Havia naquela sala de aula um ar condicionado que nunca funcionava direito, cuspindo um vento morno com cheiro de mofo e resignação, e as lâmpadas fluorescentes, sempre brancas demais, desenhavam olheiras artificiais nos rostos dos alunos, como se todos estivéssemos permanentemente em estado probatório, não apenas diante da Ordem, mas da vida. Foi ali que fiz Direito, embora até hoje eu não saiba exatamente por quê, já que nunca acordei criança dizendo que queria discutir cláusulas contratuais nem me emocionar com o princípio da anterioridade tributária. Fiz Direito como quem entra num elevador errado e só percebe quando a porta se fecha com aquele som metálico definitivo, sem botão de retorno.
Enquanto isso, em algum universo paralelo, eu deveria estar escolhendo tecidos, discutindo cortes, brigando com costureiras temperamentais e decidindo se o azul-petróleo realmente conversa com o bege areia. Deveria ter feito Moda. Não por vocação comprovada, porque convenhamos, eu nunca soube combinar uma meia com a calça, mas a Moda, ao menos, admite o erro como estilo, enquanto o Direito transforma qualquer deslize em jurisprudência contra você mesmo.
Tenho saudade de poucas pessoas com quem estudei. Pouquíssimas, na verdade, aquelas que conseguiam rir no meio às apostilas, que cochichavam piadas durante aulas intermináveis sobre competência tributária, e que sabiam que nem toda pergunta precisava de uma resposta com fundamento legal. Mantive contato com menos ainda, porque o tempo tratou de arquivar relações em pastas que ninguém mais abre. O resto virou aquele tipo de lembrança difusa, um amontoado de nomes que se confundem com números de artigos, todos igualmente esquecíveis.
Dizem que não é a pessoa que escolhe o Direito, mas o Direito que escolhe as pessoas, e eu nunca soube se isso era uma tentativa de consolo metafísico ou apenas um aviso prévio disfarçado. O fato é que, quando o Direito escolhe, ele parece ter uma predileção curiosa por gente que fala alto, se acha mais do que os outros e pronuncia expressões latinas como quem exibe um relógio caro no pulso errado. Gente que entra numa sala como se estivesse entrando num tribunal, onde todos os presentes já foram condenados pela simples ousadia de discordar.
Não lembro o nome de quase nenhum professor. Eles se dissolveram na memória como aquelas assinaturas que a gente faz correndo no fim de um contrato, um rabisco que só serve pra cumprir protocolo. Mas há um que permanece, sólido como um carimbo oficial, talvez porque ele destoasse daquele ambiente de vaidades jurídicas e gravatas mal ajustadas. Ele dava aula de Direito Tributário, a única disciplina que eu realmente gostava, a única em que eu prestava atenção não por medo da prova, mas por prazer genuíno, como se ali, entre impostos e princípios constitucionais, houvesse uma inesperada estética.
Talvez fosse a didática, talvez fosse o jeito como ele falava, sem arrogância, sem pressa, talvez fosse apenas o contraste entre a secura do tema e a humanidade do professor. O fato é que eu me lembro dele com uma nitidez quase ofensiva, enquanto todo o resto se esfarela.
Havia uma frase clássica que ele repetia com um meio sorriso, aquele sorriso de quem sabe que está cutucando uma ferida aberta com a ponta da caneta. Ele dizia algo como, “se você não quer entrar de cara no mundo do Direito, talvez devesse ter escolhido o curso de Moda“. A sala ria, alguns por nervosismo, outros por se sentirem pessoalmente atacados, e havia sempre aquele grupo que ria alto demais, como quem precisa demonstrar que não foi atingido.
Na época, eu anotei a frase no canto do caderno, entre um esquema de tributos e um desenho mal feito de uma tesoura. Hoje, penso nela com uma mistura de ironia e uma leve coceira existencial. No fim das contas, acho que o professor Rubens K. tivesse razão, talvez eu devesse mesmo ter escolhido Moda.
É possível que eu fosse um grande estilista, desses que falam em silhuetas e narrativas visuais, embora eu confesse, sem medo de contraditório, que não tenho o mínimo gosto pra me vestir. Minha relação com roupas sempre foi pragmática, quase jurídica; elas precisam cumprir função, respeitar o princípio da razoabilidade e, de preferência, não gerar litígio com o espelho. Me imaginar discutindo tendências soa tão improvável quanto imaginar um advogado bem vestido sem parecer que está indo pra um velório mal resolvido.
Porque, data vênia, o garbo nem sempre acompanha o diploma. Reconheço que há colegas que se vestem muito bem, isso é inegável, mas a maioria parece travar uma batalha difícil com a alfaiataria. O terno soa sempre um tom acima ou abaixo do ideal; ou é largo demais, ou aperta como um prazo fatal, gravata nunca cai exatamente onde deveria e as mangas dos ternos estão sempre longas demais, cobrindo metade das mãos. É uma estética curiosa, uma tradição visual que se repete, sugerindo que, na prática forense, o conforto e o estilo raramente andam de mãos dadas.
Talvez por isso a ideia de Moda me seduza apenas como conceito, como uma fantasia tardia. No fundo, eu sei que não teria sido diferente. Eu continuaria deslocado, talvez vestindo mal modelos que deveriam ser belos, ou explicando com excesso de palavras algo que deveria ser simples. O curso mudaria, o cenário mudaria, mas eu ainda seria eu, esse sujeito que entrou no elevador errado e resolveu, por falta de opção, apreciar a vista de cada andar.
Às vezes, fico pensando que o Direito não me escolheu com tanto critério assim, e eu também não o escolhi com convicção. Nós apenas nos encontramos, como duas pessoas que dividem a mesma mesa num restaurante barulhento e resolvem conversar por educação. E ali ficamos, trocando frases em latim, risadas meio amargas e uma sensação persistente de que, em algum lugar, alguém está muito bem vestido, fazendo exatamente o que deveria estar fazendo.