo, a demora ainda podia ser atribuída à correria, os convites adiados a uma fase complicada. Mas essas explicações já não davam conta da conversa que eu tinha diante de mim. Eu não sabia tudo o que ele estava vivendo, mas sentia o cansaço de tentar manter a mesma proximidade sem encontrar interesse do outro lado. Eu estava cada vez mais atento à falta de resposta e já não me sentia à vontade para simplesmente conversar.
O apego aos momentos bons tornava tudo mais confuso. Eu não queria chamar de falsa uma amizade que tinha me feito bem, nem desmentir as risadas porque agora sentia falta delas. Mas lembrar do que nós tínhamos vivido também não fazia aparecer uma pergunta do outro lado. A gratidão que eu guardava por ter sido acolhido em um momento difícil da vida continuava existindo, enquanto a disposição para manter contato parecia ter ficado toda comigo.
Parar de insistir me obrigava a lidar com uma possibilidade que eu vinha evitando: se eu não escrevesse, aquela conversa poderia continuar parada. Até então, cada mensagem minha interrompia o silêncio antes que eu precisasse sentir por quanto tempo ele duraria. Um vídeo do TikTok oferecia mais uma oportunidade de procurar meu amigo, e eu ainda tinha dificuldade para deixar passar essa oportunidade.
Havia angústia em reconhecer isso, porque eu sentia falta de algo bom que tinha existido. A decisão de não mandar mais uma mensagem não diminuía essa falta nem me deixava imediatamente mais leve. Eu podia entender o afastamento e continuar esperando que, em determinado momento, eu recebesse alguma mensagem sem precisar insistir.
Naquela tarde, ao percorrer as mensagens, eu sentia falta da facilidade com que nós conversávamos antes. Queria receber alguma coisa que não viesse apenas como resposta, que chegasse porque ele também tinha vontade de me procurar.