BATUQUE, DESPACHO E MINHA ROLA

A verdade é que ninguém entra num terreiro preparado pra admitir os motivos reais. Sempre aparece alguém dizendo que foi chamado pela espiritualidade, que sentiu uma energia diferente, que sonhou com entidade, ouviu conselho de avó ou acordou no meio da madrugada com cheiro de arruda no nariz. No meu caso, o chamado veio pelo estacionamento de um motel na marginal Tietê.

Não pretendia expor a situação, mas já comecei, vamos lá.

Desde cedo eu fui uma criança precoce. Cresci e, quando dei por mim, decidi procurar um grupo de swing, e foi lá que conheci o Pai e a Mãe de santo. 

Ele tinha aquela segurança corporal de homem acostumado a entrar em qualquer ambiente achando que já é conhecido. Ela falava baixo e mantinha uma mão constante no braço das pessoas enquanto conversava, o que criava a impressão de intimidade imediata. Em menos de um mês eu já estava dividindo quarto, cerveja e conversa pós-sexo com os dois. 

O curioso é que o sexo, depois de certa frequência, perde um pouco da cerimônia e começa a ter uma intimidade maior que permite conversar sobre qualquer assunto de maneira espontânea. Foi assim que o assunto do terreiro apareceu pela primeira vez. 

“Ah! Você precisa ir lá. Vai ser bacana.”

Acabei indo. O terreiro funcionava numa casa térrea com ventilador barulhento no teto e um corredor estreito onde as pessoas se espremiam segurando copos de plástico com café. Havia cheiro de vela, cigarro e tecido guardado. Uma senhora me entregou uma guia sem perguntar meu nome, e eu aceitei com a expressão de quem já estava acostumado a frequentar terreiros de umbanda. A verdade? Não estava nem aí pra Pombas-giras ou Pretos-velhos, só estava imaginando se após a gira as pessoas iam embora e a gente ia pro quarto fazer o que a gente estava acostumado.

Mas não fomos. Acabou o trabalho, as pessoas começaram a puxar mesa, cortar bolo, esquentar coxinha e comentar sobre o curso de pemba. Um rapaz de branco falava sobre financiamento de carro perto do congá enquanto uma entidade recém-desincorporada procurava o carregador do celular na bolsa.

Mesmo assim continuei indo. No começo por causa deles, depois também pelo ambiente. O corpo acostuma rápido aos rituais. Você começa apenas observando o batuque e, algumas semanas depois, já está carregando cadeira, buscando café pra visita e corrigindo mentalmente quem bate palma fora do ritmo. Quando percebi, minhas noites de sexta estavam mais associadas ao cheiro de defumação do que às velas do Shabat.

Foi nessa fase que apareceu a médium novata. Ela tinha aquele comportamento perigoso das pessoas naturalmente simpáticas, porque sorriem olhando direto, escutavam inclinando o corpo pra frente deixando os seios protuberantes quese encostando no rosto da outra pessoa. E, quando eu tocava atabaque, ela se aproximava devagar, às vezes encostando no meu ombro sob pretexto de pedir passagem.

Como a carne é fraca, depois da gira fomos pra um motel na Anchieta. Ela tirou os brincos, largou a bolsa na poltrona e ficou olhando distraída o cardápio plastificado em cima da mesinha enquanto eu observava aquela situação tentando localizar em que ponto exato minhas noites tinham deixado de envolver apenas sexo casual e passado a incluir gira, atabaque e discussão sobre entidades no intervalo do café. 

Na semana seguinte começou o distanciamento. O Pai de santo, que antes me abraçava apertado, passou a apertar minha mão como gerente de banco encerrando atendimento, e a Mãe de santo, que antes me chamava de querido, passou a me chamar pelo nome. Ninguém dizia nada diretamente, mas o ambiente adquiriu aquele ar de gente incomodada tentando preservar a harmonia de ambiente religioso.

Continuei frequentando porque, depois de certo ponto, sair seria admitir culpa. Além disso, eu ainda tinha a médium novata.

Aí aconteceu o inesperado. Motel outra vez. A novata se aproximou, me beijou no pescoço, deslizou a mão pela minha cintura, mas o jubileu não respondia nem com reza brava! Apelei pra uma reza em hebraico, depois pro Zé Pelintra, e nada. Broxada feia, com direito a desculpa clássica: “isso nunca aconteceu antes”.

A cena não poderia ter sido pior; ela se vestindo em silêncio, eu tentando ressuscitar o defunto como quem sopra vela apagada. Mas o destino já tinha decidido.

Depois disso os convites cessaram. O Pai e a Mãe de santo nunca tocaram no assunto diretamente. Passei algumas semanas ainda frequentando o terreiro, tocando atabaque e evitando contato visual prolongado; o clima não era mais o mesmo.

Hoje, quando passo por ali e escuto o batuque vindo do terreiro, não penso mais em espírito, incorporação nem em evolução espiritual. Penso nos despachos. Aprendi que a umbanda trabalha com caridade, com o bem, eu sei disso. O problema é que depois daquela história minha vida íntima nunca mais voltou ao normal.

Minha rola simplesmente perdeu a dignidade. Antes bastava um olhar atravessado e ela já queria participar da situação; hoje parece funcionário público na sexta-feira depois do almoço.

Se não foi macumba da mãe de santo, com certeza foi praga do meu rabino cabalista.

Claudio Novakz – Crônicas e contos urbanos