A lama nos vilarejos rurais da Hungria não é como a terra molhada que a gente conhece por aqui, aquela que suja a barra da calça e sai com água e sabão. Me disseram que a lama de lá, especialmente naqueles anos incertos do século passado, tinha uma consistência de chumbo derretido, uma pasta cinzenta que sugava as botas e parecia querer tragar o mundo inteiro para baixo. Era nesse cenário, onde o frio cortava a pele como navalha cega, que vivia o velho Mendel.
Mendel era um velho de idade avançada, mas com grande sabedoria, cuja fama percorria até os vilarejos adjacentes. A barba branca, longa e desgrenhada, parecia continuação da neve que cobria o telhado de sua casa. Ele possuía aquela sabedoria silenciosa de quem já viu impérios caírem e fronteiras mudarem de lugar, mas sabia que a única coisa que realmente importava era se haveria lenha seca pra noite e leite pro café da manhã. E o leite vinha da Berta.
Berta era a única vaca de Mendel. Mais que um animal, ela era a engrenagem central da economia doméstica, a fornalha que mantinha a vida pulsando naquela fazenda isolada. O leite dela não era apenas alimento; era a moeda de troca por farinha, era o que coloria o chá, era o calor nas mãos do neto órfão que Mendel criava com uma dedicação quase litúrgica.
Aconteceu numa manhã que Berta, escorregou e caiu numa valeta profunda que corria ao lado do celeiro, uma fenda na terra que a gente ignorava no verão, mas que o inverno transformava numa armadilha mortal.
O som, segundo contam, foi seco, um baque abafado que fez os pássaros levantarem voo dos galhos nus das árvores. Quando Mendel chegou à beira do buraco, o animal já não respirava, o pescoço estava num ângulo antinatural, e os olhos grandes e escuros de Berta miravam o nada, vidrados, refletindo as nuvens pesadas.
Naquele vilarejo distante, a tragédia chegou com o som do vento batendo numa porta mal fechada. O vizinho, um homem prático que passava pela estrada, parou a carroça. Desceu, olhou o animal morto, tirou o chapéu e balançou a cabeça.
“Acabou, Mendel”, disse o vizinho, com a voz grossa de quem está acostumado a dar más notícias. “Sua fonte secou. Sem o leite, como você vai alimentar o menino? Como vai comprar o pão? É o fim da linha, triste realidade.”
A gente costuma reagir ao imprevisto com uma indignação infantil. Se o pneu fura, a gente chuta a roda, se a internet cai, a gente pragueja contra a operadora. Nós nos sentimos ofendidos pessoalmente pelo caos do universo, mas Mendel operava numa frequência diferente. Ele olhou pra vaca morta, alisou a barba com a mão cheia de calos e suspirou, mas não havia raiva no gesto.
“Tudo o que Deus faz é para o bem”, ele murmurou.
O vizinho ficou irritado. Aquela resignação lhe parecia uma afronta à lógica. “Que bem pode haver nisso, velho? Você está arruinado, a vaca morreu. É prejuízo, é fome, é frio. Não seja tolo.”
Mendel não discutiu. Apenas pediu ajuda pra cobrir o corpo do animal com a terra fria, pois não tinha forças pra içá-lo dali. Voltaram pra casa em silêncio. A cozinha estava gelada sem o leite fervido, o neto chorou de fome, e Mendel lhe deu um pedaço de pão duro embebido em água quente, repetindo baixinho que o amanhã traria suas próprias respostas, que a gente não enxerga a pintura inteira quando está com o nariz encostado na tela.
Naquela noite, a ausência da vaca mudou a rotina da casa. Normalmente, Mendel acordava às quatro da madrugada, acendia o lampião e ia pro celeiro fazer a ordenha. Era um ritual sagrado, inquebrável, mas, sem vaca, não havia ordenha. Pela primeira vez em anos, o velho se permitiu dormir até que o sol, pálido e fraco, aparecesse no horizonte.
Foi acordado por um estrondo que fez as janelas vibrarem.
Não era trovão. O som veio do quintal. Mendel pulou da cama, calçou as botas às pressas e correu pra fora, o coração batendo na garganta, e o que viu o fez paralisar no meio da neve.
O teto do celeiro, velho e sobrecarregado pelo peso da neve acumulada na nevasca da madrugada, havia colapsado. As vigas de madeira podre cederam exatamente sobre o local onde ficava o banquinho de ordenha. Havia uma montanha de escombros, telhas quebradas e madeira lascada, esmagando o espaço vazio onde, todos os dias, pontualmente às quatro e meia, Mendel estaria sentado com a testa encostada no flanco quente de Berta.
Se a vaca estivesse viva, os dois estariam mortos ali embaixo, esmagados como insetos.
O vizinho, o mesmo que praguejara no dia anterior, veio correndo ao ouvir o barulho. Ele parou ao lado de Mendel, ofegante, olhando para a destruição. Seus olhos percorreram a madeira destroçada, o banquinho reduzido a serragem, e depois se voltaram para o velho, que estava intacto, vivo, respirando o ar gelado da manhã.
A gente passa a vida tentando controlar as variáveis, fazemos seguros, traçamos planos quinquenais, tomamos vitaminas, escolhemos a fila mais rápida no mercado. Temos essa arrogância de achar que sabemos o que é o “bem” e o que é o “mal”. Se ganhamos um aumento, é bom; se perdemos o ônibus, é mal.
Mendel caminhou até os escombros. Ele não sorriu, nem levantou as mãos pro céu numa prece, pois a sobriedade dele era a de quem entende que a vida é complexa demais pra ser julgado pelo avesso. O velho tocou uma das vigas caídas, sentiu a textura áspera da madeira que deveria ter quebrado sua espinha, e se virou na direção da valeta onde a vaca jazia enterrada sob a neve recente.
A morte da vaca não foi uma tragédia; foi um livramento. O que parecia ser a subtração de seu sustento era, na verdade, a adição de seus dias na terra.
“Gam zu l’tovah”, repetiu ele, quase num sussurro, pro vento que cortava a planície húngara. Isso também é para o bem.
Fico pensando quantas vezes a gente não se desespera diante de uma “vaca morta” em nossas vidas. A demissão inesperada, o relacionamento que acaba sem explicação, o projeto cancelado, a amizade que não vingou, o voo perdido. A gente chora, esperneia, se sente injustiçado pelo destino. Ficamos cegos pela perda imediata, incapazes de ver o teto que desabou logo ali na frente e do qual fomos poupados justamente por causa daquele atraso, daquele “não”, daquela queda.
Nós vivemos lamentando o leite derramado, sem perceber que foi o derramamento que nos impediu de beber o veneno que estava no fundo do copo.
Quando Mendel voltou pra dentro de casa, o neto estava acordado. Não havia leite e a vida seria dura nos próximos meses, eles teriam que pedir ajuda, talvez vender alguma ferramenta, improvisar. Mas havia o avô, havia o abraço, havia a continuidade.
Às vezes, o universo precisa nos tirar algo precioso pra nos manter inteiros. A gente só precisa ter a humildade de, no meio da lama e do frio, confiar que a providência divina é mais sábia que a nossa vontade. O observador sóbrio sabe que, no fim das contas, até a valeta faz parte do caminho.