SOLIDÃO ANÔNIMA

Acordo antes do despertador, não porque queira, mas porque o barulho dos ônibus já risca a manhã na avenida. O ronco dos motores e o arrastar dos freios chegam à janela do meu quarto, como se a cidade fizesse questão de lembrar que nunca dorme. Eu me levanto devagar, escuto a chaleira, penso no café, e deixo a rotina me guiar mais do que a vontade.

Na rua, o asfalto ainda brilha com o restinho da garoa da madrugada, e as pessoas andam rápidas, coladas umas nas outras, cada uma fechada em seu próprio silêncio. No metrô, a cena é sempre a mesma: caras cansadas, cabelos despenteados, olhos fixos em celulares, fones de ouvido. Eu também coloco os meus, mas a música não esconde tudo. Ainda sinto o balanço do vagão, a respiração do homem ao lado, o anúncio  das estações. 

Quando subo a escada rolante da Sé, vejo Artur encostado em uma das colunas, como se esperasse alguém, mas ele não me nota de imediato. Veste uma camisa amassada, segura um cigarro apagado entre os dedos e olha pro chão. Não há nada ali, mas talvez o olhar distante seja justamente pra evitar encarar o mundo que passa.

Artur não é amigo íntimo, tampouco estranho, nos encontramos ocasionalmente, sempre por acaso. Uma mesa de bar compartilhada, uma fila de bilhete único, uma esquina qualquer. Ele tem aquele tipo de presença que parece já trazer embutida a derrota do dia, não a derrota espetacular, mas a miúda, a que se repete e desgasta: boletos, amores que não vingam, empregos que não prendem.

“E aí, cara! Como cê tá?” pergunto de forma automática, sem me interessar de fato se ele está bem ou não.

Ele ergue os olhos, sorri sem força e dá de ombros.

“Indo. É o jeito, né?”

Seguimos andando lado a lado por alguns quarteirões. Ele fala de uma entrevista de emprego que não deu certo, de um amigo que se mudou, de noites em que o sono não vem. Eu apenas escuto. Não há muito o que dizer quando a tristeza se instala desse jeito, não como uma tempestade, mas como uma garoa persistente que molha o tênis e deixa o frio entrar.

No cruzamento da Libero Badaró com a São Bento, o farol fecha e atravessamos devagar. Olho para as janelas dos prédios antigos e penso quantas vidas passaram por ali, quantos rostos já repetiram a mesma pressa. A cidade parece eterna, mas as pessoas não. Artur acende finalmente o cigarro, e a fumaça se mistura ao cheiro de escapamento.

Ele comenta, quase rindo, de maneira vaga:

“É foda… a gente corre tanto, tem tantos objetivos, mas parece que nada acontece como a gente deseja.”

Não respondo. Talvez porque seja verdade demais para ser contestado, talvez porque a melancolia dele encontre eco na minha própria, essa que carrego escondida entre compromissos, contas e pequenos gestos automáticos.

Nos despedimos na esquina da Líbero com a Boa Vista. Ele segue pra um lado, eu pro outro, sem abraços, sem promessas de encontro. Só um aceno curto, como quem reconhece que cada um precisa continuar arrastando seus passos.

Mais tarde, já no escritório, abro a janela e deixo entrar o ruído da avenida. Os carros buzinam, vendedores ambulantes oferecem café, um pregador grita versículos da Bíblia ao vento, e tudo se mistura em um coro desafinado. Penso em Artur, no cigarro aceso, no sorriso torto, e percebo que a tristeza não pertence apenas a nós: ela se espalha pelos becos, se aloja nos bancos de praça, se dilui nos faróis.

Em São Paulo, a melancolia não grita; ela anda de metrô, come pastel de feira, se molha na garoa, espera o ônibus na chuva, fala sotaques variados. É discreta, quase invisível, mas está em todo lugar. Às vezes, penso que isso é o que nos mantém de pé: dividir, sem perceber, uma mesma solidão anônima.