Percebi isso numa tarde tranquila, quando o relógio parecia não cobrar nada de ninguém. Peguei o celular quase sem pensar, rolei as mensagens e, sem criar qualquer expectativa, deixei o momento fluir. Foi apenas pra confirmar aquilo que eu já vinha evitando nomear: o silêncio que se acumulava ali não era distração, não era correria, não era fase ruim. Era ausência mesmo. Uma ausência que não faz barulho, mas pesa, porque ela acontece dentro de um vínculo que ainda existe de um lado só.
Demorei a admitir. A ideia de perder uma amizade sempre me pareceu mais constrangedora do que perder um amor. Talvez porque o fim de um romance tenha roteiro conhecido, palavras prontas, enquanto o afastamento de um amigo adulto acontece sem anúncio. Não tem conversa definitiva, apenas respostas mais espaçadas, convites adiados e um tipo de economia afetiva que vai se instalando. A relação vira um monólogo educado, desses que a gente insiste em manter pra não lidar com o vazio que ficaria no lugar.
Pensei então em como as amizades femininas parecem nascer com mais facilidade, com uma autorização implícita pra troca e pro cuidado. Já entre homens, tudo parece mais protocolar, vigiado por filtros invisíveis: o medo de parecer carente, o receio de ser mal interpretado. Essa dificuldade torna cada amizade masculina mais rara e, por isso mesmo, mais difícil de soltar. Quando alguém finalmente atravessa esse campo minado, com piadas internas e memes que não pedem resposta elaborada, cria-se uma sensação de conquista. A gente sente como se fosse algo que precisasse ser preservado a qualquer custo.
Mas os sinais mudam de forma discreta. Primeiro o meme sem reação, depois a resposta que chega horas depois sem pergunta de volta. Até que, um dia, a gente percebe que é sempre a gente iniciando, puxando assunto, mantendo a chama acesa com o esforço unilateral de quem acredita que insistir é lealdade. Mas, na verdade, insistir demais costuma ser apenas uma forma educada de negar a realidade.
Foi aí que entendi que as amizades são como pontes. Algumas são longas, imponentes, atravessam décadas; outras são curtas, pequenas passarelas que duram apenas uma estação. Mas todas elas cumprem a mesma função: levar a gente a algum canto, nos dar suporte num trecho específico pra que a gente possa atravessar determinadas situações. O erro é achar que toda ponte foi feita pra morar em cima dela. As pontes, assim como as amizades, não são eternas; elas apenas cumprem o seu papel de travessia.
Aceitar isso dói, porque a empolgação inicial não garante permanência. O apego é uma prisão sem muros: ninguém nos impede de sair, mas nós mesmos permanecemos ali, presos à expectativa de que o outro volte a ser quem já não é. Quanto mais esperamos, mais a tensão cresce e mais nós nos sentimos diminuídos por algo que deveria nos ampliar.
Observar a reciprocidade não é frieza, é lucidez. Deixar ir não exige discursos nem despedidas formais. Muitas vezes é apenas parar de insistir, silenciar o impulso de enviar mais um vídeo do TikTok e aceitar que o espaço criado pelo outro não precisa ser preenchido à força. É permitir que esse espaço, aos poucos, deixe de doer e passe apenas a existir.
Reconhecer o fim de uma amizade não é fracasso, é cuidado consigo mesmo. Fechar uma porta não apaga o que foi vivido, pelo contrário: é justamente o que permite manter a gratidão pelos momentos bons, pelas risadas que foram reais enquanto existiram. Ciclos se encerram pra que a vida continue fluindo, já que agradecer pelo que um dia houve e seguir em frente com leveza é a forma mais honesta de respeitar tanto a história que nós compartilhamos quanto o nosso próprio limite emocional.