O ASFALTO, A CHUVA E O OUTRO

A chuva caía sobre o asfalto da Avenida Paulista com uma insistência monótona, transformando o cinza do concreto em um espelho escuro que refletia as luzes vermelhas dos freios e o brilho apressado dos letreiros. Eu me encontrava sob o abrigo estreito de um ponto de ônibus, encolhido dentro do meu sobretudo, sentindo a umidade gelada que subia pelos sapatos e o desconforto familiar de estar cercado por desconhecidos que, como eu, pareciam carregar o peso de um dia interminável. O cheiro de lã molhada e de fumaça dos escapamentos dos carros preenchia o ar, criando uma atmosfera de isolamento compartilhado, onde cada um de nós se tornava uma ilha de preocupações, protegida por fones de ouvido e telas de celular que emitiam uma luz azulada e fria sobre os nossos rostos cansados.

Ao meu lado, um homem que aparentava ter passado dos sessenta anos se sentava na borda do banco metálico, ocupando um espaço que a minha mente apressada julgou excessivo para aquele momento. Ele vestia uma jaqueta de nylon puída nas cotoveleiras e segurava, com uma firmeza quase desesperada, uma sacola de plástico transparente onde se via o volume de um carrinho de brinquedo azul, desses feitos de um plástico simples que se costuma encontrar em bancas de jornal de bairro. Olhei de relance, sentindo uma pontada de irritação porque a sua sacola encostava na minha perna, deixando um rastro de água suja no tecido da minha calça. Naquele instante, eu já havia construído uma biografia inteira para ele, uma narrativa baseada apenas nos meus próprios incômodos e na exaustão de um fim de tarde perturbador.

Foi quando percebi que ele não estava apenas esperando o transporte; ele observava a chuva com uma intensidade que me fez desviar os olhos das notificações do meu próprio telefone. Notei que suas mãos eram marcadas por cicatrizes de trabalho pesado, com as unhas escurecidas por graxa ou qualquer outra substância antiga que parecia ter se tornado parte da sua própria pele. Ele retirou o carrinho da sacola com uma delicadeza que contrastava com a bruteza das suas mãos, passando o polegar sobre as rodas de plástico para verificar se elas giravam livremente. “Ele vai ficar impressionado com o brilho”, ele murmurou para ninguém em especial, com um sorriso que revelava uma doçura que não combinava com a paisagem ruidosa da avenida.

Aquelas poucas palavras, ditas para o nada, agiram como um ruído que interrompeu a frequência da minha própria indiferença. Eu me dei conta de que eu estava mergulhado em uma camada espessa de egoísmo, uma armadura que me impedia de enxergar a vida que pulsava logo ali, a poucos centímetros do meu braço. Eu me via como o centro de um universo onde o atraso do ônibus era uma ofensa pessoal, enquanto aquele homem transformava a espera em um momento de pura expectativa afetiva. A irritação que eu sentia pela sacola molhada revelou-se, subitamente, como um sinal da minha própria miopia emocional.

Eu fechei os olhos por um segundo e tentei realizar o exercício difícil de silenciar o meu próprio barulho interno. Tentei imaginar o trajeto que aquele homem percorrera antes de chegar ali, o peso das ferramentas que ele manuseara durante o turno de dez horas, a economia feita durante a semana para comprar aquele presente e a imagem da criança que, em algum lugar distante daquela iluminação luxuosa, esperava pelo som dos passos dele no corredor. Quando abri os olhos novamente, o cenário já não era o mesmo. O homem ao meu lado não era mais um obstáculo espacial ou uma figura genérica; ele era uma realidade densa que eu estava apenas começando a reconhecer.

A empatia, percebi ali, entre o movimento rítmico dos limpadores de para-brisa e o som das buzinas, não é um sentimento que surge por acaso; é a decisão deliberada de abandonar a própria perspectiva, ainda que por alguns instantes, para tentar enxergar através dos olhos de quem caminha em uma direção diferente da nossa. Eu me senti pequeno diante da minha facilidade em julgar, percebendo que o meu conhecimento sobre o mundo de nada servia se eu não conseguisse ler a alegria contida no gesto simples de um desconhecido.

O ônibus finalmente apontou na curva da avenida, jogando uma nuvem de água para as calçadas. O homem se levantou com uma agilidade que eu não esperava, guardando o carrinho na sacola como se protegesse algo frágil. Ele me deu um aceno de cabeça curto antes de subir os degraus, e eu notei que a expressão no seu rosto era de uma dignidade que eu raramente encontrava nos espelhos das lojas onde eu costumava comprar os meus confortos. Eu o segui para dentro do veículo, mas não procurei um lugar distante. Fiquei de pé, segurando o balaustre de metal frio, observando como ele se sentava e acomodava a sacola no colo, mantendo as mãos sobre ela durante todo o percurso.

Enquanto o ônibus avançava pelos canais escuros da cidade, eu encostei a testa no vidro úmido da janela. Olhei para a multidão nas calçadas, para os guarda-chuvas que se chocavam e para as luzes das janelas dos prédios, e me perguntei quantas outras humanidades eu estava ignorando por insistir em olhar apenas para o meu próprio umbigo. 

A noite avançava e o ônibus seguia o seu curso, parando e partindo sob o comando das luzes de trânsito. Eu já não me preocupava com a umidade nos pés ou com o cansaço acumulado. Havia algo de novo se movendo dentro de mim, uma espécie de claridade que eu acabara de inaugurar, pronto para enfrentar as próximas paradas com uma curiosidade mais profunda sobre quem divide o asfalto comigo. Ao descer na minha rua, senti o vento no rosto e notei que a chuva, antes um estorvo, agora parecia apenas o pano de fundo de uma história muito maior, onde cada pessoa carrega o seu próprio brilho, esperando apenas que alguém se disponha a notá-lo.