A festa que mais gosto no calendário judaico é Purim, e não é por devoção refinada, nem por apego histórico, nem por qualquer tipo de elevação espiritual, é porque Purim deixa tudo muito claro desde o começo, já que um dos mandamentos centrais da noite é beber até não conseguir distinguir o próprio nome, e eu sempre me senti confortável seguindo a tradição ao pé da letra.
No último Purim, eu fui à sinagoga fantasiado, como manda o costume, usando uma roupa de tecido sintético que não respirava, que esquentava pra cacete e colava nas costas, e já cheguei com o hálito carregado de vinho doce, desses que deixam a língua áspera e um gosto persistente de açúcar fermentado, e saí de lá visivelmente embriagado, com os olhos demorando a focar e o corpo exigindo atenção constante pra não tropeçar em coisas que estavam paradas.
Voltei de Uber, porque mesmo naquele estado ainda funcionava um resto de responsabilidade prática, aquela que impede a pessoa de dirigir, mas não impede de ficar em silêncio no banco de trás, olhando os postes passarem pela janela em intervalos irregulares e sentindo o banco frio nas pernas.
Desci do carro com cuidado excessivo, ajeitei a fantasia no corpo, enfiei as mãos nos bolsos numa tentativa inútil de parecer sóbrio e atravessei a portaria mantendo o tronco ereto com esforço visível, e foi ali que ouvi o porteiro, que até hoje não sei quem é, me cumprimentar, em tom absolutamente normal, com um “Boa noite, seu Claudio!”, ao qual respondi com um aceno de cabeça que, na minha avaliação interna, foi discreto e convincente, embora hoje eu saiba que provavelmente não foi.
Antes de chegar ao elevador, encontrei um vizinho que conheço há anos, sentado em uma das poltronas do hall, mexendo no celular. Cara gente boa com quem normalmente paro pra conversar alguns minutos, mas naquela noite considerei seriamente passar reto fingindo uma ligação inexistente, mas avaliei que isso chamaria mais atenção do que simplesmente falar alguma coisa.
Olhei pra ele com a seriedade que consegui reunir e soltei um “E aí, como você tá?”, tentando manter a voz estável e já inclinando o corpo levemente na direção do elevador, preparando a fuga, e ele me olhou de cima a baixo, fez uma pausa curta, abriu um meio sorriso e respondeu: “Tô bem, cara, mas você parece meio zuado.”
Assenti com a cabeça, como se aquilo fosse apenas uma observação técnica sem maiores implicações, murmurei alguma coisa incompreensível que podia ser interpretada como concordância e segui imediatamente pro elevador, satisfeito por encerrar a interação antes que ela evoluísse pra algo mais preciso.
Entrei no elevador, encostei em um dos lados e fiquei parado olhando os números subirem lentamente. Quando a porta abriu, saí confiante, com passos que, na minha cabeça, eram firmes e controlados.
Enfiei a chave na fechadura da porta do apartamento e girei. Nada. Girei de novo. Nada. Senti a resistência seca do metal recusando a chave e xinguei em voz alta, um “Caralho!” curto, seguido de mais uma tentativa, agora usando força excessiva, como se aquilo fosse resolver o problema. Um cachorro de latido estridente começou a latir no apartamento ao lado e a porta à minha frente se abriu.
Um homem corpulento, sem camisa, expressão fechada e postura claramente defensiva, disse com a voz carregada de irritação: “Num fode, rapá! Tá maluco?”, e naquele momento, com a luz do apartamento dele iluminando o corredor e um cheiro de comida quente saindo de dentro, percebi que algo estava errado.
Demorei alguns segundos pra organizar a informação básica de que aquele não era o meu apartamento, nem a minha sala, nem o meu chão, pedi desculpa de forma confusa, com palavras fora de ordem, e ele respondeu fechando a porta com força, sem dizer mais nada.
Foi só então que reparei no número do andar e percebi que eu estava dois andares acima do meu, erro simples, comum e totalmente coerente com o estado geral da situação.
Pra não repetir o equívoco, em um lampejo de lucidez, decidi ir pelas escadas, segurando no corrimão frio de metal, descendo degrau por degrau, sentindo o impacto subir pelas pernas e a respiração ficar pesada.
No dia seguinte, acordei com as costas doendo, a cabeça girando mesmo sem eu me mexer, a boca seca com gosto ácido e um cheiro forte e inconfundível que vinha de algum lugar muito próximo, e levei alguns segundos até perceber a poça de vômito espalhada no chão, encostada no meu sapato, ainda sujo e torto no pé.
Fiquei parado, tentando entender onde estava, sentindo o frio do piso atravessar a roupa e a textura áspera atrás das costas, até que a memória começou a voltar em blocos desconexos, o corrimão de metal, a luz branca da escada, o esforço pra descer mais um lance.
Só então fez sentido o fato de eu estar sentado num degrau da escada de emergência, com as costas apoiadas na parede, o corpo dobrado pra frente e a cabeça pesada, depois de, em algum ponto do caminho, ter simplesmente parado, me sentado ali sem planejamento algum e apagado antes de conseguir chegar ao meu andar.
Me recompus como deu, limpei o sapato de forma improvisada, desci o resto do caminho e finalmente cheguei ao meu apartamento. Beijei a mezuzá no batente da porta, entrei e me joguei no sofá, aceitando o estado físico geral como parte do ritual, afinal de contas, era Purim.
Naquela manhã, ao invés de rezar o Modê Ani e o Shemá, minha única reza foi pra nunca mais encontrar o vizinho do apartamento errado, mas fiz como manda o protocolo, em hebraico e com a kipá na cabeça.