PROTOCOLO MASCULINO

João tem 42 anos e mora numa rua perfeitamente normal de São Paulo. Nada de extraordinário na vida dele. Trabalha, paga boletos, reclama do trânsito e sabe exatamente o preço médio do café na região.

Na sexta-feira à noite, sentado no sofá, João pegou o celular e começou a rolar a lista de contatos. Anderson da contabilidade. Fábio da faculdade (sumido há dez anos). Grupo do futebol de quinta e uns três “Zés” cujo sobrenome é nome de empresa, sem contar o “Zé (marido da Maria)”. Mas quem é essa Maria? Ele não fazia ideia.

Seiscentos e quarenta e dois contatos. João fez uma conta rápida. Seiscentos e quarenta e dois nomes e nenhum para quem ele pudesse ligar e dizer:

“Cara, não tô bem.”

Não era problema de casamento, a esposa dormia no quarto, em paz com o mundo; não era dinheiro, as contas estavam pagas. Era outra coisa.

Uma espécie de aperto no peito, um ruído branco na cabeça, como o som de televisão fora do ar. João passava o dia funcionando normalmente; reunião, almoço, piada no corredor, mas por dentro tinha a sensação de que alguma peça do motor estava solta.

Depressão? Ansiedade? Melancolia? 

Seja lá o nome, vinha com um efeito colateral curioso: silêncio. Porque existe protocolo para quase tudo entre homens. Se o carro quebra, você liga. Se precisa de ajuda numa mudança, liga. Se tem jogo na TV, liga. Mas ligar pra um amigo e dizer “cara, hoje eu não tô legal”, definitivamente não faz parte do protocolo masculino. E não é por falta de vontade, é falta de coragem, é o receio de se expor e ser mal interpretado.

João continuou rolando a tela até parar num nome: Paulo, colega de trabalho com quem ele almoça às vezes, alguém com quem já dividiu algumas conversas mais longas, ainda que sempre dentro de um contexto específico. Não era uma pessoa com quem já tivesse experimentado uma conversa mais íntima, de qualquer forma, era o único que parecia mais adequado.

Ele abre a conversa. O campo de digitação está vazio, cursor pisca em intervalos regulares.

João digita uma primeira versão. Para, lê e apaga tudo. A sequência se repete algumas vezes, sempre com pequenas variações na frase inicial. Em todas elas, há um momento em que ele imagina a leitura do outro lado, a possível interpretação, e isso é suficiente para interromper o envio.

O objetivo era claro: enviar a mensagem e esperar que a pessoa do outro lado sentisse alguma empatia. Mas o que aconteceria se Paulo interpretasse a mensagem de outra forma?

João respirou fundo, olhou pro abajur no canto da sala e digitou:

Cara, você tá ocupado? Tem um minuto pra mim?

Dessa vez, ele não revisou o texto nem considerou alterar o que havia escrito. Respirou demorado e apertou o botão pra enviar a mensagem. O celular permaneceu na mão, mas João não voltou pra lista de contatos nem abriu outros aplicativos; ficou na mesma tela, acompanhando a ausência de resposta. O tempo começa a se alongar e o minuto seguinte pareceu uma eternidade.

Alguns minutos depois, a tela acende com a notificação, mas ele não abre imediatamente. Olha primeiro pro nome, depois pro trecho visível da resposta. Só então toca na tela e lê.

E aí. Aconteceu alguma coisa?

Antes de responder, ele lê a mensagem outra vez, mais devagar, como se a segunda leitura pudesse revelar alguma nuance que a primeira não trouxe.

Aconteceu, sim… ou não, sei lá… só sei que não tô bem.” respondeu João no mesmo instante.

A resposta veio rápida.

Bora pra lanchonete do Zé. Tô precisando também.

João leu a frase duas vezes, na segunda, se deteve no “também”. A palavra não estava destacada de nenhuma forma, mas parecer alterar o peso da mensagem, indicando uma espécie de reciprocidade.

Bora!

Não acrescentou horário, não perguntou detalhes, apenas enviou. E ficou alguns segundos parado, como se aguardasse uma confirmação adicional, mas nenhuma chegou, a conversa se encerrou ali.

Chegaram praticamente no mesmo instante na lanchonete; falaram primeiro do trânsito, depois do calor e, por alguns minutos, do preço da cerveja que tinha aumentado, do torresmo de rolo e de vários outros temas, menos dos problemas, propriamente dito.

Até que João disse:

“Cara… sabe quando parece que você tá gritando por socorro por dentro?”

Ele esperou a piada, mas Paulo não riu, apenas passou a mão no rosto e disse:

“Tô tomando remédio pra dormir faz um ano. Às vezes paro o carro na garagem e fico chorando antes de subir pra casa.”

João ficou olhando para ele. Era estranho: o sujeito das fotos felizes de Ubatuba estava ali, na frente dele, com a mesma angústia dentro do peito.

“Sério?” João disse. “Achei que fosse só eu.”

Paulo deu de ombros.

“A gente aprende cedo a fingir que tá tudo bem. Faz parte do protocolo masculino, sabe como é.”

Eles conversaram por quase duas horas. Nada milagroso aconteceu. Nenhuma epifania, nenhuma solução definitiva, mas algo pequeno mudou.

Ao chegar em casa, João abriu a lista de contatos de novo. Seiscentos e quarenta e dois nomes. A maioria continuava sendo apenas ruído digital, mas agora havia uma diferença: em algum lugar da cidade existia outro sujeito acordado, carregando o mesmo peso. E, de alguma forma estranha, isso já ajudava.

Agora eu te pergunto uma coisa.

Se hoje à noite o mundo desabasse um pouco sobre a sua cabeça, para qual nome da sua lista você ligaria apenas para dizer:

“Cara, não tô bem.”

Se você demorou para encontrar um, talvez esteja na mesma ilha que o João.

A boa notícia é que às vezes existe outro náufrago acendendo uma fogueira logo ali. Só falta alguém mandar a primeira mensagem, algo simples como:

“E aí. Tem dez minutos?”