A PUTA DE JESUS

Nunca fui um homem afeito ao improviso, visto que a minha vida foi construída sobre os pilares sólidos do tédio burocrático e da previsibilidade jurídica. Sou advogado, o que significa que minha existência é pautada por prazos, meritíssimos juízes com complexo de divindade e cafezinhos tomados em horários que fariam um relógio suíço corar de inveja. No entanto, naquele dia específico, o destino, ou a incompetência tecnológica, que hoje em dia atende pelo nome de Waze, decidiu que eu precisava de uma dose cavalar de realidade, daquelas que não se ensinam nos tribunais.

Desliguei o GPS, num ato de rebeldia juvenil tardia, e deixei o carro me levar. O resultado dessa liberdade assistida foi desembarcar na Travessa Diana, em Santo André. Se você não conhece a geografia do ABC paulista, explico: a Travessa Diana não é exatamente um endereço, é um estado de espírito urbanístico onde o cheiro de churrasco grego trava uma batalha química com o perfume barato das garotas de programa e com o cheiro de álcool dos cachaceiros.

Ali, sob uma garoa fina que parecia cuspe de anjo resfriado, estacionei. Eu queria um café, ou pelo menos foi essa a mentira que contei para o meu superego enquanto meus olhos varriam a calçada, um cenário era dantesco: letreiros piscando em epilepsia neon, portas que prometiam o paraíso e entregavam gonorreia, e mulheres apoiadas nos batentes com o entusiasmo de quem espera o ônibus na segunda-feira de manhã. Foi quando a avistei.

Verônica. Ou pelo menos foi esse o nome de guerra que ela me vendeu depois. Ruiva, com um vestido de couro sintético tão justo que desafiava as leis da termodinâmica e um sorriso que misturava a malícia de uma cortesã com a inocência de um coroinha. Ela se aproximou da janela do carro como quem vai cobrar pedágio.

“Boa noite, gato. Procura companhia ou está só fazendo censo demográfico?”, perguntou ela.

Eu, num momento de honestidade suicida, respondi: “Na verdade, eu queria um café. Mas, já que estamos aqui, a companhia pode servir de aquecedor.”

Ela riu, um som rouco de quem já fumou a tabela periódica inteira. “Café aqui é artigo de luxo, doutor. Mas se você paga, eu bebo.”

Fomos, então, a uma padaria decadente ali na esquina, onde o pão francês tinha claramente atravessado a noite e o café parecia ter histórias mais antigas que eu. Sentamos. Ela cruzou as pernas com uma técnica que deveria ser tombada pelo patrimônio histórico.

“E então”, disparou ela, “vai querer o pacote completo ou só o tour gastronômico?”

Sorri, tentando manter a pose de homem mundano. “Primeiro o café. Depois avaliamos o custo-benefício do tour.”

E foi aí, caros leitores, que a noite deu um cavalo de pau. Entre um gole e outro, Verônica me olhou com uma profundidade assustadora e soltou a bomba:

“Sabe, gato, não sei se você acredita, mas Jesus te ama muito.”

Engasguei. O café fez o caminho inverso, buscando a saída pelo nariz, ardendo como fogo do inferno. Tossi, limpei as lágrimas e olhei para ela, certo de que era uma piada, um prelúdio bizarro para algum fetiche religioso.

“Como é que é?”, perguntei, com a voz falhando.

“Jesus te ama. Ele tem um plano pra você, e não é ficar rodando de carro na chuva.”

Fiquei estático. Eu saí de casa buscando a libertinagem, o profano, o sujo, e caí numa sessão de aconselhamento pastoral com uma prostituta na Travessa Diana. A ironia era tão densa que dava para cortar com faca.

“Escuta”, tentei argumentar, recuperando a dignidade, “eu sou judeu. Meu negócio é com Abraão, com Moisés, essas coisas. Jesus realmente não está no meu roteiro.”

Ela nem piscou. “Melhor ainda. Jesus também era judeu. Vocês são praticamente primos, ele entende a sua teimosia.”

Eu estava sendo vencido pela lógica teológica de uma meretriz. Tentei apelar para o instinto básico. “Olha, eu só queria uma foda, uma coisa simples, biológica, sem envolvimento celestial. Digamos, apenas um pecado honesto.”

“Uma trepada não vai preencher esse vazio aí, doutor”, ela retrucou, apontando para o meu peito com uma unha postiça pintada de vermelho sangue. “Jesus quer te dar uma vida nova. O motel só vai te dar uma conta pra pagar e culpa pra carregar.”

Percebi, derrotado, que não haveria foda, haveria culto. Verônica, descobri em seguida, estava em “transição de carreira”. Oito anos de rua, mas agora consumia vídeos de pregação no TikTok entre um cliente e outro. Era uma missionária infiltrada nas trincheiras de Sodoma e Gomorra.

“Você acha que parou aqui por causa do Waze?”, ela perguntou, com o olhar brilhando de fé.

“Tenho certeza absoluta que foi o algoritmo”, respondi, cético.

“Não existe algoritmo, existe providência. Quando Deus quer falar, Ele usa até pão velho e mulher da vida”, sentenciou ela.

O debate prosseguiu. Eu, defendendo o racionalismo e a Torá; ela, armada com versículos de Instagram e uma fé inabalável. O balconista nos olhava com o tédio de quem já viu assassinatos e partos naquele mesmo balcão e achava a nossa discussão teológica a coisa mais chata da noite. O café esfriou, o pão endureceu, e eu me vi ali, preso na teia daquela evangelização surreal.

Quando a chuva parou, ela me perguntou se eu ainda queria subir para o quarto. Neguei. Seria como transar com a minha catequista. O clima tinha morrido, assassinado pelo Espírito Santo. Ela não se ofendeu. Perguntou se eu tinha um papel pra ela anotar um versículo. Entreguei meu cartão de visitas e, após uma analisada, ela e anotou: Lucas 5:31.

Cheguei em casa, frustrado e casto, e fui ler a tal passagem: “Os sãos não precisam de médico, mas sim os doentes”. Ri sozinho. Fui chamado de doente por uma mulher que cobra por hora na esquina. A audácia dos humildes é algo fascinante.

Três dias depois, meu telefone tocou. Era ela. Tinha entrado para um seminário teológico. Ligou só para avisar que eu tinha sido o “sinal” que faltava, o único cliente que a ouviu sem tentar negociar desconto. Disse que decorou meu número porque tem memória fotográfica para placas de carro e telefones de pecadores.

“Não liguei pra pedir nada, viu? Só pra dizer que Jesus mandou um abraço”, disse ela, desligando em seguida.

Fiquei olhando para o aparelho, sentindo aquela mistura de ridículo e assombro. Não houve epifania, não houve luz divina, apenas a constatação cínica de que a vida adora pregar peças. Eu saí para pecar e financiei, moralmente, a formação de uma pastora.

Hoje, quando passo pela Travessa Diana, diminuo a marcha. Não procuro Verônica, sei que ela deve estar salvando almas em lugares menos insalubres, olho apenas para rir da minha própria pretensão de controle. A gente faz planos, traça metas, ajusta o Waze, e no fim, acaba tomando café frio e ouvindo sermão de quem a gente achava que ia comprar.

Deus, se existe, deve ser um humorista de stand-up. E nós, coitados, somos apenas a plateia que não entendeu a piada, mas ri só para não parecer idiota.