A Avenida Paulista fervia sob um sol de domingo que parecia ter sido decretado por medida provisória para punir os justos e os pecadores com a mesma intensidade calcinante, derretendo o asfalto e o ânimo de quem ousasse pisar naquele solo sagrado das manifestações dominicais. Eu estava lá, estático, uma estátua de kevlar e suor, compondo a linha de frente do Choque, observando aquela maré vermelha que se espalhava pelo vão livre do MASP como uma mancha de molho de tomate num tapete persa recém-comprado.
A ordem era manter a disciplina, o olhar fixo no horizonte e o cassetete pronto para a dança da democracia, caso a coreografia saísse do script, mas confesso que minha mente, traidora contumaz, vagava entre o desejo inconfessável de arrancar aquele coturno que cozinhava meus dedos e a análise antropológica da fauna que gritava palavras de ordem (ou desordem) do outro lado da barreira.
Eram eles, os comunistas de iPhone, os arautos da balbúrdia, e eu, ali, o guardião do que ainda resta de bom neste país, suando em bicas dentro de uma farda que pesava mais que a consciência de um político em ano eleitoral. Foi nesse cenário de guerra fria sob um calor infernal, entre o cheiro de pneu queimado e a gritaria da arruaça, que meus olhos, treinados para identificar perigo e vandalismo, pousaram sobre uma silhueta que desafiava todas as minhas estatísticas e manuais de conduta. Ela não tinha a aparência regulamentar que eu esperava de uma militante da esquerda.
Mas a realidade tem esse péssimo hábito de rir da nossa cara, visto que a moça em questão, segurando uma bandeira que tremulava ao vento como um desafio à minha integridade ideológica, tinha uma beleza irritante, com os cabelos limpos brilhando sob o sol impiedoso e um sorriso de canto de boca exibindo uma dentição saudável e alinhada. Fiquei paralisado, não pelo medo de um coquetel molotov, mas pela audácia daquele olhar que cruzou a barreira de escudos, ignorou a hierarquia militar e atingiu em cheio o meu peito blindado, fazendo com que meu coração, aquele órgão subversivo, batesse num ritmo descompassado e totalmente fora de forma.
Ela se aproximou da linha de contenção, e eu, rijo como um poste, já imaginava que levaria uma cusparada ou ouviria um discurso inflamado sobre a mais-valia, mas o que aconteceu foi um atentado ao pudor da minha lógica. Com a destreza de quem passa propina em Brasília, ela estendeu a mão e, num movimento rápido e quase imperceptível, depositou um pedaço de papel dobrado no bolso do meu colete tático, piscando um olho com a leveza de quem acaba de derrubar um governo, e sumiu na multidão vermelha, deixando-me ali, com o papel queimando no bolso como se fosse uma granada sem pino.
Cheguei em casa horas depois, exausto e cheirando a escapamento de ônibus, e retirei o uniforme com a lentidão, até que o papelzinho caiu no chão do quarto, revelando, em uma caligrafia redonda e infantil, um nome e um número: Ana Carolina. Hesitei, claro que hesitei, pois ligar para aquele número seria o equivalente moral a um capelão convidar o diabo para um churrasco, mas a curiosidade, aquela velha senhora que matou o gato e derrubou impérios, falou mais alto que o meu patriotismo de WhatsApp. Mandei a mensagem, seco, direto, tático: “Aqui é o policial da Paulista. Qual é a sua?”, ao que ela respondeu, minutos depois, com um emoji de beijo e um “A minha é te desarmar, seu fascista lindo”.
Começamos a sair, numa espécie de Romeu e Julieta da polarização, encontrando-nos em terrenos neutros onde não houvesse nem a mortadela e nem o filé mignon, mas apenas a carne trêmula de dois seres humanos tentando ignorar que, em tese, deveríamos estar nos agredindo nas redes sociais. Eu, um bolsonarista convicto, que dormia abraçado à Constituição e sonhava com a ordem unida, e ela, uma petista roxa, que citava Marx enquanto escolhia o vinho e via luta de classes até na forma como o garçom servia a salada. As discussões eram inevitáveis, acaloradas, com ela defendendo a reforma agrária enquanto eu defendia a reforma da previdência, e terminavam invariavelmente na cama, onde a única ditadura aceitável era a do prazer mútuo e sem anistia.
Foi nessas trincheiras de lençóis desarrumados, observando-a dormir depois de uma batalha ideológica que acabou em empate técnico, que comecei a perceber a fragilidade das minhas convicções geográficas e políticas. Olhei para o meu próprio corpo, estendido ali, vulnerável e entregue, e tive uma epifania que faria Olavo de Carvalho revirar no túmulo ou escrever um novo tratado astrológico. Notei, com um misto de horror e fascínio, que eu carregava dentro de mim, ou melhor, pendurado em mim, um traidor da pátria, um agente infiltrado que eu jamais havia suspeitado.
Meu pênis, aquele soldado que eu julgava ser o bastião da virilidade conservadora, tinha uma curvatura inegável, uma tendência biológica e obstinada de pender sempre, irremediavelmente, para a esquerda do corpo. Era um esquerdista nato, um subversivo que se recusava a marchar em linha reta, buscando sempre o lado canhoto da existência, numa clara afronta aos meus princípios de direita. Por outro lado, ao observar a anatomia de Ana Carolina, aquela comunista que roubava meu sono e meu salário em jantares caros, percebi a suprema ironia do Criador, que deve ser um humorista sádico com muito tempo livre.
Ela possuía dois seios magníficos, fartos, orgulhosos, que desafiavam a gravidade com a arrogância de quem tem foro privilegiado. Eram dois. Dois é número par. E o par é a base da estabilidade, da ordem, da simetria; o par é, por excelência, a representação da Direita, do conservadorismo, daquilo que se encaixa e se preserva. O único obstáculo que minha libido jamais conseguiu transpor foi a confirmação tardia do meu preconceito inicial: as axilas peludas, densa e indomável, que ela exibia ao se espreguiçar como quem hasteia uma bandeira do MST.
Mesmo com esse impasse, cheguei à conclusão definitiva e irrefutável que selou nosso destino tragicômico: eu durmo com o inimigo porque meu membro é um militante da esquerda que habita minhas calças, enquanto ela carrega no peito o sonho de todo conservador, provando que, no fim das contas, a política brasileira é apenas uma grande orgia onde ninguém sabe, ao certo, quem está fodendo quem.