O Motorista Que Queria Tocar Minha Barba

Entrei no carro às dez da noite, sentindo ainda o ar condicionado forte do escritório grudado na camisa e o peso do computador no ombro direito, e assim que fechei a porta o motorista virou levemente o tronco, apoiou o braço no encosto do banco e perguntou com voz animada, “Boa noite, está saindo do trabalho agora?”, enquanto o painel iluminava o interior do Corolla com uma luz azul discreta e o cheiro de lavanda se misturava com um leve odor de couro aquecido pelo dia inteiro de sol.

Era um coroa forte, ombros largos marcando a camisa polo preta, barba branca aparada rente ao rosto e cabelo grisalho penteado para trás com algum tipo de pomada que deixava os fios alinhados. Ele sorria mostrando dentes muito brancos, o que me fez perceber que a viagem de quarenta minutos até minha casa não seria silenciosa, embora naquele momento tudo o que eu queria era encostar a cabeça no banco e olhar pela janela.

Respondi que sim, que justamente naquele dia eu tinha deixado o carro em casa e acabei saindo mais tarde do que o previsto, expliquei que de metrô talvez chegasse até mais rápido, mas depois de ficar tantas horas sentado diante do computador eu preferia o conforto do banco macio e do ar condicionado regulado na temperatura exata; ele assentiu com entusiasmo, dizendo que o aplicativo indicava quarenta e cinco minutos de trajeto e que metrô era sempre uma loteria. Em seguida, contou que já tinha morado em Londres e conhecia bem o aperto dos vagões cheios, o empurra empurra constante, o cheiro de suor acumulado em casacos pesados e o barulho de gente falando alto no celular.

Enquanto ele descrevia a rotina na cidade estrangeira, alternando frases em português e inglês com naturalidade, eu me limitava a responder “Sei como é”, olhando para o trânsito lento à nossa frente, onde as lanternas vermelhas formavam uma fila contínua e os ônibus soltavam jatos de fumaça escura que entravam discretamente pela fresta da janela.

Quando o farol fechou, ele virou o rosto na minha direção e me examinou com atenção. Os olhos claros se demoraram alguns segundos no meu queixo, até que comentou: “Você tem uma bela barba.” Agradeci dizendo que era prático não precisar me barbear todos os dias, passando a mão no próprio rosto de maneira automática, sentindo os fios firmes sob os dedos.

Ele então começou a falar da própria barba, que era rala e já completamente branca, perguntou se eu usava algum produto específico, se aplicava óleo ou balm. Quando respondi que não usava nada além de sabonete comum, ele balançou a cabeça com admiração, abriu um pouco a boca e disse em inglês que a minha barba era bonita. Suspirei internamente porque eu realmente não estava disposto a sustentar uma conversa bilíngue naquela hora da noite.

Fingi não ter entendido de imediato, e ele repetiu em português, reforçando o elogio com entusiasmo, dizendo que a genética devia ajudar muito. Assenti com a cabeça e mencionei meus pais, falei que meu pai morreu com setenta e cinco anos ainda com cabelo preto e que minha mãe, aos oitenta e cinco, também mantinha os fios escuros. Ele arregalou os olhos, inclinou o corpo para trás no banco e exclamou: “Oh my goodness!” e seguiu com o comentário em português dizendo que não conseguia acreditar, comparando a própria aparência com a minha e dizendo que parecia mais velho apesar de termos a mesma idade.

O trânsito avançava aos poucos, e o som do pisca-alerta de um carro parado à direita marcava um ritmo constante, enquanto ele continuava elogiando minha aparência com detalhes que começavam a me deixar desconfortável. Depois de alguns segundos, soltou o ar de maneira ruidosa e perguntou, com voz aparentemente casual, se eu tinha o peito peludo.

