Dizem por aí que a sorte é uma questão de estatística, um alinhamento caprichoso dos astros ou o resultado frio de muito trabalho acumulado. Discordo. A sorte, na sua essência mais pura e bruta, é uma questão de geografia. E não falo de morar em frente ao mar ou num país de economia estável. Falo da geografia dos corpos, do privilégio de ocupar um espaço físico específico no mundo. Eu sou um homem de sorte. Não por ter acumulado dígitos na conta bancária ou por ter a vida que desenhei nos cadernos da juventude, mas porque tive o direito de posse sobre o território mais disputado e sagrado da existência humana: o colo de uma mãe amorosa.
Isso acontecia às segundas-feiras. É curioso como escolhemos logo o dia mais vilipendiado do calendário, o dia do recomeço burocrático, da ressaca moral e do trânsito impaciente. Pra mim, no entanto, a segunda-feira tinha a textura de um domingo estendido, roubado do relógio comercial. Eu já beirava os cinquenta anos. Tinha meus cabelos grisalhos, minhas dores lombares e aquela casca grossa que a vida profissional obriga a gente a criar pra sobreviver na selva de pedra. Mas ali, naquele intervalo sagrado depois do almoço, eu regredia. Ou talvez evoluísse, difícil dizer.
O ritual era imutável. Depois de limparmos a mesa, com aquele cheiro de café recém-passado no coador de pano ainda pairando na cozinha e brigando com o aroma do detergente de limão, a gente ia para a sala. O sofá não era uma peça de design assinada por um arquiteto dinamarquês; era um móvel largo, confortável, que abraçava o corpo e tinha o formato exato do nosso cansaço. A luz da tarde entrava peneirada pela cortina de renda, desenhando formas geométricas no tapete, e o barulho da rua parecia ficar abafado, distante, como se o mundo lá fora respeitasse a nossa liturgia.
A gente ia ver filme. Eu sabia exatamente o que ela ia gostar. Não importava se era uma comédia romântica previsível, um documentário sobre pinguins ou um drama histórico. O filme era apenas o pretexto, o ruído de fundo necessário para justificar o silêncio confortável entre nós. Ela se sentava numa ponta do sofá. Eu me deitava. E era nesse momento que a mágica da física acontecia: a minha cabeça, pesada de preocupações, de boletos e de prazos, encontrava o colo dela.
Lembro da temperatura. O colo de mãe tem uma temperatura própria, que desafia a termodinâmica. Não era quente a ponto de incomodar, nem morno a ponto de ser indiferente, era uma temperatura de refúgio. Eu fechava os olhos e sentia a mão dela pousar sobre o meu cabelo. Eram mãos que já tinham lavado muita roupa, descascado muita batata, segurado muita barra. A pele já tinha aquelas manchas do tempo, as veias desenhadas como rios num mapa antigo, mas o toque mantinha a delicadeza de quem segura um pássaro ferido.
Ela começava o cafuné. Não era um movimento aleatório. Havia um ritmo, uma cadência quase hipnótica. Os dedos dela percorriam o meu couro cabeludo, traçando caminhos que só ela conhecia, desatando nós invisíveis que se formavam dentro da minha cabeça. Às vezes, ela tamborilava os dedos levemente, acompanhando a trilha sonora do filme ou alguma música que tocava apenas na memória dela. Eu sentia a respiração dela mudar, ficar mais lenta, e a minha acompanhava. Era uma sincronia biológica.
Ali, deitado, eu deixava de ser o profissional competente, o homem adulto que paga impostos e discute política, e voltava a ser apenas o filho. É uma condição existencial rara. O mundo exige que a gente seja forte, que a gente tenha respostas, que a gente saiba consertar a pia e o carro. Mas no colo da mãe, a única exigência é existir. O amor dela não dependia do meu desempenho, do meu saldo bancário ou da minha inteligência, era um amor gratuito, ofertado sem contrapartida, o único tipo de amor que não pede troco.
O filme passava na tela. Personagens viviam dramas, carros explodiam, casais se beijavam na chuva. Para mim, aquilo tudo era irrelevante. O verdadeiro enredo estava acontecendo ali, no sofá. O significado do amor não estava nos diálogos roteirizados de Hollywood, mas no silêncio daquela sala, na pressão leve dos dedos dela na minha têmpora, na segurança absoluta de saber que, enquanto eu estivesse ali, nada de ruim poderia me alcançar. Era o nosso bunker contra a realidade.
Muitos homens passam a vida procurando esse conforto em outros lugares. No fundo de um copo, na adrenalina da velocidade, em braços de amores passageiros. A gente busca desesperadamente um lugar onde possa baixar a guarda. Eu tinha a sorte de saber exatamente onde esse lugar ficava.
Mas o tempo passou do jeito que sempre passa, sem negociação e sem interrupção, avançando dia após dia até concluir o que inevitavelmente acontece. A cadeira ficou vazia. O sofá parece maior agora, desproporcional. A luz da tarde ainda entra pela mesma janela, desenha os mesmos padrões no tapete, mas a temperatura da sala mudou, ficou mais fria.
Ainda hoje, no entanto, acontece algo curioso. Às vezes estou dirigindo, preso num engarrafamento qualquer, ou sentado numa sala de espera com cheiro de antisséptico, e começa a tocar uma música. Uma daquelas canções que ela gostava, melodias antigas que falam de amores simples e dores curáveis. O som invade o ambiente e, por um reflexo condicionado da alma, eu fecho os olhos por um segundo.
Nesse instante, o espaço-tempo se distorce, o banco do carro ou a cadeira de plástico desaparecem. Sinto o cheiro do café recém-passado, sinto a textura do tecido do sofá na minha bochecha e, mais nitidamente do que qualquer outra coisa, sinto a mão dela. Sinto o peso exato, a temperatura de refúgio, os dedos percorrendo o meu cabelo, tamborilando no ritmo da música.
É uma alucinação tátil, eu sei, mas eu prefiro acreditar que é a permanência do afeto. O amor de mãe é tão denso, tão concreto, que deixa rastro na matéria. E ele altera a estrutura molecular de quem o recebe. Eu fui moldado por aquelas mãos. A forma da minha cabeça, o jeito como eu penso, a maneira como eu sinto, tudo foi esculpido naquelas tardes de segunda-feira.
A gente passa a vida tentando acumular coisas que podemos segurar, trancar em cofres ou exibir em prateleiras. Mas a verdadeira herança, aquela que define quem somos quando as luzes se apagam, é invisível. É a sensação fantasma de um carinho que não cessa nunca. Eu abro os olhos, o trânsito volta a andar, a vida segue o seu curso barulhento e indiferente. Mas eu sorrio, porque, independentemente da solidão que às vezes aperta o peito, eu sei que carrego comigo a marca indelével daquele toque. E enquanto eu for capaz de lembrar, enquanto eu puder sentir esses dedos tamborilando na minha cabeça, eu continuarei sendo, indiscutivelmente, um homem de sorte.