A ironia começou antes mesmo de eu perceber que estava em crise. Ela se instalou com a mesma discrição de uma infiltração antiga, daquelas que só aparecem quando a parede já decidiu descascar inteira. Voltei pra casa com o corpo desalinhado, tropeçando nas próprias pernas, num vai e vem descompassado que me lembrou casais longevos, desses que já dividiram financiamento, doença e segredo, mas não conseguem mais sincronizar o passo. Um anda, o outro ajusta o ritmo, e nenhum dos dois espera; o amor, quando envelhece mal, vira coreografia improvisada.
Entrei e recusei a luz principal como quem recusa uma conversa séria, acendi apenas o abajur encurralado entre a parede e o sofá, uma luminária cansada cuja luz amarela não ilumina, sugere; não revela nada, só cria sombras. As sombras dos papéis amassados sobre a escrivaninha se projetaram tortas, como pequenas acusações silenciosas. Não queria claridade, não queria ver.
O cansaço não era físico, era uma exaustão moral, intelectual, aquela que transforma até os prazeres mais confiáveis em tarefas desagradáveis. Dormir parecia uma solução elegante, definitiva por algumas horas. Pensei em fechar os olhos e desaparecer até o dia seguinte, ou talvez até um dia qualquer que não exigisse produção, opinião ou coerência.
Mas a cabeça não permitia, ela pulava de ideia em ideia como um inseto preso num copo, batendo contra as paredes do crânio, sem pausa, sem misericórdia. De olhos fechados, eu produzia listas imaginárias de fracassos, frases que nunca escreveria, diálogos que não fariam sentido.
Levantei porque ficar deitado já parecia um pedido de desculpas antecipado. Sentei diante da Olivetti Lettera, essa relíquia que eu trato como prova de caráter, como se a resistência mecânica das teclas pudesse validar a resistência interna. Acendi a luminária sobre ela e a folha de sulfite, já presa no cilindro desde a noite anterior, exibiu seu insulto: um único parágrafo. Só um. Aquele parágrafo solitário parecia um sobrevivente constrangido.
O bloqueio criativo era tão espesso que a linha seguinte parecia território estrangeiro. Às vezes eu me pergunto se escrevo por amor à literatura ou pela ausência completa dele. Talvez eu escreva por não ter alguém ao lado pra dividir um cobertor numa madrugada fria, nem pra reclamar do filme ruim que escolhemos juntos só pra evitar conversa.
Eu precisava desligar, mas não conseguia dormir nem escrever. O pensamento corria solto, desgovernado, feito um caralho de asa voando torto. Precisava relaxar, precisava de algo simples, imediato, de preferência que não exigisse introspecção.
“Já sei: uma puta!” A ideia surgiu sem cerimônia, objetiva como um botão de emergência. Peguei o celular, abri o Telegram e cliquei num grupo onde a humanidade se reúne sem sobrenome, misturando putas, michês, curiosos, gente solitária e uma ou outra figura religiosa em crise de vocação.
Não deu tempo nem de espiar o histórico e uma mensagem direta apareceu: “A fim de uma trepada, cara?” O remetente era um sujeito bombado, exibindo um corpo de academia e um órgão que parecia ter sido desenhado com excesso de entusiasmo. Agradeci e recusei. Não curto pau, eu procurava uma validação mais tradicional, com curvas conhecidas.
Ele insistiu, oferecendo o próprio rabo com a naturalidade de quem oferece sobremesa. “Faço por 300 mais o Uber.” Neguei de novo, agora com certo aborrecimento.
Num misto de tédio e provocação, cometi um erro clássico de autoestima baixa. Escolhi uma foto do meu pau na galeria e mandei no grupo. O silêncio que se seguiu foi tão absoluto que chegou a fazer barulho. Nenhuma reação, nenhum comentário, nenhum emoji de consolação. Nada. Em ambiente de putaria, a indiferença é o pior dos julgamentos.
Quando eu já aceitava aquela derrota social como um sinal divino para fechar o aplicativo, surgiu uma mensagem citando meu nome. Era de uma mulher peituda, dessas que parecem sorrir até digitando. “Oi, amor. Tenho uma coisa aqui que pode te ajudar.”
Por alguns segundos, minha mente produziu um filme acelerado, cheio de expectativas indecentes. Respondi com falsa calma, perguntei do que se tratava. “Já usou bomba peniana?”, ela escreveu, com a delicadeza de quem oferece um cartão fidelidade. “Ajuda a dar aquela engrossada que todo homem deseja.”
Foi ali que a noite atingiu seu ponto mais baixo e, paradoxalmente, mais esclarecedor. Eu não estava sendo desejado, eu estava sendo segmentado. Eu era público alvo, um lead, apenas um homem reduzido a potencial comprador de um equipamento de borracha.
Fiquei encarando a tela, dividido entre rir e chorar, sentindo aquela humilhação específica que só existe quando o ego masculino é tratado como um projeto de melhoria contínua. Quem nunca pensou em aumentar o brinquedo que atire a primeira pedra, mas naquele momento a situação ganhou contornos surrealistas.
Fechei o Telegram e joguei o celular no sofá. A luz fraca do abajur continuava ali, desenhando as sombras dos papéis amassados, que agora pareciam gargalhar. Caralho! Eu havia descido até o fundo do poço em busca de prazer e encontrado marketing.
Olhei de novo pra Olivetti. A folha. O parágrafo. A frase sobre a ausência de amor me atravessou com uma clareza cruel. Não era sobre sexo, não era sobre tamanho, não era sobre validação barata. Era sobre o vazio que eu tentava preencher com qualquer coisa que não exigisse responsabilidade emocional.
Sentei, coloquei os dedos nas teclas e comecei a digitar com raiva e alívio. O som metálico da máquina parecia aprovar a decisão. As palavras saíam tortas, imperfeitas, mas honestas. E eu entendi, enfim, que o bloqueio criativo não era falta de assunto, mas excesso de autopiedade.
O que me salvou naquela noite não foi o prazer prometido, nem a fantasia mal ensaiada. Foi a humilhação ridícula de ser tratado como comprador em potencial de uma bomba peniana.