Virei o rosto lentamente e disse apenas “What?”, mais por reflexo do que por necessidade de falar em inglês, e ele explicou que era curiosidade, que como minha barba era cheia ele imaginava que o resto do corpo acompanhasse. Prosseguiu afirmando que, no caso dele, a barba era rala e o corpo quase sem pelos, e eu respondi de forma objetiva que tinha poucos pelos também, nem liso nem particularmente peludo, e ele assentiu dizendo “bacana” meio vago, como se tivéssemos discutido futebol ou clima.

Seguimos alguns minutos em silêncio, o som do motor constante e o ar condicionado soprando direto no meu rosto, e percebi que a cada parada no semáforo ele inclinava levemente a cabeça para a direita, o que podia ser apenas para conferir o retrovisor, mas considerando o rumo da conversa eu não tinha certeza, e a sensação fez meus ombros ficarem mais rígidos contra o encosto.

Ele perguntou se eu era casado, pois havia notado que eu não usava aliança. Expliquei que era casado sim, mas que o anel tinha ficado apertado depois que meu dedo engrossou um pouco, e ele comentou que também era casado, que casamento era complicado, que a rotina mudava muita coisa, detalhando que sempre teve apetite sexual alto e que a esposa era mais reservada, falando isso com um meio sorriso e um olhar que demorava um pouco além do necessário.

Concordei de maneira genérica, dizendo que cada casal tem seu ritmo, e ele riu baixo, afirmando que nós dois provavelmente nos entenderíamos bem nesse aspecto, porque ele gostava de transar com frequência, e nesse momento peguei o celular e comecei a responder mensagens, tentando sinalizar que a conversa podia encerrar ali.

Mas ele insistiu, dizendo que era apenas curiosidade de amigo, e enquanto falava levou a mão direita na direção do meu rosto, aproximando os dedos da minha barba, pedindo permissão para tocar só para sentir a textura, e eu me inclinei para o lado, sentindo o tecido do banco raspar no meu braço, e disse com calma que não tinha interesse nesse tipo de interação, que só queria chegar em casa e descansar.

Ele retirou a mão imediatamente, pediu desculpas, afirmou que não era gay e que tudo não passava de um mal entendido, e o resto do trajeto seguiu em silêncio, quebrado apenas pelo som do GPS anunciando a próxima conversão.

Quando finalmente paramos em frente à minha casa, vi pelo vidro o portão fechado e a luz da varanda acesa, e senti o corpo relaxar um pouco, mas ao tentar abrir a porta percebi que estava travada, enquanto ele fazia um gesto com a mão pedindo que eu aguardasse, se inclinando para frente e enfiando o braço debaixo do banco.

Observei cada movimento com atenção, o som do tecido sendo arrastado e o leve rangido da mola do assento, e senti a pele das costas arrepiar enquanto segurava a maçaneta com força, até que ele puxou uma nécessaire preta, colocou sobre as pernas e abriu o zíper devagar, revelando papéis organizados e um pequeno maço de cartões.

Retirou um cartão e estendeu na minha direção, dizendo que, se eu precisasse, era só ligar, pedindo desculpas novamente por qualquer desconforto, e eu respirei fundo ao perceber que se tratava apenas de um pedaço de papel retangular com letras douradas impressas.

Peguei o cartão, ele destravou a porta, e desci do Corolla sentindo as pernas levemente trêmulas, atravessando a calçada até o portão, que abri com a chave ainda na mão suada.

Já dentro de casa, sob a luz branca da sala, examinei o cartão com atenção e li de um lado “Bearded Barber Shop, barbearia e cabelo”, com endereço e telefone, e do outro “Motorista Particular com hora marcada”, percebendo então que toda a conversa sobre barba, genética e textura tinha sido, no mínimo, coerente com o marketing pessoal dele, embora a forma de abordagem tivesse sido excessivamente dedicada.

Sentei no sofá, apoiei o cartão na mesa de centro e fiquei alguns segundos olhando para a porta fechada, escutando ao longe o barulho do motor do carro se afastando, e concluí que, naquela noite, além da corrida até em casa, eu tinha participado involuntariamente de uma estratégia de divulgação que incluía análise capilar detalhada e perguntas que ultrapassavam o roteiro comum de um trajeto urbano.